Anjinhos? Tenha medo.

Desde que vi um filme, que eu não lembro o nome, com o Robin Williams, onde o personagem dele foi atormentado a vida toda pela culpa de ter matado acidentalmente um
coleguinha - até ver o
coleguinha andando pelas ruas anos depois - , que eu desconfio bastante das lembranças que eu tenho de criança.
Essa desconfiança aumenta à medida que eu conto
suuper empolgada as coisas que eu lembro
pros meus pais e eles dizem que aquilo nunca aconteceu.
Mas uma das lembranças mais antigas e nítidas que eu tenho é a prova de que eu já passei a imagem de menina inocente uma vez na vida.
Gincana de Festa
Junina da escola.
Prêmio: passeio pro clube.
Ganhamos! Dia do passeio. Todas as
menininhas de 8 e 9 anos de biquíni, exibindo o que elas poderiam vir a ser um dia. Todas menos uma. Essa, a única que foi de
maiô, está agora afastada das meninas, na
rodinha dos meninos, que não estão ligando muito
pras meninas de biquíni: estão mais preocupados em ver quem dá a maior barrigada na piscina.
De repente, um garoto gordinho, rosado pelo sol, chega na
rodinha dos outros meninos - e da menina de
maiô - e cochicha:
- O professor de
Ed. Física tá ajudando as meninas a tomar impulso pra nadar pra aproveitar pra passar a mão nelas!
Pela
reação dos meninos, o gordinho rosado pelo sol não gozava de muita credibilidade entre a turma. Todos quiseram ver com seus próprios olhos. Foram, com seus óculos de natação, pra parte da piscina onde o professor de
Ed. Física - que, a bem da verdade, tinha mesmo uma cara de tarado - estava, desfazendo, assim, a
rodinha.
A menina de
maiô foi procurar outra
rodinha - afinal, por mais que preferisse ficar sozinha, isso pegaria mal pra uma criança de 8 anos no clube num dia ensolarado, com todos os seus
amiguinhos pra brincar - e acabou parando na das meninas de biquíni que molhavam só os pés na piscina - e que, alguns anos mais tarde, virariam as meninas que não entram na piscina pra não molhar o cabelo de chapinha.
A
noticia do professor tarado chegou nessa roda também, mas foi passado como telefone-sem-fio de ouvido pra ouvido. Quando chegou a vez de passar pra menina de
maiô, a ligação foi cortada.
- Me conta, o que é?
- Não! Você ainda é muito inocente pra ouvir essas coisas.
Essa última frase foi dita com um misto de
proteção e reprovação no tom das palavras. Menos
proteção do que reprovação, é verdade, mas o fato é que a menina de
maiô não gostou de passar a impressão de que não entenderia o fato ter um professor de Educação Física tarado com tendências para a pedofilia - principalmente por ter certeza que era a única entre as amigas que sabia o significado da palavra 'pedofilia'.
A partir daquele dia, mostrar
pros meus
coleguinhas que eu não era tão
ingênua quanto eu parecia virou quase uma
obsessão. Hoje eu penso que a menina de
maiô deveria ter ficado feliz em ser protegida da realidade desse mundo cruel, em vez de querer conhecê-lo mais de perto. Mas não ficou. E, quem sabe, foi a partir daí que começou a reagir a acidez dessa Laranja...
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