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Não existe amor em BSB

>> sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


(Primeiro de uma série sobre o desamor na capital)


Na cidade das asas e dos eixos, o amor não encontra seu caminho. Sempre pega o eixinho L quando na verdade deveria ter ido pelo W. Depois de entrar nas quadras, não entende a disposição teoricamente alfabética dos blocos. O amor é sinuoso, muito mais afeito a esquinas e à poesia e ao heroísmo nostálgico dos nomes das ruas. Não entende o plano cartesiano. Deve ser por isso que não existe amor em BSB. 

Não existe amor em BSB. 

Essa cidade foi construída sobre os escombros de famílias desfeitas. Quantas esposas aguardam até hoje o retorno de seus maridos que vieram para a construção da capital e nunca mais voltaram? Vieram, construíram a cidade, e junto com ela, uma nova família. E ficaram, e foram ficando. Não seguiram o plano piloto: o de regressar. Em torno da ilha de prosperidade que prometia ser a nova capital, aglomeraram-se em núcleos de candangos, em terras de bandeirantes. E ficaram. 

Na cidade planejada o amor inesperado nunca vai acontecer. Há algo no mármore, algo no concreto, há algo na alma embotada dessa metrópole poeirenta que impede que o amor floresça. 

Nessa cidade, só as cigarras amam, e só uma vez a cada ano. E quando seus moradores, irritados, reclamam do barulho desse amor, não é exatamente do barulho que reclamam: clamam por seus próprios amores que, silenciosos, pereceram sufocados pelo pó da estação seca, e que nunca hão de ver e sentir a primavera e a chuva que ruidosamente o amor das cigarras anuncia.


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