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Eu, mestre!

>> quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aaaaah, como eu esperei pra escrever esse post!

Sei que já deve ter gente de saco cheio desse mimimi, querendo falar pra mim "Ok, ok, todo mundo já sabe, você é mestre com 22 anos, parabéns, agora senta lá!", e eu não ligo, rs.

Acompanhe a saga do eu, mestranda aqui, aqui, aqui e aqui.

Terminei a monografia no 1/2010, fiz a seleção do mestrado e mais vinte créditos da graduação durante o 2/2010. Em 2011 fiz as quatro matérias do mestrado e comecei a escrever o texto final. Em 2012 finalizei o texto e defendi. Tudo isso trabalhando numa área totalmente diferente (ministério da saúde), 40 horas semanais. Foi difícil! Tenho meus motivos pra comemorar por muito tempo!

Mas isso já está dito na série mestranda, rs. Vamos ao capítulo final dessa novela: a defesa. Terminei o texto no final de setembro, mas a banca só foi marcada para o dia 28 de novembro, por um motivo: o professor, crítico e tradutor Paulo Bezerra foi convidado a participar - aproveitando a sua vinda para um Seminário do meu departamento, dias 29 e 30.

Ok, passei o mês de outubro na flauta, livre, leve e solta, feliz e contente, de férias. Entrou novembro e eu ganhei de presente do meu trabalho a missão de representar o Ministério em Porto Alegre (!!!), terra do Verissimo.

Voltei a uma semana da defesa. E então caí na real: Eu seria a primeira orientanda do meu professor a defender! Paulo Bezerra estava lendo meu trabalho! O cara que traduziu Dostoiévski, o cara que traduziu e interpretou o pensamento bakhtiniano, o cara que eu citei e parafraseei pra falar de Incidente em Antares!

Daí surtei. Imunidade caiu, fiquei resfriada, perdi a voz, fiquei numa tpm eterna de ansiedade e medo: medo mesmo, de não conseguir falar na hora - travar - de "apanhar" muito na banca, de ter errado muito, de não saber responder... medo, medo, medo. 

Por quê? Porque o nível de exposição era muito alto... num trabalho desses estão horas da sua vida, todo o seu melhor, todo o seu potencial, tudo o que você podia oferecer... ali, sujeito à livre avaliação de outras pessoas, a mercê da boa vontade de outras pessoas - pessoas que têm mais autoridade, conhecimento e experiência que você.

E, pessoalmente, quem me conhece sabe que a minha exposição excessiva é fake. Eu evito ao máximo me expor em situações que realmente me atingem. Então, sinceramente, eu não ligo pro que possam pensar do meu jeito, dos meus gostos, das minhas escolhas, da minha aparência - nada disso me atinge negativamente. 
Mas o meu texto é o meu ponto fraco. É o meu orgulho, é a minha vaidade, é onde eu apresento o melhor de mim. E pensar que esse melhor de mim pode ser considerado não tão bom me deixa insegura, ansiosa, faz com que eu me sinta frágil, vulnerável, exposta: me faz ser de novo aquela menina tímida de onze anos que eu era na escola.

Mas ok, não tinha pra onde correr: me arrisquei. E eis que o fatídico e chuvoso 28 de novembro,  aniversário de 37 anos da morte de Verissimo, chegou. Reunida a banca, por pouco mais de meia hora eu falei sobre o meu trabalho, nervosa, engasgando um pouco, mas sem travar. E terminei esperando o pior. Mas veio o melhor: O prof Paulo Bezerra elogiou meu trabalho, logo de saída! Me comparou a Graciliano Ramos, definiu dois parágrafos como brilhantes, elogiou a escrita, a leitura, a análise. Naquele momento coloquei minhas mãos no título de mestre! 

As "batidas" que vieram depois, eu nem senti. Respondi às críticas como pude, e esperei pela fala do prof. Vianney, o segundo membro da banca, que também elogiou meu trabalho antes de tudo: a fluência, a pertinência, a boa escrita - para depois fazer as críticas e observações - sempre de forma gentil e profissional, assim como o prof. Paulo.

A banca deliberou o resultado: APROVADA - com a sugestão de transformar o trabalho em ensaio a ser publicado ou em livro! APROVADA, uma palavra que me libertou de uma tensão acumulada por dois anos! Acabou! Passei! Sou mestre (ou mestra, mas eu não tenho preconceito contra o comum de dois gêneros)! Um dos maiores críticos literários desse país leu - leu de verdade! - e gostou do meu trabalho! Tudo, tudo, tudo valeu a pena!

Então, eu tenho mais é que comemorar, né? Foi difícil, deu trabalho, me comprometi de verdade - e ainda tive que rebolar pra não parar o convívio social, as viagens, enfim, a vida "normal"  por causa disso.

Agradeço a todos que torceram, vibraram, se orgulharam - os agradecimentos oficiais que foram pra dissertação estão aqui. Agradeço aos coleguinhas mestrandos - eu sou vocês amanhã! - e ao meu orientador - agora meu amigo! Agradeço à TL do tuíter e do facebook que presenciou involuntariamente meus surtos a cada prazo, a cada madrugada, a cada véspera.

Agradeço de novo também - e nunca vai ser o suficiente - à minha família, aos meus pais, meus grandes amores, queridos, parceiros, lindos! É tudo pra vocês!

Enfim, chega de racionalizar! Tou feliz, e só quero deixar essa felicidade fluir enquanto ela durar! Só tenho a agradecer! Agradecer, agradecer e agradecer! Obrigada! Essa conquista não valeria nada pra mim se eu não tivesse pessoas tão especiais com quem dividi-la!

Pra quem tiver interesse, assim que eu terminar os trâmites burocráticos pro depósito da dissertação no departamento, converto em pdf e coloco em alguma biblioteca digital. Até lá, fica a dica: leiam O prisioneiro do Erico Verissimo, é curtinho. A minha análise desse romance foi a parte mais elogiada do trabalho :)

E agora, qual será a próxima saga? Eu, concurseira? Eu, doutoranda? Eu, atriz, modelo e apresentadora de TV? Aguardemos!

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avulsas #4

>> segunda-feira, 4 de junho de 2012

De Erico Verissimo: O tempo e o vento, Parte 3, Vol. 1 - O arquipélago, 2005, p.246

Qualquer dia por vingança o velho sino da Matriz estará dobrando para anunciar a Santa Fé a morte do Dr. Rodrigo Terra Cambará.

Num misto de auto-sarcasmo e autopiedade imagina o próprio funeral. Luto no Sobrado. A rua apinhada de gente. Decidem levar o caixão a pulso, até a metade do caminho.Depois metem-no naquele repulsivo carro fúnebre do Pitombo, com figuras douradas em relevo nos quatro ângulos (uns anjos com cara de tarados sexuais) e aqueles matungos com plumas pretas nas cabeças. Tráfego interrompido nas ruas por onde passa o cortejo. Uma fileira interminável de automóveis... Santa Fé em peso no enterro. O comandante da Guarnição Federal. O Prefeito. O Juiz de Direito, enfim, todas essas personalidades que A Voz da Serra classifica como "pessoas gradas". O cafajeste do Amintas também lá está, com uma fingida tristeza no rosto escrofuloso. Mas quem é a moça que vai sozinha ali naquele auto, com cara de forasteira, toda vestida de preto e com óculos escuros? Então não sabem? É a amante do Dr. Rodrigo. Verdade? Mas que jovem! Pois é, podia ser filha dele. O patife tinha bem-gosto.

Agora o cortejo está no cemitério à frente do mausoléu dos Cambarás. (Rodrigo remexe distraído a canja, com a colher.) O falecido pediu antes de morrer que não deixassem sua cara exposta à curiosidade pública. É por isso que não abrem o caixão. Fala o primeiro orador. Quem é? Pouco importa: Mas como diz besteiras! Fala o segundo: vomita também um amontoado de lugares-comuns. Nunca, ninguém, nem os filhos do morto, nem sua mulher, nem seus melhores amigos poderão fazer-lhe justiça. Porque ninguém na verdade o conhece. Viram dele apenas uma superfície, um verniz externo. Ninguém chegou a compreendê-lo na sua inteireza, na sua profundeza. E depois que o deixarem entaipado no cemitério, a cidade continuará os seus mexericos, as suas maledicências, lembrando-se apenas daquilo que se convencionou chamar de de defeitos do dr. Rodrigo Cambará. E ele morrerá desconhecido como viveu. Desconhecido e caluniado, o que é pior. Mesmo os elogios dos oradores serão insultos. Ah! como gostaria de fazer um discurso ao pé do próprio cadáver! Não seria uma oração de provocar lágrimas, não. Ia contar verdades, lançá-las como pedradas na cara de todos aqueles hipócritas.Porque, com a exceção dos que realmente o amavam - alguns parentes, poucos amigos -, os outros lá estavam por obrigação social ou por puro prazer sádico. Eram uns invejosos, uns despeitados. uns covardes, uns impotentes! Não podiam encontrar um homem autêntico que não sentissem logo desejo de vê-lo destruído e humilhado. Era-lhes insuportável o espetáculo dum macho que tem a coragem de agarrar a vida nos braços, ser o que é, dizer o que pensa, fazer o que deseja, comer o que lhe apetece. Foram quase todos ao enterro para assistirem ao fim daquele monstro, para terem a certeza de que ele ia ficar para sempre encerrado no jazigo, a apodrecer... Tiveste a coragem de viver? Agora paga! E todos aqueles necrófilos, todos aqueles moluscos podiam voltar tranquilos para suas casas, para suas vidinhas apagadas, para as esposas que detestavam mas com as quais eram obrigados a viver e a dormir, para seus probleminhas sem beleza, para as dificuldades financeiras do fim do mês, para a azeda rotina cotidiana, para seus odiozinhos, suas birrinhas, suas mesquinhas invejas, para seus achaques - em suma - para todas aquelas coisas pequenas e melancólicas de seu mundinho de castrados!

Canalha! Só de pensar nestas coisas Rodrigo sente que tem a obrigação de não morrer.

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avulsas #2

>> quinta-feira, 19 de abril de 2012

Trecho de O mal-estar na civilização, de Freud, 1930, p. 28 desta edição.

Apesar dessa incompletude da nossa investigação, arrisco-me a fazer algumas observações conclusivas. O programa de ser feliz, que nos é imposto pelo princípio do prazer, é irrealizável, mas não nos é permitido, - ou melhor, não somos capazes de - abandonar os esforços para de alguma maneira tornar menos distante a sua realização. Nisso há diferentes caminhos que podem ser tomados, seja dando prioridade ao conteúdo positivo da meta, a obtenção do prazer, ou ao negativo, evitar o desprazer. Em nenhum desses caminhos podemos alcançar tudo o que desejamos. No sentido moderado em que é admitida como possível, a felicidade constitui um problema da economia libidinal do indivíduo. Não há, aqui, um conselho válido para todos; cada um tem que descobrir a sua maneira particular de ser feliz. Fatores os mais variados atuarão para influir em sua escolha. Depende de quanta satisfação real ele pode esperar do mundo exterior e de que até que ponto é levado a fazer-se independente dele; e também, afinal, de quanta força ele se atribui para modificá-lo conforme seus desejos. Já neste ponto a constituição psíquica do indivíduo, à parte as circunstâncias externas, será decisiva. Aquele predominantemente erótico dará prioridade às relações afetivas com outras pessoas; o narcisista, inclinado à autossuficiência, buscará as satisfações principais em seus eventos psíquicos internos; o homem de ação não largará o mundo exterior, no qual pode testar sua força. Para o segundo desses tipos, a natureza de seus dons e a medida de sublimação instintual que lhe é possível determinarão onde colocará seus interesses. Toda decisão extrema terá como castigo o fato de expor o indivíduo aos perigos inerentes a uma técnica de vida adotada exclusivamente e que se revele inadequada. Assim como o negociante cauteloso evita imobilizar todo o seu capital numa só coisa, também a sabedoria aconselhará talvez a não esperar toda satisfação de uma única tendência. O êxito jamais é seguro, depende da conjunção de muitos fatores, e de nenhum mais, talvez, que da capacidade da constituição psíquica para adaptar sua função ao meio e aproveitá-lo para conquistar prazer.

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avulsas #1

>> segunda-feira, 26 de março de 2012

Trecho retirado do volume 2 de O retrato - segunda parte do romance O tempo e o vento, de Erico Verissimo, publicado em 1951. O diálogo se passa em 1910, 4 anos antes da primeira guerra mundial. (2005, p. 136)


***
- Mas por que razão afirmas que a ditadura é a única forma de governar o Brasil? - perguntou Rodrigo.
- Porque este é um país de mestiços e analfabetos. Os eleitores em sua maioria mal sabem desenhar o nome e não têm idoneidade intelectual para escolher seus administradores e legisladores. Cabe, portanto, às elites cultas dirigir o povo e organizar os governos.
Chiru saltou de seu canto.
- E onde fica a democracia? - gritou.
- A democracia - replicou o tenente de artilharia - é uma ficção baseada na romântica ilusão de que o homem é essencialmente bom e que portanto a vontade da maioria será sempre uma expressão de verdade.
Jairo, muito vermelho, sacudia a cabeça, discordando, mas sem dizer o que pensava do assunto.
- E depois - prosseguiu Rubim -, se por um lado a democracia tem como objetivo o bem-estar do povo em geral, por outro a história tem provado sobejamente que essa felicidade só poderá ser atingida por meio dum governo aristocrático. Continuo a afirmar que não tem nenhum sentido lógico ou prático essa busca da felicidade geral. É uma absoluta perda de tempo que atrasa a produção de super-homens. Neste ponto Platão e Aristóteles estão de acordo com Nietzsche ou, melhor, Nietzsche está de acordo com esses dois filósofos clássicos.
Jairo continuava a menear a cabeça, o cenho franzido.
- Pois eu - declarou Rodrigo - sou liberal, isto -e, um partidário da tolerância religiosa, da livre-iniciativa, do livre-pensamento, do respeito ao indivíduo. Acho que todos os homens nasceram iguais e o que os torna desiguais são as circunstâncias e os meios em meio dos quais crescem.
Rubim soltou uma risada e a dentuça projetou-se para a frente, agressiva. Depois de tomar o último gole de vermute, replicou:
- O liberalismo, meu caro Rodrigo, não passa dum disfarce muito transparente do medo. O liberal é um cidadão que se recusa a admitir em voz alta que o homem é um animal de rapina e que o verdadeiro, o único direito que existe na natureza é o direito da força. Por ser liberal ele se considera muito nobre, uma espécie de farol a iluminar o mundo. No entanto, o liberalismo, como o decantado amor cristão, tem origem apenas num sentimento inferior: o medo de que o próximo nos possa fazer mal. Isso nos leva a "amá-lo" (como se tal coisa fosse possível!) a fim de que ele também nos ame ou, pelo menos, não nos queira muito mal nem nos agrida. No entanto, se o liberal se sentisse invulnerável na sua torre de marfim, o que ele faria era seguir a sua tendência natural, ficar indiferente ao próximo ou transformá-lo em seu escravo.
- Absurdo! - aparteou Jairo. - Sem a menor base científica!
Rodrigo aproximou-se do tenente de artilharia e fez-lhe uma pergunta incisiva, marcando bem as sílabas:
- E esse desejo de força, essa necessidade de afirmação que vocês os nietzschianos sentem, não será também um produto do medo?
- Não. É antes um desafio aos deuses!
Ao pronunciar estas palavras Rubim soltou com elas sua gargalhada convulsiva. Rodrigo teve a impressão que estava na frente dum grande boneco mecânico a quem tivessem dado toda a corda para que ele se pusesse a imitar uma dança de são Vito.
- Mas que mérito podemos ter, tenente, nesse desafio a entidades em cuja existência não acreditamos?

***

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Eu, mestranda #3

>> segunda-feira, 5 de março de 2012

Última semana de férias da graduação da UnB, penúltima da pós, eu me despeço docemente de três meses de paz e descanso, certo?

Errado! Continuando a saga #Eu, mestranda (leia as partes um e dois), eu começo mais um semestre - que pode ser o último -  na vida de pós graduanda. Cumpri todos os créditos - 16, quatro matérias, e, a partir de agora, posso focar meus esforços para a escrita da dissertação. Metade dela já está pronta - escrevi no último ano, enquanto cumpria os créditos.

Então é só sentar, relaxar e escrever como se não houvesse amanhã! Eu já li todos os textos, fiz todas as disciplinas, fichei todos os livros. É só escrever. Só sentar e escrever. Escrever...

Pressão? Sem pressão! Escreve aí...

E aí vem o bloqueio criativo. Eu não quero escrever, não consigo nem abrir o word. Vou ver seriado, ficar no facebook, correr, lavar a louça, arrumar meu quarto - qualquer coisa - menos escrever. Tenho passado por isso nesses primeiros meses do ano, e já passei antes, no ano passado, a diferença é que agora não tenho pra onde correr. Não falta mais nada: só escrever.

É por isso que venho pro blog! Pra ver se essas trinta linhas que eu escrevo aqui dão um "start" dissertativo e o bloqueio passa. Vamos ver se funciona dessa vez.

No mais, eu estou muito feliz, animada, empolgada com a perspectiva de me tornar mestre ainda esse ano. É um título que eu sempre quis, e sempre quis conquistar cedo! E tem sido uma experiência que fez com que eu me conhecesse melhor - e crescesse. Tenho que enfrentar meus medos, bloqueios e ansiedades, e dar um jeito de lidar com eles, vencê-los! (e ainda houve boatos de que quem passa muito tempo estudando não tem experiência de vida) Na literatura, isso é ainda mais mentiroso: além da minha própria experiência de vida tenho a de Bentinho, Mme Bovary, Lucíola, Basílio, Brás Cubas, Ana Terra, Bibiana, Hamlet, Sancho Pança,  Virgília, Raskhonikóv e tantos, taaantos outros personagens que passaram por essas retinas já fatigadas! Cada um deles me ensina alguma coisa, sobre literatura, sim, mas, principalmente, sobre a vida (acho que é por isso que às vezes eu me sinto bem mais velha do que eu sou).


Mas o tempo de leitura, por enquanto, acabou. É tempo de escrever minha própria história - a dissertação é uma história que eu conto e que a banca precisa acreditar, rs. Essas vozes de tantos "outros", reais e fictícios, precisam passar pelo meu processo de escrita, tornando-se criação minha. Responsabilidade minha. Mérito meu. (e isso dá medo!) Minha esquizofrenia literária precisa virar um novo texto de 50 páginas! Mãos à obra!

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Eu, mestranda #2

>> domingo, 25 de setembro de 2011

O prazo para as inscrições no PPG em Literatura do TEL termina essa semana, dia 28! Aproveito pra fazer mais um post sobre a vida de mestranda (para ler o primeiro, clique aqui).

Semestre passado fiz duas matérias, uma sobre literatura e morte e a outra sobre literatura e memória. As duas trataram de temas afins à minha futura dissertação - mas nem sempre é assim, às vezes, por causa do horário, os mestrandos acabam fazendo matérias que não tem relação nenhuma com a pesquisa deles.
Nesse semestre dei sorte de novo - estou fazendo mais duas matérias (as últimas!), uma é "Seminário avançado em teoria da literatura", em que um teórico é abordado em profundidade - e, no caso, o teórico é Bakhtin, justamente o teórico chave da minha dissertação. A outra é "Literatura e estudos interartes", que também vai me ajudar na dissertação, já que eu vou trabalhar na compração de um dos "meus" romances com a linguagem fragmentada cinematográfica.

Já comecei a escrever! E não tá fácil, viu? A cobrança é bem maior do que na monografia, por exemplo, e a responsabilidade pelo que a gente escreve também é maior. Maaaas, se tudo der certo, a essa altura do ano que vem eu já serei Mestre! Para isso acontecer, eu preciso tomar vergonha na cara e parar de perder tempo na internet - acho que isso inclui postar no blog...

As crises existenciais do começo estão menos frequentes - agora eu já não duvido tanto de ter feito a coisa certa ao escolher continuar estudando. Por mais que seja trabalhoso, difícil e cansativo, eu sinto que não poderia estar fazendo outra coisa! Estou realizando meu sonho da graduação de estudar só literatura, de ter professores comprometidos e não-picaretas, que realmente têm muito a me ensinar, de ter autonomia pra escrever e não escrever só o que o professor quer ler, de conhecer pessoas que gostam tanto de literatura quanto eu - e com elas compartilhar angústias e descobertas.

Por outro lado, aguardo ansiosamente não ter mais que escrever com prazos, poder ler os livros que me der na telha, sem ter que resenhar, anotar, enfim, pensar - aproveitar a literatura pela literatura, como lazer, como arte, e não como ferramenta de trabalho (há quanto tempo não faço isso!)

Aos coleguinhas que farão a seleção, boa sorte! Espero estar ouvindo as histórias de vocês no semestre que vem! Precisamos de pessoas que pensem literatura, que pensem o mundo por meio da literatura, que enxerguem as contradições, misérias e virtudes do mundo por meio da literatura! Para mim, esse é um modo mais honesto, mais auto-consciente de suas limitações e parcialidades, e que por isso mesmo busca libertar-se delas, de pensar o mundo, o homem, a cultura... claro, isso pra quem ainda acha importante pensar!

Eu provavelmente vou diminuir as aparições aqui, porque preciso escolher entre a vida social real e a vida social virtual... quanto menos tempo eu gastar nos meios internéticos, mais tempo eu vou ter pra realmente ver as pessoas sem que isso afete minha rotina de estudos. Além disso, quando o blog - que é pra ser um hobby - passa a olhar pra mim com exigências - como quem diz "me atualiza, me atualiza", ele deixa de ser divertido e passa a ser uma obrigação - e eu já tenho muitas! Escrever é algo que eu adoro fazer nos momentos livres mas, como esses momentos estão cada vez mais raros, vou escolher passá-los com uma "atividade mais ativa" e menos pensante. Pensar, pra mim, agora, é um ofício, e não uma consequência do ócio.

Espero um dia fazer da escrita também um ofício. Quem sabe, né? Até lá!



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Cine Clube Cult #2

>> sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ingmar Bergman e seu instrumento enorme
Como prometido, agora faço o comentário sobre os outros dois filmes da primeira edição do Cineclube. Morangos Silvestres é do sueco Ingmar Bergman. O filme é em sueco, então eu precisei confiar totalmente nas legendas. É em preto e branco, de 1957 e conta a história de um senhor que precisa viajar pra receber um título honorário por seus cinquenta anos de carreira. Na véspera da viagem ele tem um sonho em que aparece morto, e decide viajar de carro e não mais de avião. Durante essa viagem ele revisita o seu passado, os momentos mais marcantes da vida dele e reavalia sua trajetória e seus relacionamentos até ali. 

Professor Isak - Morangos Silvestres
O contato entre presente e passado se dá quando, no meio da viagem, ele encontra a velha casa que foi de seus avós, e a lembrança dos morangos silvestres que haviam no jardim faz com que esse passado se presentifique. (daí o título do filme ser morangos silvestres - uma outra forma de dizer "memória afetiva")

De 57 pra cá, essa história do velho meio ranziza que revê seus erros quando está perto da morte já foi filmada e refilmada muitas vezes, mas acho que ainda assim vale a pena ver o filme! A música é linda, tem um ar de sonho e de passado, e, claro, a gente começa a pensar na nossa própria trajetória até aqui. Pra quem é ou quer ser acadêmico, acaba sendo meio deprê. Isso porque o personagem principal, Professor Isak Borg faz pra si mesmo perguntas do tipo: "O que eu fiz até aqui? Consegui fazer com que alguém me amasse? De que adiantou tanto estudo? De que me serve esse Título? De que vale essa carreira como médico? Estou velho, sozinho e sou odiado...", forçando a gente a pensar na nossa própria vida...
Um filme bonito (a Suécia é linda!), com música bonita e de muita sensibilidade em relação à avaliação que se faz da vida quando se teme a morte, o juízo individual que cada um faz de seus arrependimentos, remorsos e expectativas. Gostei, não dormi, recomendo!

Luis Buñueeeeeel
O segundo filme foi O Anjo Exterminador, do cineasta surrealista mexicano Luiz Buñuel, brother do pintor espanhol Salvador Dalí. A historinha do filme é curta: a galera da high society tá reunida pra um jantar, todo mundo bonito, moçoilas tocando piano, rapazes contando anedotas, tudo do bom e do melhor. Tarde da noite uma parte dessa galera vai embora e a outra fica. Os que ficam vão ficando, vão ficando... e de repente começam a acreditar que eles ficaram porque não podem sair, afinal, se eles pudessem sair, já teriam saído. Entendeu?
Pois então, ninguém sai! os dias passam, a comida vai acabando, a água vai acabando, e principalmente, o respeito e a civilidade também...

A gente que tá assistindo se sente preso com eles também! Um dos recursos que o Buñuel usa pra fazer isso é a falta de cortes claros entre as cenas - a câmera se movimenta dentro do salão que vira prisão imaginária, indo de um diálogo para o outro, de um canto para o outro sem mudança de sequência, sem alternar com uma cena externa, sem dar um tempo pra gente respirar (como bem observou o segundo membro do cineclube, Jhonathan). Assim, acho que as reações/impressões são duas: a primeira de se sentir sufocado e preso também, e a segunda, de ver alguém errando e não poder fazer nada. Sabe aquela agonia que a gente sente quando vê aquele coleguinha que faz besteira, sabe que tá fazendo besteira, e mesmo assim não sai do erro porque não tem coragem ou porque acha que não consegue? (não sei vocês, mas isso me dá muita agonia!). Então, o sentimento é parecido. Porque a gente SABE que não tem nada impedindo que eles saiam, a gente quer que eles saiam, mas eles não saem! insistem na paranoia! AAAH, QUE VONTADE DE ENTRAR NA TELA E ENXOTAR ESSE POVO!

O Anjo Exterminador (com todo mundo arrumadinho ainda)
Luis Buñuel novinho, curte a cara de maluco!















Enfim, gostei também, recomendo, só não saquei o porquê do nome. Eu estava esperando realmente um anjo que viesse e matasse todo mundo, hehehe, mas não é bem isso que acontece. Se alguém souber o porquê do filme ter esse nome, compartilha com a coleguinha aqui.



Esses foram os primeiros filmes do CineClubeCult, domingo agora, dia 18, tem mais. Dessa vez teremos um gostinho de cinema italiano: Antonioni, Pasolini e Fellini (eu sei, parece nome de macarrão), e os filmes já serão coloridos! (aeeee) Os três são dos anos 60, e tem um que é do ano que mudou o mundo - 1968. Estão todos (todos que me conhecem e sabem onde eu moro, claro) convidados!


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Cine Clube Cult #1

>> quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como os coleguinhas que me tem no Facebook sabem, esse semestre estou fazendo uma matéria no mestrado que demanda um conhecimento de cinema. Eu, como boa consumidora de massa que sou, não entendo nada de cinema (do tal de "Cinema de Arte"). Sei só de romance, explosões, invasões alienígenas e ameaças de destruição em massa à Terra/Estados Unidos.

Para aproveitar o embasamento teórico da matéria, eu preciso conhecer os filmes, ter noção da história da evolução do cinema, tal e coisa. Depois de conferir essa parte na wikipedia, baixei adquiri de forma gratuita alguns dos filmes sugeridos pela professora, e chamei os coleguinhas para assistir comigo.

Os filmes que assistimos (sim, eu uso assistir filmes, como verbo transitivo direto, deal with it!) na primeira edição do Cine Clube Cult foram Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, Morangos Silvestres, de Ingmar Berman (sueco!) e O Anjo Exterminador, do mexicano Luis Buñuel. Para ver os resumos e críticas consagradas, google it! Aqui vou dar minha opinião leiga e fanfarrona.

Mas, antes, procurando sinônimos para não ficar repetindo "cinema", eu pensei em Sétima Arte. E aí eu descobri que eu não faço a menor ideia de quais são as outras seis! E nem você! Aí estão (wikipedia, aee):

  • 1ª Arte - Música (som);
  • 2ª Arte - Dança/Coreografia (movimento);
  • 3ª Arte - Pintura (cor);
  • 4ª Arte - Escultura (volume);
  • 5ª Arte - Teatro (representação);
  • 6ª Arte - Literatura (palavra);
  • 7ª Arte - Cinema (integra os elementos das artes anteriores mais a 8ª e no cinema de animação a 9ª).
Essas 7 são as originais. Depois foram acrescentadas artes mais modernosas, e manifestações que eram consideradas técnicas ou práticas ganharam status de arte também:

Quer dizer que esse tempo todo eu estudei a 6ª arte sem saber? Que bonito!


Eu nunca havia assistido nenhum filme do Chaplin. Só tinha visto os trechos clássicos e talz. Se você é daqueles que dá RT em frase dele sem nunca ter visto um filme, assista! É uma delícia! É mudo, é em preto e branco, mas é uma delícia! A música é linda e tocante, a música ajuda a contar a história e os diálogos são totalmente dispensáveis. Chaplin tem um olhar tão forte, tão expressivo, que é difícil acreditar que ele se expressava de outro jeito que não por esse olhar!
Assistir Tempos Modernos é um ótimo jeito de entender a situação americana pós-29. Lá a gente vê também que os grandes trapalhões e comediantes da nossa infância 90 tiveram Chaplin como grande referência e modelo - de Chico Anysio ao Didi - os trejeitos, as quedas, as trapaças, os mal-entendidos, que a gente já viu e reviu desde criança, estão todos lá naquele palhaço-vagabundo de chapéu e bengala - e são engraçados e emocionantes!  
Gostei muito do filme, da música, e, principalmente, desse olhar do Chaplin, que parece que ao mesmo tempo em que vê "além", vê "dentro"! Quero ver agora O grande ditador. 
Como eu falei, pra ver a historinha do filme, e prêmios e contextos e talz, procurem no google. Aqui está a impressão - talvez com alguma reflexão - de uma espectadora que entrou na sessão de exibição da sétima arte com quase 100 anos de atraso.



No próximo post comento os dois outros filmes!


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#RLL - Memórias póstumas de Brás Cubas

>> quinta-feira, 11 de agosto de 2011

#rll - Memórias póstumas de Brás Cubas
Disciplina: Literatura comparada: literatura e morte
Autor: Machado de Assis, brasileiro.
Ano: séc. XIX, publicado como folhetim entre março e dezembro de 1880 e como um livro só em 81.



AO VERME
QUE
PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
DO MEU CADÁVER
DEDICO
COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMÓRIAS PÓSTUMAS




Eu comecei a ler Memórias póstumas quando eu tinha uns treze anos, várias vezes. Larguei esse diacho desse livro chato que parecia nunca começar e só consegui ler de verdade com uns 16, 17. De lá pra cá devo ter relido algumas vezes, reli pra monografia e agora pra disciplina. E eu não consigo entender como esse livro é trauma de Ensino Médio da maioria dos coleguinhas. Bom, se você é um desses traumatizados, fica a dica: pule os primeiros, sei lá, onze capítulos. E divirta-se com a ironia desse defunto debochado que volta do além - sabe-se lá como - pra contar a história da sua vida, história que teve como fato mais importante a sua morte, como afirma o Prof. Augusto, professor dessa disciplina que escreveu sua tese de doutorado sobre morte e decomposição biográfica em Memórias póstumas.







Aqui, abro um parêntese nas resenhas pra fazer um comentário sobre "recepção". Eu tenho visto muitos coleguinhas, dos mais variados níveis de escolaridade, que acham que Machado de Assis foi o único escritor brasileiro ever. Então, pra todo livro que eu leio eu escuto a pergunta: "É daquele cara, como é mesmo o nome? Machado de Assis?"



Machadão
Não, gente. O Joaquim Maria (m. de a.) não foi o único escritor brasileiro ever. Foi, talvez, o mais importante e o mais estudado, mas não o único. É dele a espécie de "trilogia" - Memórias Póstumas de Brás Cubas (uma ideia fixa!) Quincas Borba (ao vencedor, as batatas!) e Dom Casmurro (Capitu traiu ou não traiu?). Se você não entendeu nenhuma das referências entre parênteses, nossa amizade está em risco. Porque ter lido esses livros não é questão de ter acesso (você os encontra de graça nas bibliotecas ou por cinco reais em edições descartáveis) ou tempo (os livros tem milhões de capítulos! dá pra ler um por dia na vida!), mas de falta de interesse mesmo, pura preguiça. (professorinha de português indignada mode off).

Voltando ao Memórias póstumas, Brás Cubas (único autor-defunto da literatura universal, ao que parece) insere o Brasil nessa tradição ocidental dos diálogos dos mortos. Com a liberdade da palavra - pois agora tanto faz o que vão pensar, ele já morreu mesmo! - Brás Cubas se junta à categoria dos "desajustados" socialmente que podem falar o que "der na telha" - os loucos, as crianças, os bobos ou estúpidos, os velhos. Deixo dois trechinhos pra vocês que eu usei na minha monografia na comparação com Incidente em Antares (mas vale muito a pena ler o livro todo! você pode baixar aqui): 
Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu; tu enxugas as lágrimas de um pai, tu captas a indulgência de um Profeta; e se a dor adormece, se a consciência se acomoda, a quem, senão a ti, devem esse imenso beneficio? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma; mas a indiferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão.
Explicar ironia é sempre constrangedor, mas, bem, vou fazer isso só dessa vez: Brás Cubas tá sambando na cara da high, dizendo que tanto faz quais são os verdadeiros sentimentos e motivações dos atos humanos, desde que eles estejam dentro do protocolo social, de acordo com o espetáculo e a encenação da vida, desde que eles se apresentem com uma cortesia e tirem o chapéu. (Eu sei que na sua timeline todos os dias as pessoas dão RT em frases que querem dizer quase a mesma coisa, mas, veja bem, Machado disse isso com muito mais classe já em 1880!)

O segundo trecho, enfim, explica tudo isso que eu venho tentando falar sobre morte e liberdade, só que, claro, com muito mais classe:
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a catar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; [...] Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos, não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados. 
A morte é o único jeito de romper com a formalidade e dizer a verdade. Ou a loucura. Ou a velhice. De qualquer forma, aquele que escolhe dizer essas verdade é sempre um desajustado social, alguém que não está legitimado pelo sistema. E Machado alia morte à ironia, a um humor fino, sarcástico, debochado, e até perverso (talvez com ele eu tenha aprendido a ser um pouquinho malvada).

Maas, (e aí é que entra a coisa mágica da literatura), quem diz tudo o que Brás Cubas diz é Machado. Maaas, Machado não estava morto, nem louco, nem velho. Era, ao contrário, um respeitável jornalista, crítico de teatro, um notável escritor. Como ele pode, então, dizer todas essas coisas (jogar na cara da sociedade toda a sua podridão e falsidade) e continuar sendo bem aceito e querido?
Ora, porque é literatura! É ficção! É de mentirinha... "Não é da gente que ele tá falando", eles pensaram.
E era. A literatura dá a ver o que a realidade esconde. Escrever literatura é discutir política, história, filosofia, religião, enfim, discutir a cultura que forma o homem, ao mesmo tempo que é formada por ele. E de um jeito divertido! (literatura é entretenimento!)

Mas chega de ficar fazendo propaganda da minha área (ou não). Leia Machado! Leia Machado pra entender o brasil e o mundo do fim do séc. XIX, pra entender um pouco sobre política, escravidão, ciúme, inveja, poder, medo, loucura, morte, relacionamentos. Enfim, leia Machado pra ter assunto pra conversar comigo depois :)

Mas, e aí, vai esperar morrer pra dizer o que pensa? Olha que nem todo mundo tem a sorte de Brás Cubas de voltar e continuar falando...

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#RLL - Bobók

>> quarta-feira, 10 de agosto de 2011

#rll - Bobók
Disciplina: Literatura comparada: literatura e morte.
Autor: Fiódor Dostoiévski, russo.
Ano - séc. XIX, 1873.

A #RLL de hoje é sobre um conto de Dostoiévski, traduzido e analisado por Paulo Bezerra, um dos tradutores fodões do russo pro português.

Eu nunca tinha lido nada do Dostoiévski (fala sério, o cara é russo! russos são malvados!) porque achava que seria muito difícil (e os livros mais curtos tem tipo 400 páginas). Um exemplo de quanta "pompa" o cara tem foi a reação das pessoas nos corredores e no elevador do trabalho ao me verem com um livro dele na mão: "Noooooossa! Dostoiévski!" como quem diz "que nerd você! get a life!". 

O conto desconstruiu toda essa imagem séria e pesada que eu tinha dele. "Dosto" era um fanfarrão! Bobok é considerado uma sátira menipeia da modernidade. Nasceu com a intenção de responder as críticas que o último romance que havia sido publicado por Dostoiévski havia recebido. Em vez de responder "na mesma moeda" com um ensaio ou uma nota no jornal, o autor russo preferiu usar a literatura, criando uma obra que tem significado mesmo que o leitor não saiba que ela foi concebida com esse primeiro propósito.

Lugar de diversão!
Ivan Ivánitch é jornalista, escritor frustrado que vive levemente embriagado. Um dia, resolve se divertir e acaba indo a um enterro. Passeando pelo cemitério acaba sentando em uma lápide aleatória pra descansar e dorme. Acorda ouvindo um som, "bobók" (tipo o som de uma bola de sabão estourando) e começa a ouvir vozes. As vozes vem dos defuntos em torno dele, que estão "recepcionando" o novo morto no cemitério, que ainda não sabe muito bem que morreu. Ivan fica na dele e começa a prestar atenção na conversa dos mortos.  A conversa dos mortos se encaminha para a instituição de uma tanatocracia, com novos valores, diferentes dos dos vivos, onde prevalece a verdade absoluta.
Um trechinho:

[...] Mas por enquanto eu quero que não se minta. É só o que eu quero, porque isto é o essencial. Na Terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos, mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir. Aos diabos, ora, pois o túmulo significa alguma coisa! Todos nós vamos contar em voz alta as nossas histórias já sem nos envergonharmos de nada. Serei o primeiro de todos a contar a minha história. Eu, sabei, sou dos sensuais. Lá em cima tudo isso estava preso por cordas podres. Abaixo as cordas, e vivamos esses dois anos na mais desavergonhada verdade! Tiremos a roupa! Dispamos-nos!
Nesse novo diálogo dos mortos, agora temos um vivo escutando, que vai ouvindo a conversa até que um espirro faz com que os defuntos se calem - e ficamos sem saber no que daria essa tal sociedade em que ninguém tivesse vergonha ou escondesse coisa alguma.



Dostoiévski
A morte como forma de liberdade do discurso está presente aqui (estudar morte é estudar liberdade) e estará presente também no último romance dessa disciplina, o romance que fez o professor começar a estudar morte: Memórias póstumas de Brás Cubas. O defunto-autor é o parâmetro de comparação de todas as obras que vimos até aqui, e, como Bobók, foi escrito por um autor na periferia do mundo europeu, no mesmo século XIX, que via a falência do homem prisioneiro de uma vida de fingimentos, aparências e mentira, que só poderia encontrar alguma liberdade na morte - só depois de morto que Brás Cubas pode dizer com sinceridade, com seu desprezo tumular, o que sempre pensou daqueles com quem conviveu. Mas esse é o assunto da próxima resenha. Leiam Dostoiévki. Além de todo mundo achar que vcs são nerds da literatura (a vida é um fingimento), o cara era um gênio.


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#RLL - Dom Quixote

>> domingo, 31 de julho de 2011

 #rll - O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Macha
Disciplina: Literatura comparada: literatura e morte.
Autor - Miguel de Cervantes Saavedra, espanhol.
Ano: séc XVII, 1605 (parte I) e 1615 (parte II)


Cervantes
De tanto ler romances de cavalaria, nos quais há sempre um nobre cavaleiro que enfrenta gigantes, e monstros em suas andanças em busca de aventura, com o pensamento em uma bela dama que roubou seu coração, Dom Quixote decide ser ele também um digníssimo cavaleiro. Escolhe Sancho Pança como seu fiel escudeiro (todo nobre cavaleiro precisa de um!) e Dulcinéia como sua formosíssima dama. As suas aventuras e peripécias são contadas aos desocupados leitores nos dois volumes de Cervantes, contemporâneo de Shakespeare.

Concebido como uma paródia dos romances de Cavalaria, Dom Quixote entrou pra história da literatura universal como o precursor do romance moderno e como uma das mais completas, complexas e bonitas obras de arte já produzidas pelo gênio humano. É o livro mais editado e traduzido depois da Bíblia. Apesar de todo esse "peso" acadêmico, ele pode e deve ser lido prazerosamente como um livro popular, engraçado e divertido (afinal, não podemos esquecer que literatura é, também, entretenimento!)

Ainda não terminei de ler a segunda parte do Quixote (confessei!) mas já passei por uma das passagens mais famosas da literatura universal, e que tem sido vista como emblemática para a análise de todo o romance. Compartilho com vocês:

Capítulo VIII, Parte I.



DO BOM SUCESSO QUE TEVE O VALOROSO DOM QUIXOTE NA ESPANTOSA E NUNCA IMAGINADA AVENTURA DOS MOINHOS DE VENTO, COMO OUTROS SUCESSOS DIGNOS DE FELIZ RECORDAÇÃO

Nisto descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento que há naquele campo; e logo que Dom Quixote os viu, disse ao seu escudeiro:
- A aventura vai guiando as nossas coisas melhor do que poderíamos desejar, porque ali vês, amigo Sancho Pança, trinta desaforados gigantes, ou pouco mais, a quem penso combater e tirar-lhes, a todos, as vidas,  e com cujos despojos começaremos a enriquecer; será bom combate e grande serviço prestado a Deus o de extirpar tão má semente da face da terra.
- Que gigantes? - disse Sancho Pança.
- Aqueles que ali vês, com grandes braços - respondeu-lhe o amo; - alguns há que os têm de quase duas léguas.
- Saiba vossa mercê - observou Sancho - que aqueles que assim se parecem não são gigantes, mas moinhos de vento; e o que neles parecem braços são as asas que, impelidas pelo vento, fazem girar a pedra do moinho.
- Bem se percebe - respondeu Dom Quixote - que não és versado nesse assunto de aventuras; aqueles ali são gigantes; se tens medo, afasta-te e põe-te a orar, enquanto me defronto com eles em fera e desigual batalha.
Dizendo isso, esporeou seu cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, avisando-lhe que não se tratava de gigantes, mas de moinhos de vento, sem dúvida alguma, os que ia atacar. Mas ele estava tão convencido de que eram gigantes, que não ouvia os brados do escudeiro Sancho, nem conseguia perceber, mesmo de bem perto, o que eram realmente; antes, ia dizendo em alta voz:
- Não fujais, cobardes e vis criaturas, que estais acometidas por um cavaleiro apenas.
Soprou, neste instante, um pouco de vento, e as grandes asas principiaram a mover-se. Vendo aquilo, disse Dom Quixote:
- Ainda que movais mais braços que os do gigante Briaréu, haveis de pagar-me.
Isso dizendo, encomendou-se de todo o coração a sua senhora Dulcineia, pedindo que-lhe que o socorresse em tal transe; e bem protegido pelo escudo, com a lança em riste, arremeteu a todo galope de Rocinante, e investiu contra o primeiro moinho que se lhe deparou; e cravando-lhe a lança na asa, girou-a o vento com tanta fúria, que se partiu a arma em pedaços, arrastando após si cavalo e cavaleiro; o qual, todo machucado, foi rolando pelo campo. Acudiu-lhe Sancho Pança, pondo o asno a correr o mais que podia, e, ao acercar-se do amo, viu que não podia mover-se, tal foi o golpe que sofreu com o Rocinante. 
- Valha-me Deus! - disse Sancho. Não disse a Vossa Mercê que visse bem o que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e não o podia ignorar senão quem levasse outros tantos na cabeça?
- Cala-te, amigo Sancho - respondeu Dom Quixote; - que as coisas da guerra, mais do que as outras, estão sujeitas a contínua mudança; tanto mais que penso, essa é a verdade, que aquele sábio Fristão, que me roubou o aposento e os livros, transformou esses gigantes em moinhos para me privar da glória de vencê-los; tal a inimizade que me tem; mas, ao final das contas, hão de poder pouco as suas más artes contra a bondade da minha espada.
Há entre nós os Quixotes que recusam-se a conviver com a simplicidade de moinhos de vento e preferem levar a vida em peripécias com gigantes, e Sanchos que não se permitem colorir a realidade monótona de moinhos com as cores de gigantes imaginários. Quatro séculos depois, razão x emoção (nx0feelings), realidade x imaginação, reacionalismo x idealismo são ainda as relações mais complexas do homem moderno, estando ora em posição diametralmente oposta, ora relacionadas complementarmente. Daí a universalidade e a permanência dessa história na História. Daí a fascinação que as peripécias de Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança ainda causam em nós, desocupados leitores. 

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#RLL - Hamlet

>> quarta-feira, 13 de julho de 2011


Há algo de podre no reino da Dinamarca!
Marcelo, em Hamlet
(SHAKESPEARE,  2001, p.  31)

#rll - Hamlet
Disciplina: Literatura comparada: literatura e morte
Autor: William Shakespeare, inglês.
Ano: séc XVII, entre 1.601 e 1.602

William Shakespeare
Eis que entramos no séc XVII, só quatrocentos anos nos separam do maior dramaturgo e um dos maiores poetas de todos os tempos: William Shakespeare. Hamlet é a peça mais interpretada e estudada do mundo. E aqui eu falo dela mais com a emoção de leitora do que como estudiosa da literatura.
A sua história não foi inventada pelo poeta de inglês: o mito do príncipe da Dinamarca que vinga a morte de seu pai é muito antigo na lenda escandinava, e tem outras versões anteriores a Shakespeare.

Os diálogos da peça discutem temas éticos e complicados como traição, suicídio, vingança, loucura, morte. Daí vêm as análises inesgotáveis de um texto que sempre se renova, a cada nova leitura. Eu conheci o Príncipe da Dinamarca com 16 anos, li por curiosidade, e agora li de novo pra disciplina: uma leitura completamente diferente!

Como é uma tragédia (uma tragédia moderna, que traz alguns elementos diferentes da tragédia grega, por exemplo), é de se esperar que todo mundo morra. E isso não é spoiler, todo mundo morre mesmo! Se você não conhece, pode ver resumo da história, mas vale muito, muito, muito a pena ler (sim, eu adoro uma tragédia!). Mas, até cair o pano do último ato, ficamos nos perguntando: O Fantasma realmente existe? Cláudio matou o irmão? Ofélia ama Hamlet? Hamlet está louco de verdade? Gertrudes (Rainha da Dinamarca) traiu o marido? Hamlet é a tragédia da dúvida, da hesitação, do sonho, da loucura, do dilema. São muitos os segredos, as traições e as reviravoltas, o que fez com que essa peça seja encenada até nossos dias e que sirva tanto como entretenimento (Shakespeare foi muito popular no seu tempo) quanto como um texto denso, estudado, interpretado, esmiuçado pelo meio acadêmico.

Um dia hei de ver Hamlet by
Wagner Moura!
Nem preciso falar sobre a relação da peça com a minha disciplina: o drama começa no castelo e termina no cemitério, um fantasma move todas as discussões e motiva todas as (muitas) mortes seguintes, Hamlet contracena com a caveira do bobo da corte e os coveiros têm uma cena inteira só pra eles. (sim, a morte está em todo lugar!)

Ainda sobre Shakespeare, indico 5 peças que simplesmente *têm* que ser lidas: Macbeth, Hamlet, Romeu e Julieta, Rei Lear e Otelo, o mouro de Veneza.

E, pra você não ter como fugir, recomendo muito o ótimo (texto ótimo, atores ótimos, direção ótima de Fernando Meirelles, lindo demais!) seriado global de doze episódios Som & Fúria, que tem o título baseado em uma das falas mais famosas de Lady Macbeth: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando."

Vou encerrar o post com o monólogo mais famoso do teatro universal. Esse texto persiste no nosso imaginário porque faz a pergunta mais fundamental de todos nossos momentos de crise: ser ou não ser, existir ou não existir, viver ou não viver? Quando tudo parece perdido, quando nada faz sentido, a gente se pergunta: por que continuar? por que continuar vivendo uma vida miserável? Por puro e simples medo da morte? O que é pior: se jogar no desconhecido do outro mundo, sem saber o que vai encontrar, ou continuar no conhecido - e odiado - mundo dos vivos? 
E aí, quando tudo nos leva a crer que o suicídio é covardia - é fuga! -, Hamlet nos põe a pensar que viver e suportar uma vida detestava que é a verdadeira covardia - o medo de enfrentar a morte!

Esse é o dilema do suicida, de todo aquele e de cada um que um dia já se pegou perguntando: "pra que continuar vivendo? pelo que continuar vivendo?" 

Depois desse momento #literaturadadepressão (por favor, não se matem depois desse post! sério!),  deixo o Poeta falar:
Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para a alma: sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra uma mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer...dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer...Dormir!...Talvez sonhar! Sim, eis a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que dá à desventura uma vida assim tão longa! Pois, senão, quem suportaria os insultos e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, a angústia do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar repouso com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligem, em vez de nos lançarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covardes, é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se debilita na pálida sombra do pensamento e é assim que as empreitadas de maior alento e importância, com semelhantes reflexões, desviam o seu curso e deixam de ter o nome de ação. 

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#RLL - Gargântua e Pantagruel

>> domingo, 10 de julho de 2011

"E se desejais ser bons pantagruélicos 
quer dizer, viver em paz, alegria, saúde, sempre se divertindo)
 não fieis jamais nas pessoas que 
olham pelo  buraco da fechadura" 
(RABELAIS, 1991, p. 426)   
"Muito mais vale o riso do que o pranto.
Ride amigo, que rir é próprio do homem"
(RABELAIS,  1991, p. 31)

Depois de uma pausa motivada pela última semana do semestre (primeiro semestre como mestranda, YEY!), volltamos com as nossas Resenhas Literárias Livres!


#rll - Gargântua e Pantagruel
Disciplina - Literatura comparada: literatura e morte
Autor: François Rabelais (lê-se "françoá rab'lé", é francês)
Ano: séc. XVI - Os cinco livros que compõem a obra foram publicados entre 1.532 e 1.553

Rabelais
Em cinco livros, o mestre Alcofribas Nasier, (anagrama de Fronçois Rabelais) narra os divertidos e inusitados acontecimentos da vida do gigante Gartântua e de seu filho, Pantagruel. 

Escritos no Renascimento por um controverso autor, os cinco livros tem como matéria prima a cultura popular - as festas, os ditados, as anedotas, os mitos - aliada à erudição do autor-padre-médico, que cita filósofos gregos e latinos e doutores da Igreja.
Apesar de ser cristão, Rabelais foi criticado e perseguido pela Igreja Católica, por Calvino e pela Sorbonne, devido ao conteúdo (muito) obsceno e por vezes herético de sua obra.

O teórico da cultura e da literatura Mikhail Bakhtin fez do estudo de obra desse autor a sua tese de doutorado, que foi publicada como livro: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, o contexto de François Rabelais. 
Gargântua bebê
Em sua tese, Bakhtin discute e exemplifica a presença e a origem de elementos da cultura popular na obra de Rabelais, como o riso, o vocabulário da praça pública, as formas e imagens da festa popular, o banquete, a imagem grotesca do corpo, entre outros, e aponta para a importância dessa obra como paradigma das que se seguiram na modernidade.
Entre as fontes históricas e literárias do riso em Rabelais, Bakhtin destaca a influência de Luciano de Samósata, de quem já falamos nas #rll.

Do estilo de vida de Pantagruel (gigante-filho) originou-se o termo pantagruelismo: uma filosofia de vida segundo a qual o que importa na vida é rir gozar dos prazeres da comida, da bebida e do sexo! Por isso, numa leitura bem simplista, o livro é repleto de de referências escatológicas ao corpo e às necessidade corporais,  muita comilança, bebedeira e putaria (ops, falei).
Rabelais critica e zomba por meio do riso e da ridicularização os poderes e a seriedade do governo, do clero e dos acadêmicos pedantes. Escandalizou quando foi publicado e escandaliza ainda hoje os olhos virgens dos leitores mais tímidos e puritanos.

Pantagruel bebê
Eu poderia ficar aqui dissertando sobre a influência desse livro na literatura ocidental moderna, sobre seus elementos renascentistas, a presença da oralidade, sobre a morte saturnal e o papel do carnaval na cultura popular trabalhada por Rabelais, maaas, como o que me interessa no blog é despertar em vocês o desejo e a curiosidade da leitura - seja pelo motivo que for, eu fico por aqui e deixo alguns trechos divertidos. Apesar de serem 2 volumes de umas 500 páginas cada (são muitas por causa das ilustrações de Gustave Doré), vale muito a pena conhecer o universo de cabeça pra baixo desse fanfarrão que é Pantagruel! 




O simpático Grandgousier [pai de Gargântua], bebendo e se divertindo com os outros, ouviu o grito horrível que o filho tinha dado ao entrar na luz desse mundo quando bradava: "Beber, beber, beber! (RABELAIS, 1991, p. 60)
Dos três até os cinco anos, Gargântua foi nutrido e instruído com toda a disciplina conveniente, por ordem de seu pai, e o seu tempo se passou como dos meninos do país: quer dizer, bebendo, comendo e dormindo; comendo, dormindo e bebendo; dormindo, bebendo e comendo (RABELAIS, 1991, vol. 1, p. 75).
Panúrgio tinha sessenta e três maneiras de arranjar dinheiro segundo a necessidade, das quais a mais honrosa e comum era a subtração de bens furtivamente praticada; era também trapaceiro, batoteiro, beberrão, vagabundo se estava em Paris. E, ao mesmo tempo, um ótimo rapaz e sempre maquinando alguma coisa contra os mantenedores da ordem (RABELAIS, 1991, vol. 1, p. 342).
- Serei corno?
- [...] Que me perguntais? Se sereis corno? [...] Escrevei esta palavra em vosso cérebro com um estilete de ferro, que todo homem casado corre o perigo de ser cabrão. A cornice é um dos apêndices naturais do casamento. A sombra não segue mais naturalmente o corpo do que os chifres seguem os homens casados  (RABELAIS, 1991, vol. 1, p. 553).
Especificamente para a disciplina de literatura e morte, interessa a passagem na qual Panúrgio, amigo de Pantagruel, traz de volta à vida o companheiro Epistemon, morto em batalha:
De súbito Epistemon começou a respirar, depois abriu os olhos, depois bocejou, depois espirrou, depois deu um peido com todo o gosto. Então disse panúrgio: "A estas horas ele está seguramente curado". E deu-lhe a beber um copo de vinho branco, com um assado açucarado. Dessa maneira, Epistemon se curou, exceto que ficou resfriado durante mais de três semanas, e com uma tosse seca de que não se conseguiu curar-se senão bebendo muito. E então começou a falar, dizendo que tinha visto os diabos, conversado familiarmente com Lúcifer e se divertido muito no inferno e nos Campos Elíseos. E afrimava na frente de todos que os diabos eram bons sujeitos (RABELAIS, 1991, vol. 1, p. 404) 
E o recém-ressuscitado segue contando que no inferno todo mundo que era importante na terra não é mais, por exemplo, Alexandre, o Grande, no inferno remenda calções. Segundo Augusto Rodrigues, professor da disciplina: O inferno, em Gargantua e Pantagruel, também é um lugar próspero, movimentado, como o ambiente das feiras. Os seres comem, dançam, bebem, amam, trabalham, mendigam, regozijam-se. Mudam-se papéis, mas as necessidades continuam as mesmas. A morte não iguala, ela inverte. Maiores viram menores, miseráveis e filósofos são beneficiados pela nova condição.


Enfim, pra terminar esse post que já vai ficando muito acadêmico (influência dos artigos que eu tive que concluir semana passada), é importante dizer que esse livro marca a entrada dos diálogos dos mortos na modernidade, ainda cínica, mas individualizada, diferentemente da distância histórica e épica da epopeia e da centralidade teológica da Idade Média.

Daqui pra frente nossos livros contemplarão cada vez mais os problemas e angústias dos indivíduos - sem que a coletividade deixe de ser também representada.

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