Mais Médicos, Menos Corporativismo

>> segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Hoje começa o período de três semanas de acolhimento da primeira leva de médicos estrangeiros que vieram para o Brasil participar do programa Mais Médicos, do Governo Federal, que envolve diretamente os Ministérios da Saúde e da Educação. 

Trabalho na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde,  responsável pelo programa no MS, e tenho acompanhado de perto, tanto pelos bastidores, quanto pelo que sai na mídia, o seu processo de consolidação. Aqui vai minha opinião, algumas informações importantes, e questionamentos para o futuro. Todos os dados aqui são públicos, ao alcance de uma "googlada", logo, não estou usando meu cargo para divulgar nenhum tipo de informação privilegiada.



Mais Médicos

O provimento e a fixação de profissionais de saúde, especialmente de médicos, em áreas remotas, de difícil acesso e de maior vulnerabilidade é tema de debate institucional há muito tempo - foi um dos debates que motivou a criação da Secretaria em que eu trabalho, que existe desde 2003.
Esses municípios são áreas censitárias 4 e 5, de acordo com a classificação do IBGE, e se concentram no interior, nas fronteiras, nos distritos sanitários indígenas e nas periferias das grandes cidades.

Antes do "Mais Médicos", uma das estratégias do Ministério da Saúde para minimizar esse problema foi a criação do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica - PROVAB, que existe desde o ano passado e serviu de modelo para a operacionalização do Mais Médicos. O Governo Federal tentava atender, assim, a demanda dos gestores municipais de saúde que diziam não conseguir atrair ou fixar profissionais de saúde, mesmo oferecendo altos salários.

As manifestações de julho aceleraram o lançamento do Mais Médicos, que, além de pensar no provimento dos profissionais (bolsa federal para o profissional, subsídio para o município, contratação de médicos estrangeiros, acordos bilaterais com outros países), pensou também na formação desses profissionais no Brasil (e é aí que entra o MEC), e, de uma vez só, mexeu com estrutura da formação e do exercício profissional de um dos maiores lobbys corporativistas do país.

Menos Corporativismo

Pra falar de lobby corporativista, vou comparar a classe médica com a classe dos professores (da qual eu faço parte por formação, e isso já diz muita coisa). As duas são fundamentais para bons IDH's, para o desenvolvimento do país, são o mote das prioridades de toda campanha política: saúde e educação, são tão antigas quanto a organização humana em sociedade. Portanto, gozam do mesmo prestígio social e economicamente, certo? Claro que não.

Medicina, diferentemente da maioria das licenciaturas, é um curso caro. É um curso que requer laboratório, equipamento, que não dá pra se virar - ou pelo menos, em que ninguém "aceita" se virar - com um punhado de livros, giz e saliva. Quem faz medicina no Brasil? A criança que desde pequena sente vocação pra ajudar todo mundo que vê sentindo dor? A criança que cresce desejando fazer desse mundo um lugar melhor e com menos sofrimento? Claro. Desde que os pais dela possam pagar. Pagar uma faculdade que custa de 2 a 7 mil reais por mês, durante cinco anos. Ou pagar no mínimo três anos de educação continuada pra que ela possa entrar no vestibular do curso mais concorrido das Universidades Federais.

Filha de pobre, via de regra, não faz medicina . Faz licenciatura. (E quem está mudando isso, aos poucos, é outro programa desse governo: o ENEM).

O estudante de medicina se dedica exclusivamente (não trabalha pra se sustentar), é branco, jovem, cheio de sonhos e planos pela frente. No mínimo, ele espera ter, com sua profissão que deu tanto trabalho pra conquistar (não estou dizendo que não), um padrão de qualidadede vida tão ou mais confortável do que o que teve enquanto dependia de seus pais. Ir trabalhar no interior, numa periferia ou numa área indígena não se encaixa nesse padrão de vida, é claro.

Ok, doutor, o Governo não pode te obrigar a deixar o conforto do seu bairro nobre na grande cidade pra morar numa casa simples no interior, diagnosticando virose, verminose, dengue, enfim, ter aquela vida besta numa cidadezinha qualquer, longe do conforto, do prestígio e de tudo que papai e mamãe te ensinaram a valorizar tanto na metrópole.

Nem o governo pode te obrigar a isso, nem a sociedade pode te condenar por não querer isso pra sua vida. 

Infelizmente, nem toda profissão pode escolher isso. Um professor em começo de carreira - que também fez seu curso com dedicação, que também se esforçou pelo seu diploma, que também é essencial para a qualidade de vida da população - não gostaria de trabalhar ganhando R$8 por hora/aula, ou numa escola de zinco, ou ensinando alunos em risco social. Mas os municípios do interior não andam por aí oferendo 35 mil reais por um professor de português, e há que se colocar comida dentro de casa, não é mesmo? 

Mas o médico tem bala na agulha pra fazer lobby. Médico tem contato na imprensa, no governo, entre os empresários, na indústria farmacêutica. Médico faz parte do grupo formador de opinião, da elite culta, tem acesso a todos os meios de comunicação. Médico não se sujeita porque não precisa se sujeitar. E está certo em não se sujeitar. 

Mais alternativas

Então, o que fazer? A culpa é do município? A culpa é do município por ser longe de tudo (quem mandou ter uma cidade ali no meio do nada?) A culpa é do município que não atraiu indústria, desenvolvimento, o progresso brilhante em vermelho e amarelo num letreiro do Mc Donalds? O governo vai falar o que praquele município? "Olha, sinto muito, mas a sua população vai morrer de disenteria, de leishmaniose, de anemia provocada por solitária, de pneumonia, se continuar aqui. Eu sugiro que vocês saiam daqui a vão engrossar as filas dos hospitais das periferias urban... oh, wait, lá também os médicos não vão porque têm medo de serem assaltados. É, sinto muito, o problema é de vocês".

Não, né. Porque há alternativas no mundo que podem ser testadas aqui. Uma delas é a contratação de médicos estrangeiros. O governo a fez por dois modos: O primeiro, foi a adesão ao edital. Os critérios pra que médicos estrangeiros viessem foram três: 1) Exercer a medicina legalmente no seu país 2) Ser proveniente de um país com mais mil médicos por habitante que o Brasil  3) Ter conhecimento de língua portuguesa.

A esses médicos que aderiram ao edital, foi apresentada a lista de municípios que solicitaram médicos, e eles puderam escolher até seis opções. A maioria deles escolheu cidades de periferia ou mais próximas dos grandes centros, assim como os brasileiros, o que resolvia grande parte do problema de provimento, mas deixava ainda uma lacuna: Os municípios com 0 médicos, mais pauleira, mais escondidos, mais difíceis de se chegar, continuaram não sendo escolhidos.

A forma encontrada para preencher essa lacuna foi o acordo bilateral de contratação de médico, a princípio, firmado com Cuba.


Menos medo cósmico de Cuba

Em Cuba, a lógica "só filho de rico faz Medicina" não existe. A ELAM é financiada pelo Governo cubano - a "ditadura comunista", segundo esse texto vazio e histérico de Reinaldo de Azevedo, e acolhe estudantes de toda a América que queiram fazer Medicina, quase sem custos. Mas, como nada é de graça nesse mundo, em vez de pagarem com a moeda capitalista, pagam com compromisso político. 

O aluno formado na ELAM aprende que vidas são mais importantes que cifras. E o dinheiro que ele não paga pra se formar, o governo, que banca tudo, recebe de volta quando ele for trabalhar no exterior. Pra manter o governo, a própria escola, e formar mais gente que, fora de Cuba, nunca realizaria o sonho de se formar em Medicina.

(Pelo o que pude entender, é mais ou menos um serviço civil obrigatório: o governo te oferece um serviço público de qualidade, a universidade, e em troca você dá algum tipo de compensação ao governo. Comparar isso com escravidão é, no mínimo, irresponsável, pra não dizer de um extremo mau-caratismo e oportunismo midiático.)

Então, o acordo entre países é diferente do acordo entre país e profissional por um motivo muito importante: os profissionais que vêm independentemente escolhem, na medida do possível, onde querem trabalhar. O acordo bilateral não prevê isso. O Brasil oferece o seguinte acordo na OPAS: "preciso de profissionais que vão para onde EU preciso. Em troca, repasso o dinheiro diretamente ao governo que me oferecer esses profissionais nessas condições"

O único país que pode fazer isso é Cuba, claro. Porque a admissão na sua Escola de Medicina tem esse requisito: que o aluno se forme para sair em missão, e que devolva, como parte do seu salário, o gigantesco investimento que o país fez em sua formação - que a esse mesmo aluno não seria possível em nenhum outro lugar do mundo.

Mais Humanização

A humanização do atendimento médico no Brasil anda a passos de formiga e sem vontade. O grande lobby da indústria farmacêutica, das faculdades de medicina e das grandes fabricantes de tecnologia médica não tem o menor interesse em uma medicina mais simples. O lema é progresso, avanço, e isso se conquista com mais tecnologia (mais custos) e menos conversa. A formação humanista da ELAM é diferente. Ela investe na relação médico-paciente, na promoção da saúde e no acompanhamento periódico da comunidade - são esses os princípios da medicina de família, ou da atenção básica, que é a área específica em que os médicos estrangeiros vão atuar. 

Isso preocupa uma classe médica que se forma totalmente dependente de exames sofisticados e aparelhos de precisão milimétrica. Não que eles não seja necessários, mas são, em muitos casos, dispensáveis. A medicina humanizada mostra aos barões do avanço que saúde pode custar bem menos dinheiro e um pouco mais de atenção da equipe médica. E que a tecnologia deve sim ser usada em casos graves, delicados, críticos, mas que, com promoção da saúde, que é muito mais barata, o número desses casos pode ser diminuído drasticamente.

Menos especulação

Muitos de nós que estamos neste debate não têm envolvimento direto no problema. Os lugares-comuns que eu ouço demonstram um total desconhecimento da realidade desses "rincões", desses "pobres", muito menos da situação dos supostos "escravos" que estão vindo de Cuba. (Só porque você não se imagina saindo do seu país pra trabalhar em missão humanitária, mesmo ganhando "pouco" - porque 25 a 40 % de 10 mil reais pra morar em cidades com custo de vida baixíssimo é miserável! - não quer dizer que quem faz isso está sendo forçado, né?). Muitos também ignoram que os municípios que receberão médicos provaram ao Ministério que têm condições de oferecer dignidade para o médico exercer sua profissão, ou seja: estrutura  e equipe.

Não quero dizer que não podemos dar nossa opinião sobre o assunto, mas, uma vez que não estamos diretamente envolvidos - esses médicos não vão nos atender, não temos ideia de como é viver em Cuba - nossa responsabilidade sobre o que dizemos sobre o assunto é ainda maior. Não é feio admitir que não tem opinião formada. No meio de uma discussão, é bem melhor falar um honesto "não sei", do que reforçar especulações maliciosamente originadas na mídia, nas redes sociais, na internet de modo geral. 
E, se quiser mesmo participar, se informe. 

A equação "mais médicos" é difícil de ser resolvida, não há solução mágica que agrade a todo mundo. 
Esse programa, acusado de ser eleitoreiro - mesmo  ele sendo de base, de diretriz, de fundação, mesmo prevendo resultados a médio e longo prazo, mesmo querendo passar de política de governo para política de Estado - é fruto de muita vontade política, de uma mobilização nacional  que quer dar uma resposta às ruas. E isso não pode ser ignorado. Os fatos que expus aqui, e algumas das minhas opiniões, são o mínimo para uma reflexão mais profunda, que estou disposta a tentar fazer com quem se interessar pelo assunto.

***

Todos nós, envolvidos diretamente na execução do programa, temos em mente isto: é um momento histórico, uma virada decisiva na história da saúde pública brasileira. Conseguimos entender um pouco melhor esse sentido de missão, de trabalhar por algo maior do que dinheiro e prestígio.
(imagina a crise no capitalismo se todo mundo começa a trabalhar por ideal e pára de alienar seu tempo num emprego qualquer?)

Acredito que em algum tempo será possível ter os dois. Trabalhar por ideal e receber um pagamento justo por isso. Mas pra isso, essa quebra no "curso natural" das coisas que esse programa está promovendo agora é indispensável. Acredito nesse programa, torço pra que ele dê certo, pra que seja imitado em outras profissões, pela democratização do acesso aos cursos de Medicina, e pra que, num futuro próximo, a brincadeira da criança que coloca sua roupinha branca e sai pela casa medindo temperatura dos pais e dando balinha de remédio pra todo mundo possa virar profissão, não importando se sua família é de empresários ou de camponeses.

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#MeuPaiÉDesses

>> domingo, 11 de agosto de 2013

Papito sempre me cobrou um texto que nem esse aqui que fiz pra mamis. Ei-lo.

Meu pai sempre me carregou pra tudo que era canto, sob os protestos da minha zelosa (chata) mãe. Quando pequena, minha relação com ele era muito mais próxima do que a com a minha mãe. Aos oito anos, eles se separaram, e eu a culpei por me afastar do meu melhor amigo.

Lá pelos treze anos, me aproximei mais da minha mãe e pude ver de muito perto a transformação dela na mulher maravilhosa que ela é hoje. A imagem que tive do meu pai sempre foi mais estável. Não o enxergava como alguém passível de mudança, meu pai era um homem "acabado". Até os catorze anos, fomos muito próximos e muito parecidos. Quando minha carência de atenção ou minha teimosia excediam a paciência dele, ele me dispensava com um "Não" ríspido, que me fazia engolir o choro e me deixava um nó na garganta.

Na adolescência, o choro mal contido se libertou num ensaio de rebeldia. Meu pai viu a filha que ia chorar magoada no quarto ficar, responder, revidar, enfrentar e negar a sua autoridade de pai.

Então meu melhor amigo virou alguém com quem eu sequer falei durante uns seis meses.

A reconciliação veio aos poucos, depois de eu amargar um arrependimento ao ver que meus pais não esperavam mais nada de mim. Eu, que até então achava que me sentia pressionada a ser adulta, responsável, inteligente, me vi desesperada quando essa suposta pressão foi substituída por uma total falta de expectativa. 
Isso mais a lembrança constante da recente e, principalmente, inesperada morte do meu padrinho, primo e melhor amigo do meu pai, me fizeram perceber que eu não tinha tempo a perder para tomar a iniciativa de reconstruir minha relação com ele.

E assim, como o filho pródigo que à casa torna (eu, que sempre fui o irmão mais velho meio invejoso), reaprendi a falar com meu pai, abraçá-lo, beijá-lo, dizer "eu te amo", deixar que ele fizesse parte essencial da minha vida, que ele voltasse a ser meu maior exemplo.

Aos 16 anos fui aprovada no vestibular pra Letras na UnB, aos 18, num concurso público, aos 20, no mestrado em Literatura.

Apesar de ter seguido seus passos, meus motivos foram diferentes. E ainda restava em mim, ao pensar relação com meu pai, a necessidade de conciliar nossas grandes semelhanças e nossas irreconciliáveis diferenças.

Quando terminei o mestrado, pensei, e agora? Qual o próximo passo? Saí da sombra do meu pai, da estrada pré-trilhada, dos resultados conhecidos.

Cheguei a escrever no meu diário, em janeiro desse ano, quando tive a certeza de que não queria mais ser servidora pública, como ele:

[...] Como calar a voz do meu pai dentro da minha cabeça? Como eu tenho, ao mesmo tempo, os complexos de Édipo e de Electra?
Meu pai é um alter-ego meu. Mas temos coisas diferentes. Quando eu amo essas coisas em mim, tenho que detestar nele. Nunca vou poder amar os dois ao mesmo tempo. Quando eu acho que estou certa, tenho que desmerecer a opinião dele. Quando ele está certo, significa que a errada sou eu, e isso é o mesmo que dizer adeus à minha autoestima. 
Na adolescência, quando a exaltação do meu ego atingiu seu estado máximo, anulei meu pai. Num mundo em que ele tivesse razão sobre tudo, eu não teria nenhuma chance de crescer.  (porque meu pai não é o tipo de crítico que deixa você tentar outra vez depois do primeiro erro)
Meu pai, meu ex-namorado, meu orientador, três figuras de autoridade masculina que têm uma influência enorme no que eu sou hoje.
Eles me forçaram  a ser rebelde, mas a opinião deles sobre o que eu faço é, sim, muito importante! Minha rebeldia é um jeito de tentar  me afirmar diante disso. 
A resistência a isso tem que ser minha. Entendo minha mãe cada vez melhor. Mas eu não posso pedir divórcio do meu pai. Tenho que aprender a lidar com isso.
Eu só queria descobrir o que em mim sou "eu" e o que é apenas negação do outro ou do que ele espera que eu seja - pra que assim eu faça minhas escolhas conscientemente e não apenas pra afirmar "você não manda em mim", como aos quinze anos.

Meu grande aprendizado desse ano foi trabalhar pra eliminar essa concorrência e essa vontade de subjugar os outros (meu pai, os homens) provando que eu tou certa - Freud explica. Fiz isso entendendo que somos pessoas diferentes, mas não opostas. Que estamos em processo constante de mudança e evolução - sim, ele também.

Somos diferentes não por nossa essência, mas pelas escolhas que pude fazer, e fiz. Escolhas que ele mesmo me proporcionou - como a última, de ir pra Portugal fazer doutorado. Estou dando um passo no escuro, um "lea
p of faith". Mas sei que ele e minha mãe são minha rede de proteção, e têm plena confiança em mim. Sou grata por isso.

Pai, por mais que eu lamente todos nossos desentendimentos dos meus "negros" quinze anos, sei que eles não foram em vão pelas escolhas que aprendi a fazer a partir dali. Lamento que tenha custado tanto. Mas passou.



Obrigada. Por tudo. Você é o melhor pai que eu poderia ter tido e, graças a Deus, tive e tenho. Amo você. 
Feliz dia dos pais.


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Fantasmas de domingo

>> quinta-feira, 18 de julho de 2013

É domingo à noite, e todos que se recusam a ver o cortejo fúnebre do fim de semana na televisão estão no bar. Alguns comemoram a vitória, apertada, é verdade, do seu time sobre o grande rival desde a seis da tarde; outros recém chegaram e suas vozes só agora começam a ser alteadas pelo álcool dos copos de cerveja virados.

Ela entra no bar e sem hesitar procura o canto mais vazio para se sentar. Ela não está à espera de ninguém. Ao menos de ninguém que virá, e clara está a enorme diferença entre uma espera e a outra.
Ela adivinha de onde vêm as vozes que rumorejam ao seu redor: grupos de jovens universitários, casais entediados que se ignoram mutuamente
pelo celular, um trio de homens de meia idade que falam de obscenidades e negócios, se é que há diferença, e um velho de cabelo grisalho e barba branca, que bebe vinho e não cerveja, que tem nas mãos um livro e não um celular.

"Esse serei eu daqui a trinta anos. Ou menos. Ou agora. O chopp me salvou da identificação completa".

Se não estivessem tão absortos em suas próprias conversas, poderiam se perguntar aqueles assíduos frequentadores o que faz ela aqui sozinha, a essa hora de domingo? Para onde aponta esse olhar vago e perdido? Que pensamentos envolvem esses cabelos cacheados? O que desejam essas mãos que ansiosamente acenam para o garçom?

Mas eles não se perguntaram, não se importam. E se perguntassem, não ouviriam resposta alguma: ela não as têm, as respostas. O que ela tem, e em grande número, são dúvidas.
E agora? Na última semana ela foi visitada por dez anos de passado. Não faltaria quem risse ao ouvi-la falando "tenho dez anos de passado". Dez anos de passado encarnado em três homens, como os fantasmas de Dickens - qual a lição de moral do final deste conto? Ela não sabe. O que sabe é que o passado se recusa a ser um refúigio seguro. O futuro se aproxima a cada dia, e, apesar da sua manifesta e aparente ansiedade, o que ela tem é medo.
O passado a distrai da sua verdadeira aflição: o tempo-será. Foram precisos três fantasmas para que ela entendesse isso, se é que entendeu. três fantasmas, uma semana, meio litro de chopp e um velho tomando vinho no bar domingo à noite.

Mas ela entendeu. Vai pedir a conta, voltar pra casa e, antes de dormir e receber mais uma segunda-feira, um pensamento percorrerá sua mente como um feixe de luz: medo... não... mais...

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Cine Clube Cult #4

>> terça-feira, 16 de julho de 2013

(Confira os posts sobre cinema anteriores aqui, aqui, aqui e aqui.)

Hoje falo sobre três documentários a que assisti no último mês e que despertaram meu interesse pra esse gênero não muito comercial e sem apelo no chamado grande público (aposto que você pode contar nos dedos a quantos documentários já assistiu, espontaneamente, no cinema - trechinho de documentário que por acaso tava passando na TV quando você ligou não vale!)


O primeiro deles é A ponte, de 2005. Durante um ano câmeras gravaram a movimentação na Golden Gate, em São Francisco, e registraram mais de 20 suicídios. Acompanhamos os movimentos de cada um: chegar na ponte, hesitar, ou decididamente atravessar as grades de segurança, depois se jogar - ou ser impedido, ou desistir. O documentário foi concebido de maneira que cada suicida virasse um personagem: os depoimentos de parentes e amigos de cada um dão contornos humanos ao corpo que assistimos cair. Assistimos e não podemos fazer nada para impedir. O documentarista registra, mas não interfere. Não aciona um alarme, não disca 911. 

A sensação de quem assiste não pode ser outra que não a de angústia. O suicídio é um tema que suscita questões existencialista no mais pueril dos homens: o que leva alguém a tirar a própria vida? eu tiraria a minha? o que me prende à vida? o que me impede de morrer? é covardia? é coragem? (ser ou não ser, eis a questão! existir ou não existir?). Os depoimentos de quem ficou também são angustiantes: eu poderia ter evitado! eu poderia ter ajudado! eu poderia ter impedido! eu não fiz o suficiente, não amei o suficiente, não me importei o suficiente, não... A vida interrompida deixa pra trás diálogos inacabados que o documentário tenta reconstituir.

Essa angústia também a encontramos em Elena, mas de forma diferente. Elena é leve, sutil, uma busca apaixonada que se alimenta de passado. Tudo no filme remete a essa leveza: o foco da câmera, a lindíssima trilha sonora, o balé de Elena, o balé de Petra, o fluir da água do rio... Tudo é leve como a existência que é até não ser mais.

Elena se recusa a ser medíocre naquilo que ama, naquilo que entende como vida: a arte. Elena se recusa a não ser capaz de realizar seu sonho. Petra, que também entende a arte como vida, usa a arte - em forma de documentário - pra estilizar, modelar, e entender sua busca pela irmã mais velha que agora é ausência.
Petra filma a ausência de Elena: Elena não está. Elena não mais é.
É um filme belo de amor e saudade, e que fala do poder transformador da arte - do que é ser artista, do que é entender o mundo pela arte, do que é fazer da arte o principal mediador entre o eu e o mundo.


O terceiro documentário é Dossiê Jango, que também é a história de uma ausência. Em Dossiê Jango o que se vê é um Brasil que poderia ter sido e não foi. A primeira metade do filme é uma pergunta: e se? E se Jango não tivesse sido deposto? E se o golpe não tivesse acontecido? E se Jango conseguisse fazer as reformas de base que propôs? E se...? Que Brasil seríamos? (Talvez a mãe de Elena pudesse ter sido atriz em vez de ter que se esconder da ditadura).

Nas cenas do documentário vemos um futuro que nos foi negado, roubado - deposto. Assassinado? A narrativa do documentário, que tem apoio da Fundação João Goulart , que se intitula "dossiê", reúne e organiza uma série de fatos que apontam para a comprovação de uma hipótese: João Goulart foi criminosamente eliminado por seus opositores. Se não consegue comprovar a hipótese, ao menos tem o êxito de fixar a hipótese como plausível: João Goulart pode ter sido assassinado. Há que se investigar.

Além disso, e, mais importante que isso, é o levantamento cuidadoso de uma época da nossa história que é sistematicamente silenciada, difusa: um retrato em sépia. Pra quem nasceu na democracia, como eu, o documentário preenche uma lacuna deixada pela escola que não soube - ou não quis - trabalhar com profundidade o que aconteceu na história dos presidentes entre JK e Color.

(No imaginário do jovem de 25 anos médio brasiliense figuram com destaque nomes como Getúlio Vargas e JK. Jânio Quadros e João Goulart são a mesma pessoa, um golpe aconteceu em 64, em 68 o AI-5 endureceu as coisas, nos anos 80 veio a redemocratização, Sarney foi o primeiro presidente civil em vinte anos, Color o primeiro eleito, depois FHC, Lula, Dilma e fim.)

Dossiê Jango tem um peso diferente de acordo com a geração que o assiste. Pra minha geração, fica o sentimento de que o país em que vivemos teve seu futuro roubado. De que para recuperarmos esse futuro, ou a possibilidade de tê-lo, gente lutou, resistiu, morreu.

E eu com isso?

Qual o meu lugar nessa história? Pelo que eu luto? A que forças resisto?

***

O gênero documentário utiliza arquivos de imagens, documentos reais, depoimentos e entrevistas autênticos, mas nem por isso deixa de ser estilizado. Há um argumento, uma direção, um fio narrativo que antecipa algumas conclusões do expectador, que indica trilhas de aparente dedução. Mas não é menos verdade por isso. Talvez, aliás, (e aqui roubo a frase a muita gente) só exista verdade na ficção.

O que tem me atraído nesses filmes, nesses três especificamente, é o grau de abertura para uma resposta - o expectador é muito mais livre para completar de sentido os fatos expostos nos documentários.
É um convite ao pensamento e à sensibilidade, a uma tomada de posição, à formação de opinião.

Aceito o convite, e o amplio a quem venha a ler esses breves comentários.

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avulsas #6

>> domingo, 14 de julho de 2013

Um livrinho pra ler e reler em diferentes momentos da vida:
Cartas a um Jovem Poeta, Reiner Maria Rilke. A minha carta favorita sempre será a sétima. Segue um trechinho.

Roma, 14 de maio de 1904

Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos ("escutar e bater dia e noite"), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. É aí que os jovens erram com freqüência, gravemente: pelo fato de eles (faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o seu desgoverno, na desordem, na confusão... Mas o que deve resultar disso? O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam surgir. Perdem-se as vastidões e as possibilidades, troca-se a aproximação e a fuga de coisas quietas, cheias de pressentimentos, por um desespero infrutífero do qual nada mais pode resultar; nada mais do que um pouco de náusea, desapontamento e pobreza, e com isso a salvação em uma das muitas convenções que estão disponíveis em grande número, como abrigos para todos nesse caminho extremamente perigoso. Nenhuma região da experiência humana é tão munida de convenções quanto essa: salva-vidas dos mais diversos, botes e bóias; refúgios de todos os tipos foram criados pela compreensão comum, pois ela estava inclinada a considerar a vida amorosa como um prazer, por isso tinha de torná-la fácil, barata, inofensiva e segura, como são os prazeres públicos. De fato muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria não passará nunca disso), sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal, tornar vivida e fértil a situação em que se precipitaram. Pois a sua natureza lhes diz que as questões do amor, de tudo o que é importante, são as que menos podem ser resolvidas abertamente, segundo um acordo qualquer; são perguntas íntimas feitas de uma pessoa para outra, perguntas que exigem em cada caso uma resposta nova, especial, apenas pessoal. Mas como é que eles poderiam encontrar uma saída em si mesmos, do fundo de sua solidão já desperdiçada, eles que se atiraram, que não se delimitam nem se diferenciam, e que portanto não possuem nada de próprio? Os jovens tomam atitudes a partir de um desamparo comum e, quando querem evitar de boa vontade a convenção que se anuncia (por exemplo o casamento), caem nos braços de uma solução menos explícita, mas igualmente convencional e mortal. Pois tudo o que existe em torno deles é convenção; onde quer que se trate de uma comunhão precipitada e turva, todas as atitudes são convencionais. Toda relação resultante de tal mistura possui a sua convenção, mesmo que seja pouco usual (ou seja, imoral em sentido comum). Até a separação seria um passo convencional, uma decisão ocasional e impessoal sem força e sem frutos. Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que começamos a tentar a vida como indivíduos, essas grandes coisas se aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós, como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e um período de aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência, talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão muito depois de nós; e isso já seria muito. No entanto, só chegamos no máximo a considerar objetivamente e sem preconceitos a relação de um indivíduo com outro indivíduo, e nossas tentativas de viver tais relacionamentos não têm nenhum modelo diante de si. Mesmo assim há, na própria passagem do tempo, algo que ajuda a nossa iniciação hesitante.

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Epifania

>> quinta-feira, 11 de julho de 2013



A imagem de um amigo é adequada: estamos (me sinto) em um grande lago. Sem correnteza, sem ondas, sem quedas. Parada, sob o sol, sinto cada dor latejando. Cada desejo pulsando. Sinto tudo. Me debato na esperança de que o movimento me distraia da dor, mas não há para onde ir: nado em círculos e, cansada, paro de novo, sentindo mais pungentemente a dor de antes.

Essa água é terapêutica, mas a longo prazo. O esforço é da mente. É ela que tem que desatar, um a um, os nós do meu entendimento. Penso. Penso. Penso. Sinto. Respiro e penso. Encontro a solução para o diagnóstico de carência, solidão, ansiedade: tempo. Resistência. Fortaleza. 

Crescer dói. Ouço o romper do casulo, da casca da semente. A carência passa, a solidão passa, a ansiedade e angústia também.

Estou pronta. O destino pode abrir a represa.

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Notícias do almoço - por Marília Ferreira

>> segunda-feira, 1 de julho de 2013

- Ei mãe, aconteceu uma coisa engraçada hoje: um homem quebrou um copo no restaurante e conseguiu um corte profundo na mão.

- E o que fizeram?

O cara só ficou lá, sem fala, olhando pra mão e com cara de desespero. Parecia que nunca tinha visto sangue na vida. Logo as pessoas começaram a olhar, a toalha de mesa ficou toda vermelha, e o vermelho pingava no chão. Os garçons se aproximaram, oferecendo ajuda. O homem nada dizia, só ficava mais e mais afoito.

- Chamem um médico! O SAMU! Tirem-no daqui! Alguém faça alguma coisa! – Diziam os outros fregueses. Até que um senhor, dizendo ser médico, foi até a mesa onde tudo acontecia e tentou analisar o corte, mas o homem parecia estar tendo um ataque de pânico, e apenas balançava a mão, apontava pra si mesmo, salpicando toda sua roupa de escarlate. O tal médico tentou acalmá-lo, bem como todos os que estavam em volta, mas ninguém conseguia. 

- É cada gente esquisita por aí! O homem fez esse estardalhaço todinho só por causa de um cortezinho? Nada que uns pontos não resolvam! E o que é um pouco de sangue, meu povo?  Ê, homem sensível!

- É, mãe, tava todo mundo lá comentando isso. O homem até começou a ficar de uma cor esquisita, e desmaiou!

- Tinham era que sair de perto, deixar o homem respirar.

- Engraçado você dizer isso, mãe.

- O que é?

O filho aumentou o  volume da TV, e ela ouviu a voz do âncora do noticiário da noite dizer:
"Homem morre em restaurante. Jorge, de 42 anos, almoçava sozinho quando se engasgou. A fim de pedir por socorro, quebrou um copo na mesa, mas acabou se cortando. Aparentemente todos se deixaram distrair pela quantidade de sangue proveniente do corte, socorrendo-o apenas para estacar o sangramento. Quando a ambulância chegou, ele já havia morrido sufocado, enquanto os presentes enrolavam sua mão com gaze  e comentavam que só foi possível cuidar do ferimento quando Jorge desmaiou. '- Não sei quem chamou a ambulância, está tudo sob controle agora!' - disse um garçom aos paramédicos, que apenas cobriram o corpo com um lençol branco."

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A direção da manifestação pela mobilidade - Ou O movimento do movimento pelo movimento

>> sexta-feira, 21 de junho de 2013

Começamos em São Paulo. O MPL recebeu apoio depois de apanhar da polícia. Em Brasília, o movimento Copa pra Quem e o MPL Brasília organizaram um protesto no Mané Garrincha. Terrorismo, disse a Globo. Segunda-feira, a Marcha do Vinagre deu um passo atrás nas causas específicas por uma causa unificadora: o direito de se manifestar. A PM não reagiu. Então, o sentimento foi o de "Ok, podemos manifestar. Pelo quê?" Continuamos solidários a São Paulo. São Paulo atingiu seu objetivo na quarta. Brasília ganhou também um GT para discutir, na mesa do governo, a implantação da Tarifa Zero. Ok. Hora de ir pra casa, ganhamos espaço, marcamos posição.

Mas havia uma manifestação previamente marcada pra quinta, amplamente divulgada, que atraiu gente que viu pela TV a de segunda-feira e quis ter o seu momento "teto do congresso".

Fiquei tensa. Aquela manifestação seria vazia e desnecessária. Mas estava otimista: talvez ocupar a Esplanada por um motivo que não fosse show de graça despertasse um princípio de consciência política na galera que tava vindo.
E isso aconteceu. Mesmo enquanto bebiam cerveja, aqueles playboys, pela primeira vez na vida, discutiam política. Já era um começo.

Mas fomos sabotados.

O esquema de segurança da PM reunia e direcionava a multidão para a frente do Congresso Nacional. Fácil de monitorar, controlar, de garantir a segurança.
Então alguém teve a brilhante ideia (ordem?) de disperar 35 mil pessoas num espaço vazado como o da Esplanada.

Sabotagem.

A PM não tinha efetivo pra garantir a segurança nem do patrimônio público, nem das pessoas. Enquanto um grupo avançou para o Itamaraty, fugindo do gás, pequenos grupos sentiram-se (foram colocados) à vontade para depredar a cidade - uma cidade que não era deles, e é por isso que todo esse movimento começou: eles não têm acesso a essa cidade! - uma cidade que nunca foi deles. Os resultados podem ser vistos na Esplanada nessa manhã.

Foi um desfecho triste, mas revelador. Revelou o resultado de décadas de esvaziamento político na educação. A consciência política não acompanhou a distribuição de renda  e o aumento de conforto em todas as classes da população.

Revelou também que quem já tem um histórico de conflito com a PM quer revanche. E ser um anônimo entre 35 mil pessoas foi a oportunidade perfeita.

Até semana passada, os estudantes eram vândalos. Gritaram contra esse rótulo. Mas agora não hesitam em condenar os "novos" vândalos, os "verdadeiros" vândalos, sem sequer considerar seus motivos.

Não existem vândalos. Não nas ruas. O vandalismo que sofremos foi político e ideológico, veio em forma de depredação da educação e da mobilidade urbana.

Saio desses movimentos gerais. E espero que eles parem nas cidades sem pautas coletivas práticas, como Brasília. É hora de pensar. É hora de estudar. É hora de conversar. É hora de negociar.

É hora dos partidos assumirem a responsabilidade de educar politicamente quem pela primeira vez manifestou conscientemente uma vontade política - com o ônus de enfrentaram uma resistência criada pela burocratização deles.

Saio do movimento grata por ter conhecido melhor o MPL. Como eu não percebi antes a profunda mudança estrutural que esse movimento defende para a sociedade?
Ah, sim, comprei um carro para percorrer os 30km que me separam do centro a qualquer hora. Resolvi o meu problema de mobilidade.
Sou grata por ter sido lembrada que isso não é o suficiente.

Agora, saio das ruas, e, novamente, faço um apelo a todos para que saiam também. Saiam dessas manifestações por tudo. 
Pensem, definam suas causas. Lutem por elas. Encontrem ou formem a liderança delas. Não esperem que "a manifestação por tudo" defina um foco: encontrem o seu, e então se separem do todo para formar partes organizadas. Usem sua autonomia política. E se não a têm, conquistem uma. 

Contrariem quem tem certeza de que vocês são massa de manobra.

O movimento pela mobilidade se movimenta - agora mais forte, agora com pauta em pauta.

Pra os outros, é hora de trazer a rua pra casa, pro facebook, pra cabeça. 

Eu saio das ruas hoje. Não saio por medo. Saio porque as ruas jogaram na minha cara, em forma de spray de pimenta, que o buraco é mais embaixo, e mais profundo. 
Saio pra me organizar, me filiar, me engajar. Pra não participar mais dessa novela coletiva da mídia.

Eu saio das ruas, mas as ruas, tudo que eu vivi, senti e descobri nelas, não sairão de mim. 

Nosso reencontro está marcado pra breve.

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Porque vou às ruas #whitemonday #vemprarua #vemprajanela #marchadovinagre

>> segunda-feira, 17 de junho de 2013

O protesto de São Paulo encabeçado pelo movimento Passe Livre se espalhou pelo Brasil - e foi igualmente reprimido pela PM de cada estado, à exceção, talvez, de Minas Gerais.

A rapidez da divulgação das informações e cenas de violência policial pela internet provocou essa onda de solidariedade Brasil afora. Gente que, a princípio não tinha nada a ver com a história, se sentiu ofendida no seu direito fundamental de se manifestar pacificamente - e, a partir daí, aderiu à causa. E a causa são várias.

Daí, chamar esses protestos de "plurais" ou de "desorganizados" é uma escolha ideológica de cada um. Afinal, que causa uniria a população, em tese, livre pensante, de uma democracia? Se, dentro dessa democracia, e como característica dela, há uma pluralidade divergente de ideologias e práticas políticas?

O que uniria a passeata pró-vida à que é contra o estatuto do nascituro? O que colocaria lado a lado as juventudes de PSTU, PSOL, PT, PSB - nesse nosso cenário de esquerda internamente dividida? O que faz com que a elite brasiliense de servidores públicos e comissionados, bem nascidos e bem criados, vaiem a presidenta ao mesmo tempo em que do lado de fora estudantes são atropelados pela polícia? O que fez com que jornais tradicionalmente conservadores começassem, aos poucos, e ao terem seus próprios jornalistas atingidos pela truculência policial, a apontar "excessos" na polícia, intransigência no governo?

A causa que uniria - e que uniu - todos esses discursos, foi a que defende o direito a se ter uma causa. Você pode ser contra ou a favor a realização da copa no brasil, contra ou a favor que o governo garanta transporte público de qualidade e gratuito à população, contra ou a favor de partidos políticos estarem envolvidos em movimentos sociais, contra ou a favor da liberação da maconha, da legalização do aborto - mas você não pode, não numa democracia que assegura constitucionalmente o direito à manifestação pacífica, ser a favor das cenas que vimos na última semana. Você não pode ser a favor da ação policial que atira balas de borracha e bombas de efeito moral a esmo, entre velhos e crianças, sem planejamento, sem tática, sem o domínio estratégico da situação. Não, você não pode. Porque isso é crime, isso é abuso de poder.

Eu, particularmente, pessoalmente, dentro da minha liberdade de pensamento garantida em lei nesse país, não concordo, obviamente, com tudo o que está sendo pautado pelas chamadas lideranças dos manifestos. Consigo enxergar, sim, que dentro deles tem muito de euforia, muito de megalomania, de idealismo utópico, típico da juventude que acha - que acredita!- que vai mudar o mundo. Consigo enxergar, sim, que nesse momento em que a força dos números de manifestantes (de 500 pra 3000, em Brasília) chama a atenção pras causas dos protestos, muitos discursos ideológicos tentam pegar carona e se colocar como hegemônicos dentro da manifestação. Consigo enxergar, sim, que há oportunismo político, da direita, do centro, da esquerda, e que há um terrorismo contra o governo federal, que fez, sim, muitos avanços na área social - ainda que sempre a passos encurtados por interesses privados.

Mas nada disso deslegitima o povo nas ruas. Eu, Bruna, vou às ruas pelo direito de ir às ruas
Vou às ruas pelo direito de ir às ruas, pacificamente, sem ter que ter medo de voltar pra casa ferida - ainda mais quando a polícia está lá para garantir a segurança da população - da qual eu faço parte!

As outras causas - e são muitas - são secundárias. O passe livre, sozinho, não uniria tanta gente. O #copapraquem, sozinho, não uniria tanta gente. A defesa da liberdade, sim. O medo de que, se nenhum barulho for feito agora, nos transformemos numa Turquia onde os manifestantes são presos políticos, e a calmaria da praça central denuncia a violência do Estado na noite anterior, sim.

Vamos às ruas agora, "por nada", para impedir que amanhã outras dilmas vanas sejam presas em porões. Vamos às ruas quando podemos compartilhar isso na internet, para não correr o risco de sermos censurados amanhã.
Vamos às ruas porque nada diz que não podemos ir às ruas - carregando vinagre! Vamos às ruas porque em lugar nenhum está escrito que, se formos às ruas, pacificamente, sem vandalismo, sem depredação, temos que apanhar da polícia, e correr para nos proteger de gases, cavalos e motos.
Vamos às ruas para expor a violência que, até ontem, era restrita aos  filhos negros das nossas periferias.
Vamos às ruas pra testar essa recente democracia, expor seus vícios ditatoriais, apontá-los como problemas a serem trabalhados e corrigidos. 
Vamos às ruas porque de cético debochado; inconformado de sofá; libertário burocrata; cidadão-de-bem pagador-de-imposto-assinante-da-veja; reacionário e covarde esse país já tá cheio.


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Manifeste-se - ou o post sobre os vinte centavos

>> sexta-feira, 14 de junho de 2013

Esse post é pra quem não tem ninguém de SP na timeline e tá por fora da cobertura autêntica - feita na internet - das manifestações em São Paulo.

Fundamental é ler esse post.



Ele já diz muita coisa. No meio de comentários anti e pró-PM, sempre polêmicos (é estranho, e ao mesmo tempo, bom, constatar, por exemplo, que os mesmos que querem policiamento mais ostensivo nas faculdades agora ficam indignados com as imagens de truculência da PM - cabe uma reflexão aí), concentro meu comentário numa resposta ao feito por Arnaldo Jabour, cujo nível de coerência é zero.

Luta-se por causas por questões políticas e ideológicas. Por paixão, por vocação. Por um desconforto diante da injustiça. Por uma certa fascinação que essa efervescência do movimento social causa em quem ainda acredita que "a sociedade" somos nós. E que ela é passível de mudança e transformação.

Acusar os manifestantes de São Paulo de vândalos,de baderneiros, de rebeldes sem causa, de mauricinhos entediados da classe média é uma manobra de manipulação covarde - e que, também graças à internet, não vai dar certo.

Sim, eles podem não precisar do transporte público, eles podem ser de classe média, e entediados, mas isso não deslegitima a causa deles. Pelo contrário, isso só engrandece o fato se lutar por uma causa que não é sua - um gesto de empatia, um gesto de ver no outro um igual. Isso é reconhecer que o dinheiro que fez desses jovens, jovens de classe média não caiu do céu. Isso é reconhecer que o privilégio deles implica a exploração de uma outra classe. Isso é ter consciência histórica - um precioso valor que falta a quem acha que o mundo é e sempre foi do jeito que é, e que qualquer alteração na ordem - "baderna", "tumulto" - é prejudicial e perigosa.
"Ah, mas não é no cinegrafista. é só
 no cara que tá atrás dele.
Então, tudo bem"
A nossa PM é truculenta e mal-treinada. Ela é preconceituosa, ela odeia, ela se vinga, ela usa o Estado para alimentar e patrocinar seu nebuloso código de ética e de conduta - e o Estado faz vista grossa, porque precisa recorrer a ela quando quer impedir que o povo altere a hierarquia do poder.  Isso não é nenhum segredo. Mas as imagens dos conflitos entre polícia e povo em São Paulo ainda assim surpreendem - chocam, revoltam. E são elas que estão levando mais gente para a rua - primeiro em São Paulo e, muito em breve, no resto do Brasil.

Não é pelos vinte centavos. É pelo direito de ir e vir. Pelo direito de se manifestar. Pelo direito de chamar a atenção dos poderes públicos. Pelo direito a um estado de bem estar social de fato, a uma democracia de fato. É contra a violência, a opressão, o medo - e é isso que une do mesmo lado pessoas e grupos que separadamente lutam por causas tão diferentes e divergentes. É por isso que os vinte centavos do metrô reúnem multidões na avenida paulista, e a pec 37 não. 
É porque estamos falando, agora, de um direito básico. Concreto, real, sem abstrações, que não precisa de ideologia articulada, publicada e assinada, de um debate ético teórico, de filiação partidária. É essa a base de uma revolta popular.

Quem ignora a força simbólica e representativa desse movimento - ampliada, sim, pelas redes sociais, também por quem apenas compartilha uma ideia no facebook - é que são os verdadeiros "ignorantes políticos" mencionados Jabor

O povo na rua incomoda - e é por isso que o povo não teve direito a voz nesse país por 21 anos. Isso não vai acontecer de novo.

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Quem são essas vadias #3

>> quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha das Vadias é promovida em Brasília. E ela está cada vez maior, com cada vez mais visibilidade, cada vez mais organizada, com mais recursos, fazendo mais barulho. Clique para ler o texto de 2011 e o de 2012.

Escolhi escrever esse ano sobre a dificuldade - a verdadeira luta - que é não ser machista. Eu luto contra o meu machismo todos os dias. às vezes perco, às vezes ganho. Mas, principalmente, tento fazer com que ele não seja o responsável pela violência, física, verbal, simbólica, contra nenhuma mulher.

Sou machista porque o machismo foi uma das coisas que aprendi ainda criança. Com a minha mãe, primeiro, com a escola, os amigos da rua, a família de modo geral, depois. 

Agora, adulta, tentando delinear minhas próprias convicções, tenho muito trabalho pra praticar o não-machismo. Não precisa chamar de feminismo. Ser não-machista já é muito difícil. Defender as mulheres e não agredi-las são coisas distintas, mas igualmente difíceis e igualmente necessárias.

Ser não-machista é não fazer quase tudo o que consideramos como normal, padrão, senso comum. É não fazer coisas que pessoas que eu amo, como a minha mãe e meus melhores amigos, pensam que é o "absolutamente certo".

Ser não-machista é não pensar que

A opinião de uma mulher sozinha não vale nada
Mulher de verdade tem que ser vaidosa (a vaidade é inerente à mulher!)
Quem fala com garçom/gerente/taxista é homem
Mulher de roupa curta/sem roupa quer/merece ser estuprada ou sexualmente assediada
Mulher não pode viajar sozinha, ou andar sozinha à noite
Depilação é questão de higiene
Toda mulher é consumista e superficial
Os adjetivos "leve", "suave", "frágil", "delicado", "fraco", "fresco" estão intimamente ligados ao "ser mulher"
A meta da vida da mulher é arranjar um marido - fiel e rico, e que ela vai fazer de tudo - TUDO - pra conseguir isso
Mulher deve ser dama na sociedade e puta na cama
Mulher não tem direito de vender seu corpo - por dinheiro, por status, por um apartamento, pelo que ela bem entender
Mulher que tem vários parceiros sexuais é piranha/vaca/cachorra - insira o animal que preferir
Mulher tem que ser mãe pra ser "completa"
Mulher não fala palavrão, não arrota, não peida, não fica bêbada e vomita
Mulher feia tem que ser simpática e fácil 
Há mulheres para se divertir e mulheres para se casar, e é fácil identificar cada uma delas
A mulher precisa achar um jeito de ser forte e independente "sem deixar de ser mulher"
Mulher não toma iniciativa no flerte
Mulher tem que se valorizar - como mercadoria que é!
Mulher tem que ser prendada - saber lavar, passar, costurar, cozinhar
A responsabilidade de cuidar da casa é da mulher - se ela quiser trabalhar fora, tem que antes garantir que a sua "primeira obrigação" (a casa e os filhos) estejam bem cuidados.

Ser não-machista é não concordar com nenhum, NENHUM dos itens anteriores. E muitos outros. É não separar seu julgamento moral (que você tem todo o direito de ter, claro) por gênero. Se você é contra, digamos, a "promiscuidade sexual", faça-me o favor de estar, digamos, em desacordo com a conduta de pessoas promíscuas. Se você acha que a vaidade estética é uma qualidade importante, faça-me o favor de estar em desacordo com a conduta de pessoas desleixadas.

Sonho com um mundo em que eu não tenha mais que ouvir coisas como "ser preguiçoso é ruim, mas é pior, porque fulana é mulher", "não ter dinheiro é ruim, mas é pior, porque fulano é homem", "todo mundo precisa ter tal coisa, ainda mais você, que é mulher", "é muito feio fazer tal coisa, principalmente você, que é homem", "não, mas pra você tudo bem fazer isso, porque você é mulher... mas pra ele, que é homem, pega mal..."

Esse é, com certeza, o tipo de comentário machista - sim, MACHISTA, que eu mais ouço. Todos os dias sou bombardeada por coisas que mulheres podem fazer e serem socialmente aceitas, mas homens não. E vice-versa. Escuto esse tipo de comentário dentro de casa, no trabalho, entre os amigos, na televisão - e eles me ferem profundamente, porque vêm de pessoas que eu amo e admiro, e que são machistas, em grau maior ou menor. Eu não peço a essas pessoas que sejam feministas. O feminismo é uma atividade política que exige, entre outras coisas, paixão, como qualquer atividade política. O que eu peço - e o que eu espero que algum dia a lei exija delas - é que elas sejam não-machistas. Que construamos uma sociedade que enxergue pessoas além de seus gêneros, socialmente construídos ou impostos, artificiais.

E esse pedido não é anacrônico - não acuso o homem das cavernas de garantir a procriação da sua espécie escolhendo mulheres de quadris largos, ou elegendo os membros mais fortes de cada comunidade - homens - como caçadores, de serem  machistas trogloditas.

Mas estamos em 2013, séc. XXI. 7 bilhões de pessoas no planeta. Tecnologia, educação, saúde. urbanização.

Por que mulher ainda é sinônimo de fraqueza, instabilidade, vaidade, sensualidade?
Por que homem ainda é sinônimo de força, coragem, brutalidade, aspereza?

Até quando ficaremos brincando com esses papéis sociais obsoletos e que matam - matam! - homens e mulheres pelo mundo todo, ignorando que deveríamos ser - como lutamos pra ser! como os que vieram antes nós lutaram pra ser! - pessoas livres para escolher e construir sua própria atuação social?

Eu quero ser uma pessoa não-machista. Quero olhar pra uma mulher na rua e reparar na cor da roupa - amarelo -, que eu, pessoalmente, não gosto - e não no tamanho da saia dela. Quero ouvir uma criança, um menino, dizer que quer um tênis rosa e não pensar "hmmm, esse aí vai ser viado". Quero ouvir um amigo chorar e não dizer "deixa de ser mulherzinha!". Quero ver uma amiga tomando a inciativa num flerte e não bater nas costas dela dizendo "você foi muito macho!"

E isso é muito difícil, isso é ir contra tudo o que eu internalizei em sociedade. Mas é isso que vai fazer com que mulheres parem de morrer ou de sofrer qualquer tipo de violência por que são mulheres.

Homem e mulher são designação de gênero da espécie humana. Não são adjetivos. Não são rígidos papéis sociais - não deveriam mais ser na nossa sociedade. 

Dizer que sou mulher, a priori, não diz nada sobre mim, nada, a não ser que tenho um ciclo menstrual e que posso vir a gerar um filho em meu útero. Diz também, socialmente, que sofro uma série de restrições, cobranças e violências, que outros indivíduos, homens, não sofrem, ou sofrem de maneira diferente.
Não diz nada sobre mim, meu caráter ou minhas preferências, não diz se prefiro rosa ou azul, não diz se sou sensível ou grossa, se gosto de poesia ou esportes. Não diz.

O que diz algo sobre mim é minha religião, meu partido político, o que eu quis estudar, minha atuação profissional - minhas escolhas.

É claro que eu sei - admiti no primeiro parágrafo desse texto - que "o mundo real" não é assim. Que o fato de nascer com uma vagina veio junto com um pacote de obrigações sociais e comportamentos pré-determinados que eu deveria ter. (que os digam os "isso é jeito de moça?" que eu ouvi da minha mãe!)

Mas eu luto todos os dias para não ser refém desse pacote. Para ser não-machista. Para me enxergar como pessoa. 

Contudo, eu sei que eu nasci num mundo e numa época que não me permite, mulher e negra, ser só "pessoa",  padrão, default, isenta, cuidando da minha própria vidinha e buscando egoisticamente minha felicidade. Isso é omissão, é covardia, é apatia

Então, se for pra eu adotar algum papel pré-moldado pra minha vida - um papel que eu escolhi - que seja o de mulher independente, forte, com voz, livre. Que seja o de vadia.

***

A Marcha das Vadias/DF de 2013 vai ser no dia 22 de junho.
Concentração às 14h em frente ao Conjunto Nacional!
Participe!



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A gosto da estrada #4

>> quarta-feira, 8 de maio de 2013

Depois de horas na estrada, o ônibus que vai de Santa Cruz de la Sierra a Sucre para em algo que em bom português seria uma birosca - um casebre mal iluminado e solitário encrustado no meio dos Andes, onde se podia comprar biscoitos, tomar chá de coca e usar o que pretensiosamente era chamado de banheiro.

Em meio a lugar nenhum, Bruna vê a oportunidade de se aproximar do único viajante que fala inglês. Aliás, do único viajante que também parece considerar aquela jornada em meio a despenhadeiros uma aventura, e não mais um trajeto corriqueiro.

Norito, assim se chama o japonês. Tem vinte anos estuda "business" no Japão, e, depois de muita insistência, foi autorizado pelos pais a empreender sua solitária viagem. Começou por seu país natal, e depois andarilhou por  Irã, Vietnã, Egito, Emirados Árabes, Argentina e Paraguai, de onde viera para a Bolívia. Dali partiria para o Peru e depois regressaria à terra do sol nascente. Não visitaria o Brasil. "Too dangerous".



Ao amanhecer o ônibus chega a Sucre, a cidade branca, constitucionalmente, a capital da Bolívia. Os dois viajantes, agora amigos, partem juntos da rodoviária para o hostel indicado num papel que uma jovem boliviana acabara de lhes entregar. Depois de verificar a veracidade do anúncio - chuveiro quente! - e de reorganizar sua mochila, Bruna sai em direção à Praça Central (também de Armas). Na primeira esquina, um pelotão de homens iguais, de pele morena, cabelos grossos e lisos e estatura mediana, tinge a rua de um amarelo vivo. É estranha a ausência de um cordão de um isolamento que divise os passantes dos que participam do desfile. O batalhão se concentra em frente à Iglesia de San Francisco, onde turistas e locais podem visitar o sino da liberdade - cujo soar anunciou incessantemente - a ponto de provocar uma rachadura - a independência do país da coroa espanhola, na revolução de 1809. Dezesseis anos de guerra se seguiram,
até que o país se consolidasse como república, num dia seis de agosto, que passou a ser comemorado no país como o Dia da Pátria.









A próxima atração a ser visitada em Sucre é seu 
parque Cretácico - um complexo construído para que turistas e pesquisadores pudessem ver de perto um paredão com pegadas de dinossauro. O táxi que conduz  Bruna se embrenha por caminhos cada vez mais ermos. Notando a apreensão da passageira, o taxista explica: o parque fica ao lado de uma fábrica de cimento - a fábrica que descobriu as pegadas durante suas escavações. A área claramente é de periferia: as pessoas que ali vivem giram em torno da fábrica: trabalhadores, cozinheiras, seus filhos.

As pegadas foram preservadas durante muitos anos, e, durante a recente formação da cordilheira dos andes, o que era plano virou relevo, e assim as pegadas saíram do "chão" e foram encontradas na posição vertical.

Já sabendo o caminho, ela vai embora do parque usando o transporte coletivo: velho, lotado - a porta sequer fecha ao longo do trajeto. O subir e descer dessa gente - mães e seus muitos filhos, velhos, cholas de longas tranças e olhar severo, toda a espécie de gente a que se costuma chamar "povo" dá a Bruna uma sensação de pertencimento àquela terra. Naquele ônibus velho era mais uma a andar num ônibus velho, como o tinha sido a vida toda. Não se sentia estrangeira. Sentia estar mais próxima daquela gente do que as pessoas que moravam confortavelmente no centro da célebre cidade jamais estiveram - do que gente como os donos da fábrica vizinha jamais estarão. 




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Profissão: Leitora

>> segunda-feira, 6 de maio de 2013

No futuro, as famílias ricas terão ao menos dois leitores, cada. O leitor será o novo empregado doméstico daqueles mais abastados. Ao lado de James, o mordomo, Maria, a cozinheira, Jarbas, o motorista, e Juan, o jardineiro, Dr Antônio Carlos e Dra Abadia da Rocha figurarão como a criadagem doméstica da família Albuquerque Bitencourt.

Assim, os membros da família serão dispensados da estafante obrigação de ler livros com mais de 50 páginas. Ou melhor, de ler qualquer coisa que esteja impressa, em papel. Seus leitores oficiais se encarregarão desse trabalho e, mais do que isso, deverão resumir cada leitura em uma apresentação oral, de não mais de quinze minutos de duração, antes de jantar ser servido no aparelho de prata.

Os grã-finos poderão, então, manter conversações vazias e superficiais sobre as leituras de seus leitores, e seus resumos criativos.


No café da moda, jovens discutirão ardorosamente sobre as qualificações de seus leitores. "Minha leitora fez doutorado na Sorbonne, resumiu Flaubert pra mim, vida e obra, em cinco minutos!"
"O corvo é a poesia, o tinteiro é o coração - duvido que alguém tenha entendido Poe melhor que o meu leitor, PhD em Harvard".


Os salários serão altíssimos, porque serão poucos aqueles que se disporão a perder horas diárias lendo histórias de malfadados amores, ardentes traições e deliciadas vinganças de tempos tão remotos quando não imaginários. A pouca oferta de mão de obra qualificada fará com que as famílias invistam nas melhores edições, nas encadernações mais bem-acabadas, nos volumes mais raros - tudo para atrair os melhores leitores disponíveis no mercado.

E assim, finalmente, se infiltrando nas famílias mais ricas e influentes, emburrecendo paulatinamente as elites, tendo acesso ao que há de melhor no mundo editorial, e sendo devidamente remunerada para entender a história do mundo e das mentalidades, a União Secreta dos Leitores poderá colocar em prática seu plano sigiloso, arquitetado desde sempre, de dominar o mundo.

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