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Cine Clube Cult #4

>> terça-feira, 16 de julho de 2013

(Confira os posts sobre cinema anteriores aqui, aqui, aqui e aqui.)

Hoje falo sobre três documentários a que assisti no último mês e que despertaram meu interesse pra esse gênero não muito comercial e sem apelo no chamado grande público (aposto que você pode contar nos dedos a quantos documentários já assistiu, espontaneamente, no cinema - trechinho de documentário que por acaso tava passando na TV quando você ligou não vale!)


O primeiro deles é A ponte, de 2005. Durante um ano câmeras gravaram a movimentação na Golden Gate, em São Francisco, e registraram mais de 20 suicídios. Acompanhamos os movimentos de cada um: chegar na ponte, hesitar, ou decididamente atravessar as grades de segurança, depois se jogar - ou ser impedido, ou desistir. O documentário foi concebido de maneira que cada suicida virasse um personagem: os depoimentos de parentes e amigos de cada um dão contornos humanos ao corpo que assistimos cair. Assistimos e não podemos fazer nada para impedir. O documentarista registra, mas não interfere. Não aciona um alarme, não disca 911. 

A sensação de quem assiste não pode ser outra que não a de angústia. O suicídio é um tema que suscita questões existencialista no mais pueril dos homens: o que leva alguém a tirar a própria vida? eu tiraria a minha? o que me prende à vida? o que me impede de morrer? é covardia? é coragem? (ser ou não ser, eis a questão! existir ou não existir?). Os depoimentos de quem ficou também são angustiantes: eu poderia ter evitado! eu poderia ter ajudado! eu poderia ter impedido! eu não fiz o suficiente, não amei o suficiente, não me importei o suficiente, não... A vida interrompida deixa pra trás diálogos inacabados que o documentário tenta reconstituir.

Essa angústia também a encontramos em Elena, mas de forma diferente. Elena é leve, sutil, uma busca apaixonada que se alimenta de passado. Tudo no filme remete a essa leveza: o foco da câmera, a lindíssima trilha sonora, o balé de Elena, o balé de Petra, o fluir da água do rio... Tudo é leve como a existência que é até não ser mais.

Elena se recusa a ser medíocre naquilo que ama, naquilo que entende como vida: a arte. Elena se recusa a não ser capaz de realizar seu sonho. Petra, que também entende a arte como vida, usa a arte - em forma de documentário - pra estilizar, modelar, e entender sua busca pela irmã mais velha que agora é ausência.
Petra filma a ausência de Elena: Elena não está. Elena não mais é.
É um filme belo de amor e saudade, e que fala do poder transformador da arte - do que é ser artista, do que é entender o mundo pela arte, do que é fazer da arte o principal mediador entre o eu e o mundo.


O terceiro documentário é Dossiê Jango, que também é a história de uma ausência. Em Dossiê Jango o que se vê é um Brasil que poderia ter sido e não foi. A primeira metade do filme é uma pergunta: e se? E se Jango não tivesse sido deposto? E se o golpe não tivesse acontecido? E se Jango conseguisse fazer as reformas de base que propôs? E se...? Que Brasil seríamos? (Talvez a mãe de Elena pudesse ter sido atriz em vez de ter que se esconder da ditadura).

Nas cenas do documentário vemos um futuro que nos foi negado, roubado - deposto. Assassinado? A narrativa do documentário, que tem apoio da Fundação João Goulart , que se intitula "dossiê", reúne e organiza uma série de fatos que apontam para a comprovação de uma hipótese: João Goulart foi criminosamente eliminado por seus opositores. Se não consegue comprovar a hipótese, ao menos tem o êxito de fixar a hipótese como plausível: João Goulart pode ter sido assassinado. Há que se investigar.

Além disso, e, mais importante que isso, é o levantamento cuidadoso de uma época da nossa história que é sistematicamente silenciada, difusa: um retrato em sépia. Pra quem nasceu na democracia, como eu, o documentário preenche uma lacuna deixada pela escola que não soube - ou não quis - trabalhar com profundidade o que aconteceu na história dos presidentes entre JK e Color.

(No imaginário do jovem de 25 anos médio brasiliense figuram com destaque nomes como Getúlio Vargas e JK. Jânio Quadros e João Goulart são a mesma pessoa, um golpe aconteceu em 64, em 68 o AI-5 endureceu as coisas, nos anos 80 veio a redemocratização, Sarney foi o primeiro presidente civil em vinte anos, Color o primeiro eleito, depois FHC, Lula, Dilma e fim.)

Dossiê Jango tem um peso diferente de acordo com a geração que o assiste. Pra minha geração, fica o sentimento de que o país em que vivemos teve seu futuro roubado. De que para recuperarmos esse futuro, ou a possibilidade de tê-lo, gente lutou, resistiu, morreu.

E eu com isso?

Qual o meu lugar nessa história? Pelo que eu luto? A que forças resisto?

***

O gênero documentário utiliza arquivos de imagens, documentos reais, depoimentos e entrevistas autênticos, mas nem por isso deixa de ser estilizado. Há um argumento, uma direção, um fio narrativo que antecipa algumas conclusões do expectador, que indica trilhas de aparente dedução. Mas não é menos verdade por isso. Talvez, aliás, (e aqui roubo a frase a muita gente) só exista verdade na ficção.

O que tem me atraído nesses filmes, nesses três especificamente, é o grau de abertura para uma resposta - o expectador é muito mais livre para completar de sentido os fatos expostos nos documentários.
É um convite ao pensamento e à sensibilidade, a uma tomada de posição, à formação de opinião.

Aceito o convite, e o amplio a quem venha a ler esses breves comentários.

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"Felicidade não acompanha este produto"

>> quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sabe aquelas propagandas da Barbie e do Max Steel (matel!) que recheiam a programação matutina de todos os canais de tv aberta? Se você reparar bem (você adulto, criança não repara, claro!), no final ou durante o comercial o locutor fala rapidinho (ou aparece em letrinhas miúdas) coisas como "movimentos feitos em computador", "pilhas a baterias não acompanham o produto", "acessórios vendidos separadamente" enfim, algum tipo de aviso que alerta a criança que depois que ela tirar a sua barbie butterfly recém-comprada da caixa, ela não vai sair voando encantada - como faz no comercial.



Acho que passou da hora do Conar baixar uma regrinha parecida pra comerciais para adultos também. Já posso imaginar os avisos: em comerciais de supermercados "felicidade não acompanha as carnes do nosso açougue", nos de sabão em pó "babá pra olhar seu filho enquanto ele se suja não está inclusa no produto", nos de desodorante "não nos responsabilizamos por eventuais mulheres de bom senso que não se joguem em cima de você por causa desse deste produto, nem por mulheres feias que o façam", nas de roupas "os amigos são vendidos separadamente".
Seria um jeito muito mais honesto de vender coisas. As crianças estão mais protegidas dos efeitos nocivos da propaganda do que nós!

***

Entrei nesse mundo de consumo quando eu virei adolescente. Antes disso, a criação dos meus pais era: ter um item de cada coisa, e comprar outro quando o primeiro ficar muito (muito!) gasto ou estragar. Então eu e meus irmãos tínhamos, por exemplo, um chinelo de dedo, um tênis pra educação física e um sapatinho mais arrumadinho pra sair (e isso nos anos 90, minha gente! quando todo mundo já tinha todos os modelos possíveis da sandália do seninha!) E assim era com todo o resto. A gente só ganhava um novo quando o velho estragava - e olhe lá, se não desse pra dar uma remendada, rs. E era assim não porque não houvesse dinheiro (ok, também era isso, já que se meus pais comprassem um tênis novo pra um dos filhos, por exemplo, os outros dois tinham que ganhar também), mas por que meu pai separava - e ainda separa até hoje - as coisas entre necessárias e supérfluas. Coisas necessárias, ok, ele comprava. Coisas supérfluas (e pra ele quase tudo era supérfluo), a gente compraria com o nosso próprio dinheiro, ou seja, dali a uns dez anos.

***

Quando finalmente entrei no mundo do consumo (quando as contas passaram pra mão da minha mãe, aeaeae), acreditava que cada coisa nova que eu comprava teria o poder de mudar a minha vida e todas as minhas relações sociais (inexistentes). Uma blusa preta seria meu passaporte para o grupo dos rockeirinhos. Uma melissinha da wanessa camargo com cheirinho de fruta me daria livre entrada no mundo das patricinhas. Uma saia da sabrina me permitira conversar com as periguetes tranquilamente.
Escolha qual dos estilos da Renner você quer comprar
E foi bem isso que aconteceu - só que não, rs. Demorei a entender que, seguindo esse pensamento consumista, eu deveria comprar todo um estilo de vida. Guarda-roupa completo, com seus devidos acessórios. Queria ser hiponga? Ok, não basta comprar um vestido da torre desbotado com Qboa - mas vários! E blusinhas, e saias, e milhares de acessórios com todas as sementes encontráveis no cerrado. Porque tudo tinha que combinar. Tudo tinha que conversar. Porque a sua roupa tinha que indicar, de cara, em qual quadradinho social você estava.
Já no ensino médio e no começo da faculdade, eu juro que eu queria ser nerd. Ser identificada como nerd ou hipster. Mas, céus, vocês sabem quanto custa uma camisa xadrez da Timbaland?  Uma armação de óculos da Rayban? (devo admitir ao menos a vantagem desse estilo, que é poder ter só uma coisa de cada, afinal, por mais que você tenha várias, no fim aquelas blusas quadriculadas parecem sempre a mesma, sorry)
Pior, você sabe quanto custa uma camiseta do Che? (sim, porque no mundo capitalista tudo virou produto, inclusive - e por que seria diferente?- a ideologia socialista)



***

Acho que foi nessa dificuldade/impossibilidade de escolher um estilo de vida pra comprar - e comprar junto os amigos e a cultura que vinham com esse estilo, que surgiu o personagem Laranjinha. Pronto, minhas coisas se ligavam por uma cor, não pelo estilo cultural. Daí eu podia ser hiponga de vez em quando, patricete de vez em quando, piriguete de vez em quando, que no fim das contas e pra todos os efeitos eu era só "a menina que vestia laranja".

***

Depois que eu comecei a trabalhar, a princípio como secretária, me senti socialmente constrangida, e tive que comprar outras roupas, que deveriam ter vindo com avisos como "postura de mulher adulta não acompanha esse terninho". Assim que deixei de ser secretária  me tornei uma pessoa mais feliz, pelo menos no vestuário. Hoje vou trabalhar de all star (atitude jovem não acompanha), calça jeans, camiseta e mochila (detesto bolsas!), não porque eu seja rebelde (uhul!), mas porque é o tipo de roupa que me deixa confortável pra trabalhar por 8 horas e, mais importante que tudo, são as roupas que eu já tenho. Não tenho dinheiro, ou não é uma das minhas prioridades financeiras agora, comprar um novo estilo de vida que se traduza no que eu visto.

***


Assim como pra ser expert em literatura não basta você comprar uma biblioteca fantástica (é, tem que ler os livros, colega, instrução não acompanha), usar um determinado desodorante não basta pra você ser sexy, usar o look da moda não basta pra você ser descolado, comprar um sabão em pó certo não basta pros seus filhos serem crianças loirinhas e saudáveis, usar um smartphone não te dá amigos nem uma vida interessante pra compartilhar com eles.

O mais preocupante é que, diferente do argumento dos publicitários, nem todos os adultos têm o discernimento de entender isso sem as letras miudinhas ao fim do comercial. São apenas crianças crescidas que ficam frustradas ao perceberem que suas vidas não foram modificadas em nada pelos produtos que compraram. Ao perceberem que pra brincadeira com o Max Steel ser tão legal quanto na propaganda, elas precisam não de todos os bonecos com todos os acessórios, mas de amiguinhos pra brincar junto. Que pra família ser tão feliz e harmoniosa  quanto no comercial do apartamento, elas precisam ser pessoas melhores e mais atenciosas, e não morar no Alpha Ville 3 com piscina e garagem coberta - felicidade também não acompanha esse empreendimento imobiliário.

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Cine Clube Cult #3

>> terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Há tempos que venho me prometendo escrever um comentário pra cada filme que eu assisto, pelo menos para cada um que me marca de alguma forma... mas, ah, que preguiça!

Vez por outra a disposição vence a batalha e saem alguns textos. Pra conferir clique aqui, aqui e aqui.

Parece que a disposição venceu mais uma vez! Seguem breves comentários sobre os últimos filmes que eu vi - e gostei - no cinema (com spoilers!)

No - Ok, confesso que o que me levou ao cinema para ver esse filme foi essa carinha linda de revolucionário ultra-jovem do Gael. Sério, eu assisto qualquer filme com o Gael. Qualquer um. Até mesmo os bem mais ou menos. Assim, fui lá eu assistir No. O filme conta a história do plebiscito que levou o povo do Chile às urnas para decidir se o general Pinochet continuaria ou não no poder, em 1988 (eu nem tinha nascido). O personagem de Gael é um publicitário de sucesso, convidado para ajudar na campanha do "No" - que não tinha nenhuma esperança de ganhar.


O desafio da campanha era convencer o povo 1) a votar, sem medo de represálias 2) a votar no "não", a priorizar a liberdade de expressão, a democracia e o fim da violência do Estado em relação ao desenvolvimento do país.

A impressão que a câmera do filme passa é a de ser uma daquelas usadas pra fazer filme caseiro, bem América Latina, fim dos anos 80. É estranha a sensação de estar assistindo o que podemos chamar de um "filme de época" (figurino diferente, objetos diferentes, o ultra moderno microondas) e pensar que aquela "época" tão detalhadamente ali caracterizada tem apenas está apenas 25 anos atrás de nós.

Pra quem já não sabe o fim da história (afinal, são fatos históricos, aconteceram ontem, todo mundo devia saber, certo?) o suspense e a tensão são eficientes! Eu confesso que não sabia o final (sabia que o Pinochet tinha deixado o poder eventualmente, não sabia como, rs) e o filme me prendeu do começo ao fim. Todo o processo da campanha "sim" contra "não" me lembrou também a infância no DF e as propagandas eleitorais "Roriz" contra "Candidato do PT", e tudo o que se falou do "Lulinha Paz e Amor" de 2002. 

Pra mim, além das questões históricas, éticas, políticas, "No" é um filme essencialmente sobre propaganda - todos os que consomem publicidade deveriam ver e sair do cinema se perguntando se há algum gosto ou crença deles que não foi moldado por um publicitário.

Chile, la alegría ya viene!








Cara, Argo é um puta filme de suspense! Claro, como o anterior, é suspense pra quem não sabe a história real na qual o filme se baseia. E como no anterior, eu não sabia (me dei conta de que meus conhecimentos de história sobre o período entre o golpe militar em 64 e o atentado às torres gêmeas em 2001 são nulos!).

Gostei bastante, também me deixou presa do início ao fim. É um filme muito bem feito, com um "que" de documentário na câmera. O demolidor Ben Afleck conseguiu deixar claras as relações comerciais e diplomáticas controversas entre os Estados Unidos e o Irã, mas prefere repetir o chiste "ar-gofuck yourself" pra quebrar a tensão das discussões sobre democracia, liberdade, ética, violência e tortura etc. 
Dá a  impressão de que o pensamento foi "ok, colocamos as cenas e os fatos aí, você, telespectador, escolhe sobre o que vai refletir em casa, não nos comprometa!"

O meu único porém em relação a esse filme é a cena depois da sequência super tensa em que os reféns finalmente embarcam no avião e deixam o espaço aéreo iraniano. 
 A cena do alívio é desproporcional a todo o clima do filme. É uma cena longa, barulhenta (com aquela trilha de "DEUS SALVE A AMÉRICA" e contradiz todo o tom dúbio e de autocrítica que estava sendo adotado até ali. Naquela cena nada mais importa: os outros 50 prisioneiros americanos que estão sendo vítima de tortura, a política intervencionista dos estados unidos, nada, nada, nada: apenas importa as seis vidas americanas que acabaram de ser salvas, graças ao super agente da CIA, e à boa ação do presidente Carter que liberou as passagens. Ah, vá.

À parte disso é um ótimo filme e, bem, é americano. Ficou a curiosidade pra saber como os iranianos contam a história.



Ah! Django é simplesmente sensacional! Não sei por onde começar a comentar o filme, todo mundo já comentou o filme. Vamos tentar.
Sim, é um "Tarantino", com sangue, violência e referências a filmes de bang bang que eu não assisti.

Com uma trilha sonora fantástica, o que mais me impressionou no filme foi a elaboração dos personagens e as atuações. Vou comentar meus preferidos, tentando fugir um pouco do muito que já se falou e registrando minhas impressões pessoais:

1) Dr Schutz (Waltz), um alemão caçador de recompensas, assassino profissional e eficiente, que não vê dilema ético na sua profissão - mas cuja sensibilidade é atingida pela brutalidade do tratamento aos escravos no Sul americano. As frases "Eu te dei a liberdade e agora me sinto responsável por você", dele, e "Ele não está acostumado com americanos", do Django, são as que melhor o definem. (incrível pensar que Tarantino coloca um alemão pra ser o humanista da história, depois de escrever e filmar Bastardos Inglórios! - aliás, sobre bastardos inglórios: assistir no cinema um cinema cheio de nazistas pegando fogo foi uma das grandes experiências cinematográficas da minha vida, rs)

2) Monsieour Candie (Leonardo DiCaprio) no papel do afetadinho que não sabe mais o que fazer com o dinheiro que herdou do pai e do avô está sensacional. Mimado, profundamente egoísta, exibicionista e vaidoso, superficial, entediado ao ponto de só se excitar com demonstrações públicas de poder e com as lutas entre os escravos. Uma peça fácil de no joguete de manipulação pelo personagem mais extraordinário do filme,

3) Mr Stephen, interpretado por um Samuel L. Jackson cheio de fúria e paixão. Mr Stephen é o cara que mostra que a teoria frenológica de Monsieur Candie não tem a menor base: pra ser inteligente e filho da puta tanto faz a sua etnia. Stephen aprendeu a manipular seu dono, (muito melhor do que degolá-lo, muito mais útil e mais sutil), e pra manter seu próprio poder jogava com ele, ora submisso, ora puxa-saco, ora conselheiro humilde. A atitude de Stephen não é só um racismo de negro contra negro: é uma atitude de legítima autopreservação: que valor um escravo que aprendeu a manipular os seus donos teria num mundo sem escravidão? O seu status dentro da fazenda dependia da manutenção daquele sistema - é esse o pensamento de todo aquele que não usa seu poder e influência para iniciar uma revolução!



Como eu sempre digo quando comento de cinema aqui: é a opinião impressionista de uma telespectadora diante de uma obra de arte/consumidora de um produto, nada técnico. Eu não entendo de cinema, mas sei um cadim de narrativas, rs.

Fica a dica pra quem ainda não viu os três filmes: ainda estão em cartaz no cinema do Liberty Mall, corre que dá tempo!



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Palhaço por vocação

>> sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Depois da onda politizada que invadiu esse blog, resolvi escrever sobre a segunda coisa que me emocionou de alguma forma nessa semana.

Assisti na última terça-feira o filme O palhaço, do Selton Mello. Fui pega de surpresa por um filme que veio falar diretamente com as minhas crises e neuras desse ano complicado de 2011.

Se você não conhece o filme, antes de ler o comentário que segue de uma expectadora comovida, sugiro que você clique aqui e volte daqui uns 10 minutos e alguns cliques.

 As boas e positivas críticas do filme têm apontado o cuidado da direção de arte, os acertados planos geométricos, a justa homenagem aos circos itinerantes e aos grandes ícones da comédia brasileira, o bom gosto da trilha sonora, entre outros desses aspectos técnicos e artísticos.

Meus aspectos são puramente emotivos. A história de Benjamin é também a minha história - ou uma história que poderia ser minha.

(a partir daqui o texto tem informações sobre o desenrolar e o final do filme)

A história de Benjamin é a história de alguém que está saturado do seu trabalho - saturado de viver o circo dentro e fora do picadeiro, como palhaço e como administrador. Saturado de ter que ser "o" responsável por tudo o que acontece, de ser o balcão de reclamações dos outros integrantes do circo, de ter tanta coisa pra resolver.

Quando essa saturação chega a um nível crítico, algo de fora parece convidá-lo a sair dessa realidade de trabalho e problemas a serem resolvidos. O ventilador. O ventilador é movimento, e está em todos os lugares - menos no circo.O ventilador é aquilo de novo que vai trazer alguma forma de alívio e que ele só vai encontrar se estiver fora do circo.

Enquanto essa alucinação que está fora chama nosso amigo Benjamin, por dentro, a confusão só aumenta: "Eu faço todo mundo rir... mas quem é que vai me fazer rir?". Benjamin não sabe mais qual é sua vocação. Não sabe mais ser palhaço, e parece não saber mais interagir com as pessoas, porque está ocupado num tremendo esforço interno de descobrir quem ele é. Quem o vê de fora acha isso "engraçado" (quantas vezes você já esteve na preseça de uma pessoa internamente confusa ou em contradição e disse "você é engraçado?)

Quando o convite daquilo que é externo torna-se irresistível, Benjamin decide partir. Entrega-se ao novo com coragem e determinação, na busca ansiosa de descobrir se esse novo preencherá o vazio que ele sente.

Não preenche. Num ato ainda mais corajoso, Benjamin volta. Volta porque, longe, descobriu novamente a alegria de fazer alguém rir. No final feliz do filme de Selton Mello, Benjamim tem a coragem de voltar para o que abandonou - não porque estivesse arrependido, se não tivesse partido nunca reconheceria sua vocação, mas porque só a distância de tudo o que ele conhecia e amava pôde reconciliá-lo com sua própria identidade.

***

Conhecemos outros finais não tão felizes em que a distância só aumenta a angústia e a solidão, e a frustração e vergonha de ter ser se venturado no novo e  não ter dado certo impede tantos palhaços de voltar pra casa; ou em que falta a coragem de largar tudo, e o palhaço termina encerra seus dias fazendo os outros rirem de sua própria tristeza. Em outro tipo de final feliz, Benjamin poderia ter descoberto que o Aldo da Aldo Auto Peças era na verdade pai de Ana, poderia ter se casado com ela e mandado um cartão de natal com uma foto de sua família para o circo, ou visitado o circo com a sua prole.

O final não importa muito. O importante é a coragem de buscar. A coragem de enfrentar suas angústias, de perseguir o novo - ou o ventilador, de reconhecer que o presente não está bom do jeito que está - por mais que a gente ame o lugar e as pessoas desse presente.

***

Em pouco mais de uma hora, vemos Benjamin começar e resolver sua crise de vocação e identidade. Quando eu disse ali em cima que essa poderia ser também a minha história, não quis dizer que também vou abandonar o circo em que vivo e ir atrás de ventiladores. Quis e quero dizer que a minha história também é a de alguém que está buscando e se questionando. Mas, em vez de pouco mais de uma hora, espero ter uma vida inteira para achar meu final - torçamos para que seja feliz - ou meu ventilador, ou meu picadeiro. Ver Benjamin encontrar seu caminho foi como ver um alguém que acaba de enfrentar um desafio que estamos prestes a enfrentar e pensar: se ele conseguiu, eu também consigo!

- O gado bebe leite, o rato come queijo, e eu? Eu pergunto.

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O retrato de Dorian Gray

>> sábado, 3 de abril de 2010

"Bem... Não sei explicar. Quando gosto imenso de uma pessoa, nunca digo a ninguém o seu nome. Seria como que entregar uma parte dela. Habituei-me a manter o segredo. Parece ser a única coisa que nos pode tornar a vida moderna misteriosa, ou maravilhosa. A coisa mais banal adquire encanto simplesmente quando não revelada. Quando me ausento da cidade, nunca digo aos da casa para onde vou. Perdia todo o prazer, se o fizesse. É um hábito tolo, confesso, mas, de certo modo, traz algum romantismo à nosa vida. Você deve achar tudo isto um disparate."

***
O nome desse segredo é O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, publicado em sua versão definitiva em 1891.

Este é um livro-teste. Rápido e delicioso de ler, ele revela o nosso grau de sensibilidade pra arte e pra vida. Ele tira o leitor por alguns instantes da sua rotina preto-e-cinza, e o leva para um mundo cheio de cores, cheiros, toques, vaidades, segredos e desejos, a que este assiste entorpecido, saboreando o gosto de cada palavra.

Depois de ler, se você voltar pra rotina preto-e-cinza sem ter ao menos considerado a hipótese de viver um minutinho na pele do jovem Dorian Gray, esqueça! Você está imune ao fascínio que a Beleza exerce sobre os mortais - e imortais - e é melhor desistir da Literatura, da Arte, de qualquer forma de prazer contemplativo. (é, qualquer forma!)

Não vou agora falar sobre a história do livro (google it), nem sobre a crítica à sociedade vitoriana hipócrita e hedonista que faz o Wilde (oops, falei!), porque minha a dica é: saboreie a leitura e depois pense um instante no que, pra mim, é o grande barato da literatura e o grande mérito do bom autor: Oscar Wilde vai te fazer refletir criticamente sobre a arte, o prazer, a literatura, a beleza, através... através de uma obra de arte, com as descrições mais belas e deliciosas que você já teve o prazer de ler!


Ficha:

O retrato de Dorian Gray (The picture of Dorian Gray), 1890 (1ª versão). 1891 (2ª versão, acrescida de um prólogo e seis capítulos)
Autor: Oscar Wilde, escritor irlandês, biografia aqui (em inglês) http://www.cmgww.com/historic/wilde/
Média nas edições brasileiras de 200 páginas.

"Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil,
contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa
inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil." - Prefácio de O retrato de Dorian Gray


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