Uma geração sem jovens

>> domingo, 20 de janeiro de 2013

Compartilho com vocês uma reflexão de um domingo à noite.
Leiam desarmados e se ponham a pensar e a sofrer nossa geração comigo.

Minha geração será conhecida no futuro com a geração sem jovens. 

É noite de domingo e eu me detenho a ler com atenção o edital do último concurso público lançado. Cogito fazer um cursinho preparatório. Mais de dois mil reais. Descarto a possibilidade. Navego aleatoriamente por sites e blogues de "concurseiros". O que leio deveria me deixar intimidada, mas me deixa... triste. Coisas como "níveis" de concurseiros: básico, intermediário, avançado. Concurseiro é carreira. Manual do concurseiro, guia do concurseiro, mandamentos do concurseiro. Quase um novo credo a ser professado.

Tenho muitos amigos concurseiros - ou melhor, tinha, pois concurseiros sérios, avançados, comprometidos, os únicos que têm alguma chance de passar (ou se alcançar o céu dessa religião), é claro, abrem mão da sua vida social. Quando eles finalmente passarem num concurso (não em "um", mas no ideal) e retomarem suas vidas normais, terão perdido alguns anos de suas vidas se lobotomizando em cadeiras de cursinhos. Em compensação, serão estáveis nos seus trabalhos em três anos - poderão, antes dos trinta, sentar nas cadeiras giratórias de suas repartições e esperar o casamento, os filhos, as viagens de férias, a aposentadoria e a morte (na melhor das hipóteses nessa ordem).

É triste. Sua opinião sobre esse texto talvez mude ao descobrir que essa que vos fala é uma concursada. Para mim, o concurso foi uma forma de mobilidade social - hoje tenho o padrão de vida e o nível de independência que a maioria dos meus colegas já tinha ainda na Universidade, sem trabalhar. 
E foi também um golpe de sorte, destino, senso de oportunidade: estudei sozinha, por dois meses, com uma apostila.

Mas voltaremos à minha história pessoal daqui a pouco.

Os meus amigos que assumiram a "carreira" de concurseiros são, em sua maioria, de classe média. De outra forma não teriam como pagar as exorbitantes mensalidades dos cursos preparatórios. Isso me faz pensar que os seus pais, a geração anterior, ralou bastante pra chegar nessa classe média. Muitas vezes já com família. O esforço deles foi motivado pela preocupação com o bem estar futuro de uma família - de filhos - que já existia.

Criaram esses filhos com tudo do bom e do melhor, com muito leite com pêra, para que eles pudessem estudar sem precisar trabalhar, estudar nas melhores escolas, cursar o melhor curso na melhor faculdade. E esses filhos fizeram isso. Tinham tudo pra ter sonhos. Tinham segurança e comodidade na família para se arriscar por eles: serem bons e realizados atores, professores, advogados, arquitetos, médicos, engenheiros.

Era uma geração que tinha tudo pra ser feliz. Realizada. Era só isso, filho: tenha um sonho, siga sua vocação, trabalhe com o que você realmente gosta, porque nós, seus pais, te daremos o apoio que você precisa pra começar. Você não precisa se preocupar em ganhar muito dinheiro, nós fizemos isso por você. 

Mas não. Filhos de famílias com dinheiro geralmente têm uma única preocupação: fazer tanto ou mais dinheiro para se manter no mesmo padrão de conforto, mordomia e status em que cresceu, não importando que para isso tenha que fazer um trabalho que odeia pro resto da vida.

Não faz sentido! Pra que aqueles pais ralaram pra dar do bom e do melhor pros filhos, então? Pra que quando ele chegasse aos vinte anos dizer: opa, filhão, viu como é bom ser rico? experimentou o bem-bom? ótimo, agora vá tornar a sua vida miserável, como nós tornamos a nossa, pra continuar assim!

Aí vai o ex-futuro-jovem, com vinte e poucos anos, se matar de estudar pra passar num concurso público - que é o que tem nessa cidade - pra manter o alto padrão de vida que os pais deram pra ele, pra dar um padrão de vida ainda maior pros filhos que ele ainda não tem. Vai lá o rapaz ou a moça com a ilusão de que, finalmente, quando ele passar no concurso dos sonhos, ele vai ter tempo e dinheiro pra fazer o que quiser da vida. Não vai, filho. Dinheiro, talvez. Tempo, não. Serão 30 dias de férias em um ano inteiro. 8 ou 6 horas por dia fazendo um trabalho que você não gosta, muitas vezes detesta. Nenhum respeito à sua vocação, ao chamado místico do mundo para que você exerça o que você faz de melhor. Talvez você nunca saiba qual é esse chamado místico - provavelmente você simplesmente não vai acreditar que ele exista.

Uma geração inteira de jovens que não foram jovens. Foram concurseiros. E depois jovens velhos, que com com 22 terão 40. Ou jovens adolescentes, que vão curtir o que deviam ter curtido aos 22 com trinta.

Eu não entendo. Voltando ao meu caso, acredito, sim, no concurso público como forma de mobilidade social, como forma de me livrar de um balcão de loja, de um caixa de fast food. Acredito nele como um meio de lançar bases que meus pais não puderam ou não quiseram lançar: mas bases de onde eu possa um dia me jogar em busca dos meus sonhos. E, por favor, que eu ainda seja jovem quando puder - ou tiver a coragem de me jogar!

Não como um objetivo de vida, uma carreira a ser perseguida, um fim em nome do qual eu sacrifique os anos da minha juventude. 

A não ser que minha vocação fosse a da burocracia. Burocratas natos se darão muito bem no serviço público!

Quanto mais eu penso, mais tenho certeza de que salário nenhum paga esse meu sacrifício de energia que eu tenho no meu trabalho, muito menos o que eu ganho. Salário nenhum paga essas trocentas crises de meia idade e frustração que eu já tive dos dezenove aos vinte e dois anos. Estabilidade nenhuma paga o desespero de ver pela minha frente mais trinta anos de insatisfação e burocracia (cruzes, só de pensar me dá arrepios!). Função gratificada ou DAS nenhum pagam o esforço que é dividir minha vida em "eu no trabalho" e "eu fazendo o que eu mais gosto de fazer na vida = literatura". 

E o que me impede de jogar tudo isso pro alto agora é o fato de já ter vendido os próximos anos de salário desse emprego pro banco, adiantados. Vendi por um conforto que eu não preciso - pelo menos não precisava até ter. Daí que o único jeito de comprar minha liberdade de volta é ganhando mais dinheiro num emprego que pague mais. Daí voltamos pro que motivou o começo desse texto: vou ter que fazer e passar no tal do último concurso lançado.

Entendam que esse texto não quer apontar o dedo pra ninguém. É uma reflexão, um questionamento. E a primeira a lê-lo com identificação e tristeza sou eu, que ainda não sei ao certo se é melhor ou pior ter consciência da prisão em que meus sonhos estão encerrados.

Read more...

713 Norte (nãoexisteamoembsb)

>> quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Alice,

No quesito "stalker", sua história "barrou" a minha (como você diz, rs). Hoje não vou contar uma história minha, mas a de um amigo. Renatinho, lembra dele? Claro que lembra, sei que você tinha uma queda por ele, não negue! Então, acabo de encontrá-lo no grande circular, e me lembrei da história que ele me contou já há alguns meses... É um desafortunado caso de amor. 

Ela era linda, fazia jornalismo, morava no fim da asa norte... Se fosse uma história inventada não teriam juntado tantos estereótipos. Mas, estereótipo ou não, o fato é que o caso aconteceu.
O primeiro encontro, fruto de um puro acaso do destino, foi na dom bosco do ceub. Os dois pediram uma dupla quando só havia dois pedaços da última fornada de pizza. Renato quis ser cavalheiro: "Pode ficar, eu espero a próxima pizza", mas ela insistiu para que cada se servisse de um pedaço daqueles enquanto esperassem juntos a próxima fornada de massa, queijo e molho de tomate.

Assim foi, e a partir de então, quase sempre naquele mesmo balcão, os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia, como tinha de ser. Até que um dia ele finalmente ele propôs que os dois se vissem fora dos muros da faculdade, e ela disse sim. 
Cinema, claro. Mas nenhum dos dois foi capaz de dizer se as indicações a prêmios daquele filme foram justas ou não: ficaram de olhos fechados e bocas e mãos ocupadas dos trailers aos créditos.

A essa sessão seguiram-se outras tantas (falta de criatividade dos namorados ou de opção na cidade?), e tudo ia bem. 

Certa noite em que sua amada não podia sair porque já havia marcado um outro compromisso, Renato aceitou acompanhar o pai em um coquetel ao qual compareceram todos os figurões do Direito da Capital Federal.

                                                     Fonte
Entediado entre homens velhos com assuntos mais velhos ainda, Renato viu Michele - Michele, ela se chamava - linda, tão linda quanto ele nunca a vira antes, acompanhada de um senhor, de um velho. Ainda esperançoso, Renato pensou em todos os possíveis graus de parentesco entre os dois, julgou até mesmo encontrar alguma semelhança na fisionomia dos dois que evidenciasse laços de sangue. 

Por alguns segundos alimentou essa esperança: os segundos que antecederam o beijo indecoroso e ardente com que o velho cobriu sua Michele.

Renato inventou uma súbita indisposição para o pai e foi embora de táxi, antes que Michele o visse. Enquanto o motorista seguia na velocidade da via, murmurando qualquer coisa sobre os novos pardais, máquinas de fazer dinheiro para o governo, as imagens giravam caleidoscopicamente na mente de Renato. Michele... fazia parte da lista rosa... há quanto tempo? Assim que pagava a faculdade? a academia? bolsas, roupas, tudo? até aquele primeiro pedaço de pizza que dividiram juntos?

Você, Alice, pode imaginar o quão perturbadora esses pensamentos fizeram da noite do meu amigo desiludido. Na manhã seguinte, Michele recebeu dele uma sms: "acabou".
Ele não quis discutir, não fez escândalo e nunca explicou pra ela o porquê de um término tão precipitado e seco.

Mas desde então Renato não pensa em outra coisa a não ser estudar para ser, ele mesmo, um figurão do Direito, e poder um dia ser um dos clientes privilegiados que tem acesso à lista rosa da capital. 

Não existe amiga, não existe amor em em BSB, e até mesmo os corações mais férteis para o florescimento de grandes paixões, com o tempo e seguidas decepções transformam-se em um lodo de ganância e sede de poder.

Com essa imagem forte despeço-me, querida amiga, e confesso que estou começando a gostar dessa brincadeira epistolar tão anacrônica, que faz pulsar minha veia literária que eu já julgava ressecada pelo clima dessa cidade.

Com afeto e saudade, 

João Lucas


Read more...

Poética do Sertanejo Universitário #2

>> terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Você, amiga solteira em Brasília, essa cidade fria e sem amor onde todo mundo é metido (e eu espero que você não seja!), não sabe mais onde ir pra paquerar e dar uma levantada na autoestima? Pois a balada sertaneja é a melhor pedida! Dispa-se dos seus preconceitos musicais e jogue-se num dos oasis de sociabilidade dessa cidade, onde você ainda poderá conhecer alguém que não seja necessariamente amigo de um amigo.

Caso você nunca tenha sido exposta a esse tipo de interação social, não se preocupe! O sertanejo universitário (que traz na aba o arrocha) é o estilo mais autorreferenciado da atualidade. 
- Como assim, Bial Bruna Silfer?

No primeiro post que eu escrevi sobre a poética desse estilo, o tema que mais aparecia nas letras era o da revanche sentimental: bom moço/boa moça é sacaneado/leva pé na bunda do namorado e, em vez de curtir a fossa na mesa do boteco, se joga na balada, pega todas e grita EU NÃO PRECISO DE VOCÊÊÊÊÊÊ!

Agora é diferente! (pra vocês verem com os gêneros se transformam rapidamente nos anos 10). O tema mais presente nas letras da balada de sertanejo é ~pasmem~ a balada de sertanejo! Se antes o bom moço/boa moça precisava levar o pé pra acordar pra vida e pegar sem se apegar, agora não: a galera já se joga na balada como se não houvesse amanhã. Então, toda a experiência de vida dessa galera é a balada! Não tem amor não-correspondido pra tentar esquecer, não tem traição pra vingar: a profundidade da vivência amorosa de quem canta e escuta a música acaba naquele carinha que não pegou seu telefone.

Então, cara amiga que está chegando agora nesse mundo, não se preocupe em aprender com antecedência os padrões comportamentais desse nicho social. A dica é simples: presta atenção em cinco letras aleatórias que tocarem na balada e você já vai saber como tudo funciona. Duvida? Vamos aos exemplos textuais que comprovam nossa hipótese:
Na sexta-feira (em todas elas) começa o bolo doido. Depois, sábado, na balada, a galera começa a dançar. Se você for a menina mais linda, esteja preparada para ouvir a cantada infalível: nossa, nossa, assim você me mata! Ai, se eu te pego! , sussurrada pelo cara popular que chega na balada, e todos param pra ver.
Dúvidas sobre como flertar? A música ensina também! É só você olhar pra ele querer te pegar!
Prestando atenção nas letras você também vai saber que nesse mundo vale mais quem anda de carrão - mas tem espaço pros quebrados que sabem fazer o lê lê lê!

É claro que no começo a gente se sente assim, confusa com aquele tanto de homem vestindo a mesma camiseta da hollister, mudando só a cor ou as listras (até quando?), fica puta com os caras de fim de balada puxando nosso cabelo, fica indignada de ser chamada de interesseira mesmo em cada letra que tem carro e "bebida de graça". E eu gostaria de te afirmar, amiga leitora, que essa sensação passa, que com o tempo você acostuma - mas eu não posso: nunca me acostumei.

É claro também que eu não tou incentivando ninguém a tomar pra si esse conjunto de valores do moleque playboy que liga pra mamãe da balada, e que acha que é só chegar batendo de carrão e oferecendo bebida pra pegar mulher - mas também não vou te julgar se você fizer isso, colega. Tá, vou sim.

                                          "Tenso" é fazer tudo isso com o dinheiro do seu pai.

Essa nova poética das letras é reflexo dessa adolescência eterna de minas e caras que medem a vida pela agitação do fim de semana - e pelo quanto eles ficam bêbados e por quantas pessoas eles pegam. Daí que o problema (se existe um problema), é claro, não é a música, que é toda autorreferenciada, ou seja, faz referência sempre a si mesma, ao estilo de vida de quem a faz e de quem a consome, mas, sim, essa geração que toma esses valores como absolutos.

Se a música vende e faz sucesso (e muito sucesso!) é porque tem mesmo gente que pensa que mulher se compra, e tem mulher que se vende, que pai e mãe tem que bancar farra de filho mesmo, e tem pai que banca, que ter um carro, ser bom de cama e poder bancar bebida são as qualidades do homem que toda mulher procura, e tem mulher que procura esse cara mesmo. E é isso que mais me preocupa: não o ritmo que é dançado, não o pegar sem se apegar, não os vestidos apertados e curtos, não as letras esvaziadas de qualquer valor artístico. Mas essa ideologia-mãe de tudo isso: machista (ainda mais do que o funk carioca, por exemplo, onde, pelo menos, a mulher também canta e não é só uma bunda embalada a vácuo balançando um cabelo loiro de chapinha) e insuportavelmente esnobe (tem dinheiro? ok! não tem? vaza! ah, seu pai morreu, mas pelo menos você ficou rico e comprou um camaro? ok de novo!), fruto de uma geração jovem  ociosa de classe média que de sertaneja não tem nada, e de universitária, tem só a matrícula em uma faculdade de seriedade duvidosa.

Pensando bem... Você, amiga solteira que mora em Brasília, essa cidade fria e sem amor onde todo mundo é metido (e eu espero que você não seja!), e que não sabe mais onde ir pra paquerar e dar uma levantada na autoestima: supondo que você seja inteligente, esqueça o conselho que eu dei ali em cima... Ou, se decidir se aventurar mesmo na balada sertaneja (afinal, é a juventude, né, podemos fazer esse tipo de besteira) - acione o botão no seu cérebro que bloqueia seu senso crítico responsável por identificar e condenar padrões de comportamento preconceituosos e machistas, e seja feliz.

O meu quebrou da última vez que eu fui no Garota Carioca.

Read more...

do risco de se sonhar errado (crônicadeviagem)

>> segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

João Lucas,

Se dependesse de mim estaríamos, sim, trocando longas cartas que cruzariam o Atlântico, escritas a pena e em papel timbrado e selado com nossos brasões pessoais! Uma parte de mim ainda vive no século em que se fazia isso, e você sabe. Mas me contento com esses emails. Assim você pensa em mim enquanto os escreve, depois pensa na minha resposta, depois lê a resposta e começa a pensar na sua... e então estamos ligados, não só pelas palavras que trocamos, mas por esse pensamento contínuo que é mais eficiente que qualquer transmissão de dados!

Acho que sua história acabou como aquelas flores sim, mas não por ser sem vida e sem perfume, antes por ser perene: A garota da catedral não vai esquecer do rapaz simpático que lhe entregou as flores, enquanto elas durarem, ou seja, por muito tempo ainda. As flores do cerrado, como seus amores, podem ser, sim, secas: mas não morrem.

Mas acho que você nem foi muito stalker.  Como prometi, vou te contar as histórias da - das minhas viagens, mas esse seu momento psicopata me lembrou do meu psicopata favorito.

No último Natal que passei aí com minha família, me lembro bem: faltavam dez minutos para que o relógio marcasse onze da noite. Era véspera de Natal, e meu telefone tocou. O número era desconhecido, antecedido pelo código que indicava uma ligação do Rio de Janeiro. Alô?, Alô, tá me ouvindo?, Oi... é você!. Era ele. Ele desejava um feliz natal para "sua" moreninha. 

Tanto tempo depois, e ele ligou de novo! 

Saquarema, 2007
Cinco anos antes, nas férias de verão, viajei com minha família pr'aquela praia que vocês que sabem  surfar adoram. Sentia o sal do mar, ouvia o barulho das ondas, olhava o azul do céu, e me sentia plenamente feliz. Celebrava ali, com a família e a natureza, a minha aprovação em um concorrido vestibular, da qual tive notícia dias antes. Uma nova vida pela frente me esperava, e começava ali, abençoada pelo vai-e-vem das ondas.
Ouvir por perto o sotaque característico – e, aos meus ouvidos, sempre irritante –  do lugar me fez parar de sonhar com a minha atraente vida futura e desviar o olhar para o jovem que se aproximava e dizia algo aos meus irmãos, que brincavam comigo no mar.

“Olha, você tem que fazer assim, se não a onda te leva pra praia”. Ele falava com meu irmão mais novo, que desajeitadamente tentava “pegar jacarezinho”.

Horas depois, naquele mesmo dia, eu esperava no shopping da cidade reencontrar o surfista da praia. Pensava na aventura que contaria ao voltar pra minha cidade: havia conhecido um surfista na praia e marcara um encontro! Um amor de verão! Ótimo jeito de começar minha vida nova!

Ainda estava perdida nesses pensamentos quando ele chegou. Ele, dois ou três anos mais velho que eu, morava na capital do estado, mas sempre passava as férias na casa de verão que a sua família tinha naquele pequeno paraíso para surfistas profissionais e amadores. Naquela manhã havia ido à praia sozinho, e sua avermelhada pelo sol, que contrastava com o intenso azul de seus olhos, indicava que fazia isso todas as manhãs.


Ali estávamos, nós dois, depois de um encontro fortuito na praia, e dele ter reunido toda sua coragem para me chamar pra sair, como me contou mais tarde. Saímos, pois, e sob o entardecer alaranjado conversamos a mais não poder. Eu, radiante com os dias passados no litoral e com a expectativa da vida nova que teria na faculdade, experimentava o sabor da aventura de meu primeiro amor de verão digno desse nome. Ele, rendido a um singular encantamento, admirava a vivacidade com que eu lhe contava sua história e seus sonhos.

Agora, recordando aqueles dois dias, não sou capaz de precisar em qual momento a excitante aventura amorosa de verão começou a ser não tão excitante e menos ainda amorosa. Lembro-me somente que, a certa altura, quis correr para longe ao ouvi-lo falar das coisas maravilhosas que nós dois faríamos se eu não tivesse que retornar à minha cidade no dia seguinte:

“Se você ficasse, eu faria um jantar pra você, nós jantaríamos à luz de velas... decoraria a mesa com flores... faria um carinho nos seu rosto e beijaria seus lábios suaves... ao som de violinos... e na manhã seguinte eu te prepararia o café com tudo o que você mais gosta... e de tarde a gente passearia pela praia, faria um piquenique no parque... e eu acariciaria seus cabelos... assim...”

“Graças a deus que vou embora amanhã”,pensei. Mas o que eu disse foi “é uma pena que eu tenha que ir, né?” E a essa seguiram-se mais descrições melosas e ricamente adornadas de felicidade da parte dele, o que só aumentou a minha sensação de náusea e uma estranha e inesperada certeza de que eu havia sonhado a vida toda com um homem me dizendo aquilo – e sonhei a vida toda errado!

Naquele momento descobria que essas coisas propagadas como românticas não tinham nenhum valor se não fossem feitas com a pessoa certa. Descobria ali que o romance não está nas velas, nem no perfume das flores, ou nos doces acordes dos violinos: mas na entorpecimento provocado pela paixão. Sem paixão aquilo tudo parecia apenas um pouco ridículo e insuportavelmente sufocante.

Um pouco ridículo e insuportavelmente sufocante ele pareceu no dia seguinte, quando, num ato de amor desmedido, atravessou a cidade de bicicleta para se despedir (outra vez!) antes do primeiro raiar do sol.
Feita a última e dramática despedida na porta do meu hotel, voltei para a minha cidade, ainda intrigada com o fato de o amante dos meus sonhos ter se tornado, ao materializar-se na vida real, tão maçante e repetitivo.

Cinco anos depois, eu ainda não sei o porquê de, o que para mim foi uma aventura de dois ou três dias, ter sido provavelmente a grande história de amor da vida dele. Desde aquele verão, meu telefone recebe uma ligação do Rio de Janeiro no meu aniversário e nas vésperas de Natal e Ano-novo. E eu ainda pode sentir, na voz emocionada no outro lado da linha, o mesmo tom sonhador que, ao entardecer na praia, me prometeu a vida mais romântica que eu jamais teria.

Mas não me recusei a atendê-lo, não me recusei a encontrá-lo quando ele visitou minha cidade e me quis ver. Minha condescendente consciência enxerga nesse meu ato uma grande generosidade ao alimentar as fantasias amorosas de alguém que aparentemente só tem isso – fantasias amorosas. Mas um olhar mais atento e menos complacente dirá, com razão, que a mim pouco me custam alguns minutos de atenção em troca do grande afago no ego que é saber-me inspiradora de uma paixão à distância que já dura cinco anos.

Talvez um dia, numa dessas ligações, quando eu voltar pra casa, tenha a coragem e a honestidade de dizer que acho isso loucura – amar uma pessoa com quem se esteve por três dias, e que nunca, em hipótese alguma, jamais corresponderá a esse amor – e irei partir, ao mesmo tempo, o coração do jovem enamorado e o espelho de minha vaidade.

Mas, por enquanto, deixo essas confidências só para você, João. Um dia publicaremos nossa correspondência, e tanto meu stalker carioca quando a sua misteriosa mineira saberão os bastidores das histórias das quais foram protagonistas. Um dia.

Continue me contando as histórias de desamor da nossa cidade. Troco suas crônicas de além-mar pelas minhas efêmeras aventuras em viagem, e assim vamos construindo esse mosaico de memórias compartilhadas, esperando pelo nosso reencontro, que se você cumprir sua promessa de vir me visitar, não demorará muito.

Com saudade e afeto,
Alice

Read more...

A garota da Catedral (nãoexisteamorembsb)

>> sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Minha cara amiga,

Ainda acho boba essa sua relutância em usar o facechat ou whats app pra falar comigo! Nem no skype você quer entrar! Mas ok, aceito trocar esses emails com você, por mais antiquado que seja. Mas só porque não quero de jeito nenhum ficar sem suas notícias de além-mar. E é melhor eu parar de reclamar, antes que você resolva só se comunicar por carta! Você e essa mania vintage...

Como prometi no último email, seguem os detalhes da minha aventura romântica com a menina da Catedral. Mais '"aventura" do que "romântica", como você vai ver.

Sempre gostei de ir caminhando do meu trabalho até a rodoviária, pra evitar o engarrafamento das seis da tarde, pelo prazer de caminhar, pra sentir pelo menos nesses momentos que eu vivo numa cidade de verdade, com pessoas de verdade.

Desde o fim de outubro, quando começou o horário de verão por aqui, tenho saído uma hora mais tarde. Já no primeiro dia dessa nova rotina eu a vi, sentada em frente à Catedral. Não sei porque reparei nela, havia outras tantas pessoas sentadas por ali, ou tirando fotos da igreja, ou caminhando em direção à rodoviária, como eu.... Acho que o que deteve meu olhar foi o all star dela! Isso, era vermelho, igual ao meu, aquele que eu sempre usava na UnB, lembra? O tênis dela me lembrou o meu, e há quanto tempo não o uso, desde que comecei a trabalhar... enfim, por isso reparei nela. Era uma menina de uns vinte e poucos anos, "bonita", pensei na hora (ok, confesso que "bonita" pode não ter sido exatamente a palavra que me veio à mente).

Segui meu caminho. No dia seguinte lá estava ela, sentada no mesmo lugar, dessa vez lendo um livro - que eu não pude identificar qual era, antes que você pergunte. Sei muito bem que você julga o caráter das pessoas pelos livros que elas leem em público.

E assim se seguiram todos os dias. À mesma hora eu passava em frente à Catedral, e ela estava lá, sentada, olhando o trânsito, ou os turistas, ou o céu que emoldurava o templo com diferentes cores e tons. Nunca repetiu aquele All Star vermelho do primeiro dia em que a vi.

Depois do primeiro mês em que a via todos os dias, comecei a pensar em formas de desvendar o mistério da menina da Catedral. Descobrir o que ela fazia lá, todo dia, à mesma hora. Quem ela estaria esperando? O que estaria esperando? Qual era aquele bendito livro que não terminava nunca? 

Era loucura, claro, eu precisava tirar essa ideia fixa da cabeça. Comecei a sair dez, quinze minutos mais cedo do trabalho. Ela estava lá. Depois, passei a sair quinze, vinte minutos mais tarde. Lá estava ela. Cheguei a temer que ela percebesse essa coincidência diária e desconfiasse de que eu fosse algum tipo de psicopata ou stalker (o que de certa forma eu estava me tornando). Mas ela nunca pareceu me reconhecer, nem nas duas ou três vezes que nossos olhares se cruzaram por mais de alguns se segundos.

Semana decidi dar alguma concretude ao nosso relacionamento absurdamente platônico, ao vê-la mais uma vez no lugar já de costume. Concebi o plano da nossa aproximação. No dia seguinte, comprei de um daqueles senhores que vendem flores secas em frente à Catedral um pequeno arranjo: sempre-vivas laranjadas, rodas para-tudo vermelhas, capim dourado e pimentinhas prateadas. Juntei ao ramalhete um envelope azul, contendo um bilhete que dizia:

Aceite essas flores como prova de um encantamento sincero. Há semanas passo em frente à Catedral e vejo você sentada, todos os dias, no mesmo horário. Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu. Mas eu nem sei o seu nome. Me dê a chance de descobri-lo amanhã, nesse mesmo horário. Se achar tudo isso louco demais, fique ao lado do Evangelista Lucas, e eu saberei que você leu este bilhete, mas não quer conversar, e respeitarei sua vontade. Se, entretanto, estiver disposta a fazer um novo amigo, faça companhia ao Evangelista João, e eu me aproximarei.
Vejo você amanhã.



Eu sei, você deve estar rindo, achando que eu pirei de vez, e que se fosse com você, no dia seguinte eu encontraria a polícia me esperando. Pode rir! Mas admita que fui ao menos criativo, ainda que covarde. Pois bem, entreguei a ela o arranjo e o bilhete, e saí sem olhar pra trás. Acho que a curiosidade superou o espanto dela, porque não gritou nem foi atrás de mim.

No dia seguinte, mal consegui trabalhar, pensando em qual seria a resposta da minha bela misteriosa. Foi com mil "borboletas no estômago", como você diz, e o coração acelerado que caminhei em direção à Catedral naquele entardecer.

Nem Lucas, nem João: a minha belle de jour estava de pé - foi a primeira vez que não a vi sentada - ao lado de Mateus. Eu não havia feito um código para Mateus. Não sabia o que Mateus significava.

Ao me ver, ela sorriu, entre surpresa e envergonhada. Só então me dei conta do quão constrangedora era aquela situação. Mais corajosa do que eu, foi ela quem quebrou o silêncio. "Obrigada pelas flores. E pelo bilhete. Não "respondi" como você sugeriu porque eu queria falar com você, mas não estou disposta a fazer um novo amigo. Não é que eu esteja assustada, ou te achando maluco - bom, talvez um pouco. Mas é que ontem seria o último dia em que você me veria aqui. Hoje vim só te encontrar. Amanhã volto pra minha cidade. Sou de Minas."

Mineira! Estava explicado o porquê de ela não ter chamado a polícia pra mim! Mineiras são sempre simpáticas!

A conversa não demorou muito mais que isso, ela tinha que ir embora. Antes que ela fosse, agradeci por ter ido naquele dia, disse que a achava muito bonita, falei meu nome, e, muito importante, perguntei: "Por que Mateus?"
"É o nome do meu namorado", ela respondeu. "Ele vinha me buscar aqui, todos os dias, mais ou menos nesse horário. Falando nisso, ele chegou, preciso ir. Obrigada pelo bilhete, vai ser uma boa lembrança de Brasília. Além das flores!"

E foi embora. Só algum tempo depois percebi que eu, idiota, disse meu nome mas não perguntei o dela, nem ela se lembrou de o dizer. Nem o título do livro. Ficará conhecida apenas como "A garota da Catedral". Que namorava o Mateus!

No fim, a história me saiu como as flores que comprei: bonita, mas sem perfume. Igual a essa cidade que você abandonou.
Volte logo para rirmos juntos dessa minha desventura!

Com afeto e saudade,

João Lucas








Read more...

Faça amor, não faça a barba!

>> quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Texto meu publicado aqui.

Há aqueles que contam a história de seus amores pela inflexão de cada olhar, pelo tom da voz, pela intensidade do toque. Nossa história se lê na tua barba. Sim, na tua barba. Palavra áspera, como a princípio era ela própria, machucando meu rosto quando nossos lábios se encontravam naqueles primeiros beijos apaixonados. Até então, nada sabíamos sobre o nosso futuro, e cada beijo poderia ser o último. E era com esse desespero emocionado de “última chance” que nos beijávamos, e a tua barba por fazer, áspera, dura, penetrante, riscava minha pele, traçando as primeiras linhas da nossa história.

Mas não era nossa última chance. E com a sua barba cresceu também o nosso carinho mútuo. A aspereza inicial deu lugar à suavidade do toque da pele que hoje eu acaricio com todo o afeto do mundo. Tua barba é a moldura perfeita dos lábios que tanto desejo beijar. E quando o faço, de olhos fechados, sentindo que posso levitar a qualquer momento, perdida no infinito do nosso bem-querer, é nela que toco para ter certeza de que sim, é verdade, estamos juntos, unidos por um fio – por todos os fios que emolduram o sorriso mais charmoso entre os sorrisos mais charmosos.

Assim, enquanto os outros amores são contados por dias, meses e anos, o nosso será contado pela sua barba: no nosso primeiro beijo ela estava por fazer, no primeiro “eu te amo”, seu cavanhaque estava perfeito. Naquela viagem apareceu o primeiro fio branco!

Quem sabe estaremos juntos até que ela se torne totalmente grisalha, depois branquinha? E, como faço hoje, será ao tocar nela, ao senti-la na minha pele, que todos os dias eu pensarei, feliz: é real!


Read more...

#RLL - As relações perigosas

>> segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Resenha Literária Livre

As relações perigosas
Choderlos de Laclos

Carta 81,
DA Marquesa de Merteuil
AO Visconde de Valmont

[...] Para vocês, homens, as derrotas não passam de vitórias a menos. Nesse jogo tão desigual, nossa sorte está em não perder, enquanto para vocês o azar está em não ganhar. [...] Ah, guarde seus conselhos para essas mulheres delirantes, que se dizem mulheres de sentimentos, cuja imaginação exaltada inclina a pensar que a natureza lhes pôs os sentidos na cabeça; que, nunca tendo refletido, confundem constantemente o amor com o amante;  que, em sua louca ilusão, acreditam que este com quem buscaram o prazer será seu único depositário; e, autênticas superticiosas, nutrem pelo sacerdote o respeito e a fé devidos à divindade.
Desconfie igualmente daquelas que, mais presumidas que prudentes, não sabem, se necessário, consentir em serem deixadas.
Tome tento sobretudo com essas mulheres ativas em sua ociosidade, que vocês denonominam sensíveis, de quem o amor se apodera com tanta força e facilidade, que sentem a necessidade de continuar envolvidas com ele, mesmo que não o desfrutem; e que, entregando-se sem reservas à fermentação de suas idéias, geram com elas cartas tão doces, e tão perigosas de escrever; e não temem em confiar essas provas de sua fraqueza àquele que as suscita: imprudentes que, em seu atual amante, não sabem enxergar seu futuro inimigo.
Mas o que tenho eu em comum com essas mulheres irrefletidas? Quando foi que me viu apartar-me das regras que me impus e faltar a meus princípios? Digo meus princípios, e o faço de propósito, pois não são, como os das outras mulheres, nascidos ao acaso, aceitos sem reparo e seguidos por hábito: são fruto de minhas profundas reflexões; eu os criei, e posso dizer que sigo minha obra. [...]
Mas imaginar que depois de tanto empenho não vá colher os frutos, que depois de um árduo esforço para me alçar acima das outras mulheres eu consinta em rastejar, como elas, entre a imprudência e a covardia, e que, sobretudo eu possa temer um homem a ponto de ver na fuga minha única salvação? Não, visconde, jamais. Quanto a Preván, quero tê-lo, e terei; ele quer contar, e não contará: aí tem, em duas palavras, nosso romance. Adeus.
De..., neste 20 de setembro de 17**.
Nessa carta (leia em voz alta, sério!), A marquesa de Merteuil explica pro seu caro Visconde o quanto ela deu duro (com duplo sentido, por favor), pra conseguir, ao mesmo tempo, ser uma dama admirada pela sua virtude na sociedade, e pegar todos os conquistadores da corte, em off.
Vocês devem imaginar que, naquela Paris do século dezoito, os aritoscratas não tinham muito o que fazer. A Marquesa de Merteiul e o Visconde de Valmont eram desses, e passavam seu tempo ocioso entretidos com manipulações e conquistas. As relações perigosas é uma compilação de cartas que narram os bastidores de uma sociedade hipócrita e vaidosa. A Marquesa e o Visconde são os principais "conspiradores", que, com mentiras, intrigas e uma boa dose de maledicência  dispõem da vida daqueles que querem conquistar ou de quem querem se vingar.

Intriga, sedução, mentiras e sexo proibido: Já dá pra saber porque esse livro é sucesso até hoje. Pra você, amiga leitora de 50 tons de cinza, eu prometo que esse livro de mais de três séculos, e seu Visconde, conseguem ser muito mais excitantes do que qualquer Grey milionário por aí.

A revolução (ou maldade, como queiram) da marquesa, é conseguir usar a dissimulação a favor dela. Usar da sua inteligência e da sua habilidade com as palavras pra conseguir conquistar quem quisesse, e manter o prestígio de mulher virtuosa na sociedade. Entre o amor que se rende e o poder que domina, ela escolheu dominar. Ficam as lições (literárias apenas, claro) do jogo de sedução: No amor, homem e mulher são oponentes, um querendo dominar o outro. A vitória da mulher está em não se render, ou em se render e não deixar que ele conte pra ninguém! O homem vence sempre, rs. Mas quanto maior era a fama de virtuosa da mulher antes, maiores os louros da vitória dele. A conquista que realmente tem valor é aquela em que o outro se rende espontaneamente - sem que seja usada força no caso do homem, chantagem no caso da mulher. Para a mulher, todas as outras são rivais, e roubar o homem da coleguinha, principalmente se ele dizia estar apaixonado por ela, conta mais pontos.

Apesar de tudo, o livro, moralista, reserva um final trágico a uma das minhas personagens femininas preferidas (sim, ela é vaidosa, arrogante, falsa e má, mas que mulher inteligente! Que talento com as palavras!). Vítima da sua vaidade e dos seus caprichos, a marquesa só errou ao se indispor com a única pessoa que poderia denunciá-la, se não tivesse mais nada a perder: o Visconde. Antes disso, porém, as cartas são uma verdadeira escola pra qualquer mulher que queira aprender a usar a inteligência para ser manipuladora, dominadora e dissimulada (ok, esqueçam, isso não é um conselho! Juro!)

Séculos depois, o desafio pra nós, mulheres, é ainda esse: merecermos o respeito da sociedade por quem realmente somos e não por quem parecemos ser. Não sermos julgadas por nossa conduta sexual, não sermos didividas entre "Sandys" e "devassas", entre "virtuosas" e "desfrutáveis", "direitas" e "perdidas", entre "pra casar" e "pra comer", "difíceis" e "fáceis".

Ainda é o homem que sai ganhando de qualquer jeito no jogo da sedução - porque mesmo quando ganha, a mulher que se vangloria das suas conquistas amorosas ou sexuais (coisa que qualquer homem faz tranquilamente) - é vista como vulgar, biscate, vadia etc.
Às que não querem recorrer à dissimulação (como a Marquesa) fazendo a linha "dama na sociedade, puta na cama" (comunidade do orkut, lembram?) resta a alternativa de mandar essa sociedade tão hipócrita quanto a parisiense do século dezoito à puta que pariu e seguirem suas vidas em paz sabendo que a medida do seu caráter não é proporcional ao seu número de parceiros sexuais.

Fora essa pequena digressão sociológica, que não vem muito ao caso, fica a indicação literária de um livro muito gostoso de ler - que ainda excita a curiosidade de se estar lendo uma suposta correspondência secreta, quase a mesma emoção de ler aquele histórico de msn, facechat ou whats app que encontramos aberto ao acaso.

Indico também o filme Ligações perigosas, que tem uma das melhores cenas de término ever, baseada nessa carta do livro:

(Carta 141)
Tudo acaba por nos cansar, meu anjo, é esa uma lei da natureza, não é culpa minha. Portanto, se eu hoje me cansei de uma aventura que me envolveu por inteiro durante quatro penosos meses, não é culpa minha. Se, por exemplo, tive tanto amor quanto você teve virtude, o que já é dizer muito, não será surpresa que aquele termine ao mesmo tempo que esta. Não é culpa minha. Decorre daí que eu a tenha traído, de uns tempos para cá; mas também, de certa forma, seu carinho impiedoso obrigou-me a isso! Não é culpa minha. Bem vejo que é esta uma bela ocasião para acusar-me de perjúrio, mas se a natureza concedeu aos homens somente a constância, ao passo que deu às mulheres a obstinação, não é culpa minha.Vá por mim, escolha outro amante, assim como eu escolhi outra. É esse um bom, um excelente conselho; se julgar que é mau, não é culpa minha. Adeus, meu anjo, eu a possuí com prazer, e deixo-a sem pesar. Talvez ainda volte para você. Assim gira o mundo. Não é culpa minha. 

Tem coisa mais excitante que maldade com astúcia e inteligência? (na literatura, claro!)
Tem não, gente, tem não! Leiam!

Read more...

Não existe amor em BSB

>> sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


(Primeiro de uma série sobre o desamor na capital)


Na cidade das asas e dos eixos, o amor não encontra seu caminho. Sempre pega o eixinho L quando na verdade deveria ter ido pelo W. Depois de entrar nas quadras, não entende a disposição teoricamente alfabética dos blocos. O amor é sinuoso, muito mais afeito a esquinas e à poesia e ao heroísmo nostálgico dos nomes das ruas. Não entende o plano cartesiano. Deve ser por isso que não existe amor em BSB. 

Não existe amor em BSB. 

Essa cidade foi construída sobre os escombros de famílias desfeitas. Quantas esposas aguardam até hoje o retorno de seus maridos que vieram para a construção da capital e nunca mais voltaram? Vieram, construíram a cidade, e junto com ela, uma nova família. E ficaram, e foram ficando. Não seguiram o plano piloto: o de regressar. Em torno da ilha de prosperidade que prometia ser a nova capital, aglomeraram-se em núcleos de candangos, em terras de bandeirantes. E ficaram. 

Na cidade planejada o amor inesperado nunca vai acontecer. Há algo no mármore, algo no concreto, há algo na alma embotada dessa metrópole poeirenta que impede que o amor floresça. 

Nessa cidade, só as cigarras amam, e só uma vez a cada ano. E quando seus moradores, irritados, reclamam do barulho desse amor, não é exatamente do barulho que reclamam: clamam por seus próprios amores que, silenciosos, pereceram sufocados pelo pó da estação seca, e que nunca hão de ver e sentir a primavera e a chuva que ruidosamente o amor das cigarras anuncia.


Read more...

Último

>> segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Último. 
Plano para 2013 é fazer trabalho voluntário no blog – trabalhar de escrever aqui de graça. 
Agora, sem a dissertação, preciso me disciplinar a escrever em outro espaço – sob o risco de, se não o fizer, perder a habilidade naquilo que faço melhor, habilidade que só vem e é mantida com a prática: pensar por meio da escrita. Pensar é difícil, escrever também. Fazer os dois simultaneamente, então... ai de mim, se não praticar.

No último do ano, claro, penso nos doze meses que se passaram. Um dos anos mais marcantes da minha vida – mas na verdade todos os meus anos têm sido marcantes. Desde que eu posso me lembrar não há um ano que tenha passado em branco, que não tenha tido sua grande conquista, realização, começo ou conclusão. Ainda não sei o que vou conquistar no próximo ano: talvez conquiste justamente a serenidade de ser feliz sem ter conquistado nada de pretensamente especial. Ou talvez eu invista em uma realização ainda maior do que as que eu já tive. Ceder à ambição de dominar o mundo ou descansar, não sei. Sei que nada está “arranjado”, engatado, pronto. 
2013 talvez seja minha primeira página totalmente em branco, sem um caminho tracejado sobre o qual eu precise apenas firmar uma linha contínua. (metáfora que só quem foi alfabetizado no mimeógrafo deve entender).

Fiz o primeiro dever de casa: escrevi o post da segunda-feira. A ideia é escrever um por dia últil, até quando der. 

2012 vai ser arquivado no meu gaveteiro verde-metálico da memória como o ano em que eu terminei um namoro de quatro anos pela primeira vez. O ano em que eu “formei” minha primeira turma de crisma como catequista. O ano em que eu fiquei estável no serviço público. O ano em que (até então) eu mais viajei. O ano em que eu fiz meu primeiro mochilão sozinha. O ano em que eu quase peguei um cara de cada continente do mundo (droga, faltou África! Ainda tenho 12h pra encontrar um egípcio ou um angolano dando mole por aí!). O ano em que eu terminei meu (primeiro) mestrado. O ano em que eu mais fui "young, wild and free": saí, bebi, beijei,  viajei, procrastinei, me apaixonei e fiz loucuras irresponsáveis das quais a maioria das pessoas nunca vai saber nem a metade, rs. 

Pronto, 2012 já vai ser tagueado em muitas categorias importantes, de dar inveja aos anos passados ou futuros – se bem que, como eu disse, não há um ano nos últimos, sei lá, quinze, que não seja marcado por um acontecimento importante, desde a separação dos meus pais, em 98, a partir de quando começam minhas memórias mais nítidas. Taí, talvez o desafio de 2013 seja ser um ano não-marcante. Sem grandes acontecimentos. Em que eu assista meus filmes, leia meus livros e escreva sobre eles no blog (yeah, right, como se eu conseguisse!). Depois de tanto tempo correndo atrás da cenourinha à minha frente, será que eu me acostumaria a um ano assim? Bom, sonhar não custa. Afinal, a magia do ano novo gira toda em volta disso. Da crença mística de que a partir da meia noite do dia primeiro tudo pode virar realidade. E o meu maior desejo nessa meia noite será não ter desejos. Não criar as grandes expectativas e cobranças sobre mim mesma que vêm alimentando minha ansiedade crônica a vida toda. Tá bom. Chega. Já provei pra mim tudo o que eu tinha que provar.

E percebi de repente – agora – que passei muito tempo me esforçando pra ser amável, respeitável, admirável e desejável sem me dar conta de que quem tem mesmo que me amar, respeitar, admirar e desejar vai fazer e sempre fez isso de qualquer jeito, independentemente do meu esforço (e muitas vezes apesar dele). Todo mundo, menos eu. Ralei muito tentando me conquistar. E como eu fui difícil pra mim mesma! Pra só então, depois de oferecer à minha vaidade o fruto do meu melhor trabalho, descobrir que não precisava de nada disso. Que do mesmo jeito que eu amo, admiro e respeito a menina mestre, servidora, amiga disponível, engraçada e espontânea de 2012, eu vou amar, admirar e respeitar a blogueira gordinha que escreve sobre os filmes e livros dela em 2013.

Saber disso há uns dez anos atrás teria me evitado muita ansiedade e me dado mais tempo pra ler meus livros e ver meus filmes, rs.

Que venha o novo ano! 
Para mim, que seja leve, doce e tranquilo. Que as quatro estações sejam primavera, que o amor me encontre de coração aberto e sem defesas. E que o calor dos meus queridos mais queridos não se afaste de mim.

Pra vocês, que seja como a imaginação e a vontade de cada um desejar! (Por favor, imaginem e desejem coisas boas, valem os clássicos: paz, saúde, dinheiro e um cadim de amor verdadeiro)
Feliz Ano Novo,

Equipe LaranjaSumus (eu!)

Read more...

Eu, mestre!

>> quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aaaaah, como eu esperei pra escrever esse post!

Sei que já deve ter gente de saco cheio desse mimimi, querendo falar pra mim "Ok, ok, todo mundo já sabe, você é mestre com 22 anos, parabéns, agora senta lá!", e eu não ligo, rs.

Acompanhe a saga do eu, mestranda aqui, aqui, aqui e aqui.

Terminei a monografia no 1/2010, fiz a seleção do mestrado e mais vinte créditos da graduação durante o 2/2010. Em 2011 fiz as quatro matérias do mestrado e comecei a escrever o texto final. Em 2012 finalizei o texto e defendi. Tudo isso trabalhando numa área totalmente diferente (ministério da saúde), 40 horas semanais. Foi difícil! Tenho meus motivos pra comemorar por muito tempo!

Mas isso já está dito na série mestranda, rs. Vamos ao capítulo final dessa novela: a defesa. Terminei o texto no final de setembro, mas a banca só foi marcada para o dia 28 de novembro, por um motivo: o professor, crítico e tradutor Paulo Bezerra foi convidado a participar - aproveitando a sua vinda para um Seminário do meu departamento, dias 29 e 30.

Ok, passei o mês de outubro na flauta, livre, leve e solta, feliz e contente, de férias. Entrou novembro e eu ganhei de presente do meu trabalho a missão de representar o Ministério em Porto Alegre (!!!), terra do Verissimo.

Voltei a uma semana da defesa. E então caí na real: Eu seria a primeira orientanda do meu professor a defender! Paulo Bezerra estava lendo meu trabalho! O cara que traduziu Dostoiévski, o cara que traduziu e interpretou o pensamento bakhtiniano, o cara que eu citei e parafraseei pra falar de Incidente em Antares!

Daí surtei. Imunidade caiu, fiquei resfriada, perdi a voz, fiquei numa tpm eterna de ansiedade e medo: medo mesmo, de não conseguir falar na hora - travar - de "apanhar" muito na banca, de ter errado muito, de não saber responder... medo, medo, medo. 

Por quê? Porque o nível de exposição era muito alto... num trabalho desses estão horas da sua vida, todo o seu melhor, todo o seu potencial, tudo o que você podia oferecer... ali, sujeito à livre avaliação de outras pessoas, a mercê da boa vontade de outras pessoas - pessoas que têm mais autoridade, conhecimento e experiência que você.

E, pessoalmente, quem me conhece sabe que a minha exposição excessiva é fake. Eu evito ao máximo me expor em situações que realmente me atingem. Então, sinceramente, eu não ligo pro que possam pensar do meu jeito, dos meus gostos, das minhas escolhas, da minha aparência - nada disso me atinge negativamente. 
Mas o meu texto é o meu ponto fraco. É o meu orgulho, é a minha vaidade, é onde eu apresento o melhor de mim. E pensar que esse melhor de mim pode ser considerado não tão bom me deixa insegura, ansiosa, faz com que eu me sinta frágil, vulnerável, exposta: me faz ser de novo aquela menina tímida de onze anos que eu era na escola.

Mas ok, não tinha pra onde correr: me arrisquei. E eis que o fatídico e chuvoso 28 de novembro,  aniversário de 37 anos da morte de Verissimo, chegou. Reunida a banca, por pouco mais de meia hora eu falei sobre o meu trabalho, nervosa, engasgando um pouco, mas sem travar. E terminei esperando o pior. Mas veio o melhor: O prof Paulo Bezerra elogiou meu trabalho, logo de saída! Me comparou a Graciliano Ramos, definiu dois parágrafos como brilhantes, elogiou a escrita, a leitura, a análise. Naquele momento coloquei minhas mãos no título de mestre! 

As "batidas" que vieram depois, eu nem senti. Respondi às críticas como pude, e esperei pela fala do prof. Vianney, o segundo membro da banca, que também elogiou meu trabalho antes de tudo: a fluência, a pertinência, a boa escrita - para depois fazer as críticas e observações - sempre de forma gentil e profissional, assim como o prof. Paulo.

A banca deliberou o resultado: APROVADA - com a sugestão de transformar o trabalho em ensaio a ser publicado ou em livro! APROVADA, uma palavra que me libertou de uma tensão acumulada por dois anos! Acabou! Passei! Sou mestre (ou mestra, mas eu não tenho preconceito contra o comum de dois gêneros)! Um dos maiores críticos literários desse país leu - leu de verdade! - e gostou do meu trabalho! Tudo, tudo, tudo valeu a pena!

Então, eu tenho mais é que comemorar, né? Foi difícil, deu trabalho, me comprometi de verdade - e ainda tive que rebolar pra não parar o convívio social, as viagens, enfim, a vida "normal"  por causa disso.

Agradeço a todos que torceram, vibraram, se orgulharam - os agradecimentos oficiais que foram pra dissertação estão aqui. Agradeço aos coleguinhas mestrandos - eu sou vocês amanhã! - e ao meu orientador - agora meu amigo! Agradeço à TL do tuíter e do facebook que presenciou involuntariamente meus surtos a cada prazo, a cada madrugada, a cada véspera.

Agradeço de novo também - e nunca vai ser o suficiente - à minha família, aos meus pais, meus grandes amores, queridos, parceiros, lindos! É tudo pra vocês!

Enfim, chega de racionalizar! Tou feliz, e só quero deixar essa felicidade fluir enquanto ela durar! Só tenho a agradecer! Agradecer, agradecer e agradecer! Obrigada! Essa conquista não valeria nada pra mim se eu não tivesse pessoas tão especiais com quem dividi-la!

Pra quem tiver interesse, assim que eu terminar os trâmites burocráticos pro depósito da dissertação no departamento, converto em pdf e coloco em alguma biblioteca digital. Até lá, fica a dica: leiam O prisioneiro do Erico Verissimo, é curtinho. A minha análise desse romance foi a parte mais elogiada do trabalho :)

E agora, qual será a próxima saga? Eu, concurseira? Eu, doutoranda? Eu, atriz, modelo e apresentadora de TV? Aguardemos!

Read more...

Consciência de quê?

>> terça-feira, 20 de novembro de 2012

Consciência de que ser negro - e negro de classe média - é não ser o padrão, é não ser o normal, é ser marcadamente diferente - e ainda inesperado!

Consciência de que "ser" negro - quando não "se precisa" sê-lo é um desafio, é uma escolha, uma posição política.
Consciência de que a ascensão social individual quando se é negro é uma traição ética e étnica. 
Consciência de que sim, é chato, é cansativo, é desgastante voltar sempre nesse assunto - mas é preciso! Porque silenciar sobre o racismo, sobre o preconceito e sobre a violência moral e física de que jovens, crianças, mulheres e homens negros são vítimas no nosso país todos os dias é ser conivente - silenciar é fortalecer os grilhões sociais, culturais e econômicos que oprimem nossos semelhantes. 

Silenciar é uma escolha covarde e egoísta. Silenciar é escolher calar uma consciência. Essa tal "consciência negra" que me permite falar do "meu povo" sem nunca ter sido escravizada, sem ter sido agredida pela polícia, sem ter sido rejeitada numa entrevista de emprego, sem ter sido confundida com uma empregada de loja ou como copeira no meu trabalho (opa, esses dois últimos eu já fui!).

Esse texto é pra vocês, amigos negros, que fizeram uma universidade pública, que têm um bom emprego, que moram em vizinhanças caras - que podem escolher passar despercebidos, serem "normais", serem "padrão".

Não o sejam. Não se tornem invisíveis. Há mais do que a estabilidade e o conforto de vocês em jogo. 
Há uma elite majoritairmanete branca que precisa nos ver aqui em cima - e enxergar a nossa cor, a nossa história, e ouvir o nosso barulho - e desistir de nos pasteurizar. 
Há uma juventude negra e pobre que precisa ouvir de nós "Eu te ajudo". E não um "Se eu consegui, você também consegue". Nós conseguimos porque tivemos famílias estruturadas, porque em algum momento da nossa juventude alguém conseguiu nos convencer de que estudar era a melhor escolha.
Por quantos jovens negros você já fez o mesmo? 
Precisamos parar de querer subir, sozinhos, cada vez mais alto nessa pirâmide capitalista, e começar a pensar coletivamente, para depois agir coletivamente.


Só coletivamente seremos respeitados, só coletivamente teremos voz e dignidade, só coletivamente poderemos fazer com que um dia o racismo deixe de ser discutido como problema social - e passe a ser apenas um dado histórico: precisamos falar sobre o racismo hoje para que ele não exista amanhã. 

Read more...

#RLL - Do desassossego que é viver

>> terça-feira, 16 de outubro de 2012

Depois que terminei a dissertação, e enquanto ainda não a defendo, estou num hiato da vida. 
Me atormenta aquela pergunta: e agora? o que fazer? em pouco mais de um mês provavelmente serei mestre. E depois? Quero descansar - mas descansar como? Com o ócio vem a vontade de pensar, e com os pensamentos vem um cansaço da vida, uma preguiça do futuro, de ter que começar tudo de novo, fazer novas escolhas, novas renúncias, mais do mesmo... o mesmo que é nada...

Resolvi ler. (Ler e viajar são sempre a solução - mas fazer compras também ajuda!) Fernando Pessoa foi o escolhido - se é pra ficar deprimida, vamos ficar com estilo. 

Estou lendo o Livro do Desassossego, do heterônimo Bernardo Soares. O Livro é composto por uma série de fragmentos em prosa, escritos por esse guardador de livros solitário da imaginação de Pessoa.

Não poderia ter escolhido melhor obra - a cada frase que leio ouço reverberar o meu mais profundo sentimento de tédio e preguiça de viver - nada que flerte com o suicídio, é algo mais próximo de uma atitude bem marcada diante da vida: a de não vivê-la. Não vivê-la por não ver sentido em despender tanto esforço em algo tão passageiro e fútil - não vivê-la para passar os dias se ocupando do que é verdadeiramente real: nosso mundo interior de sonhos e sensações. 

Esse Pessoa fala diretamente pra Bruna de 13 anos que ainda mora aqui dentro - a que compartilhava a vida com um diário, e ninguém mais. Ler esse Pessoa metafísico é uma provocação: hoje eu estou longe de abdicar da vida, pelo contrário, quero vivê-la em plenitude,  com força e paixão, com o coração irracional e inconsciente: "O coração, se pudesse pensar, pararia. A inconsciência é o princípio da vida."
Se é assim, então porque me deixo cair nesses momentos de apatia e fuga pro eu que há dentro de mim?

Esse Pessoa me obriga a repudiá-lo, respondê-lo, contradizê-lo, mesmo que por alguns momentos eu desejasse somente que tivesse sido eu a que escreveu essas palavras de repúdio a qualquer forma de ação. 

Mas o fantástico da literatura é essa provocação - essa intimação a um posicionamento de cada leitor. Em muitas linhas quero me deixar levar pela vertigem desse sentimento do negar toda e qualquer verdade possível na existência. Como não se deixar seduzir pelas palavras do poeta?

O sonhador não é superior ao homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação.
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.



Leio até o fim para me lembrar de que não, eu não sou dessas. Não mais. Escolhi me comprometer com a vida e com as pessoas a meu redor. E se isso quer dizer que eu vou ter, sim, que superar o tédio e a preguiça, e fazer planos, e tomar decisões, e fazer compromissos, e passar por aborrecimentos mil, que assim seja. Mas não agora. Para agir e realizar, preciso antes sonhar. E é isso que esse desassossegado e desassossegante livro tem me ensinado. A sonhar.

MANEIRA DE BEM SONHAR

- Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar de fazer também amanhã! Nem mesmo é necessário que se faça qualquer coisa, amanhã ou hoje.
- Nunca penses no que vais fazer. Não o faça.
- Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela. Na verdade e no erro, no gozo e no mal-estar, sê o teu próprio ser. Só poderás fazer isso sonhando, porque a tua vida real, a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros. Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição. Em todos os teus actos da vida real, desde o de nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não viver: és vivido apenas.
Torna-te, para os outros uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater com a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio. 
E se alguém te disser que isto é falto e absurdo não o acredites. Mas não acredites também no que eu te digo, porque se não deve acreditar em nada.
- Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.

E então compreendo o porquê dessa apatia repentina. Não há razão para desespero: ela é passageira e necessária. Vou, então, escolher uma janela qualquer para olhar a imensidão do mundo - que ao mesmo tempo é tão insignificante; e aproveitar meu momento Bernardo Soares. E se ele não passar, alguém por favor me dê uns tapas e me mande fazer algum trabalho braçal pra esquecer da metafísica. 

Read more...

Eu, mestranda #4

>> quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Acabou! Acabou! Acabooou!

- Como assim, Bruna, já podemos te chamar de Mestre Laranjinha?

Não, ainda não, ainda não defendi a dissertação na banca pra ganhar oficialmente o grau. Mas, fiz o mais difícil: encontrei o ponto final do meu texto!

(Confira os outros posts da saga "eu, mestranda": partes um, dois e três.)

No último post, nos idos do mês de março, estava eu choramingando sobre a pressão de ter que escrever - só isso. Seis longos meses depois, aqui estou eu, livre leve e solta, feliz da vida de ter achado o bendito ponto final! 

De março pra cá eu passei por todos os bloqueios criativos possíveis. A ideia inicial seria terminar de escrever em maio ou junho, mas eu não consegui. Planejei pra mim mesma um mês de férias quando tudo passasse - um mês longe de tudo e de todos, completamente away! Foi daí que surgiu a ideia do mochilão que eu fiz mês passado. 

Combinei isso com meu orientador: tiraria o mês de agosto inteiro de férias. Então, o meu prazo pra terminar o texto ficou sendo dia 31 de julho. Antes disso terminei, enviei pra ele - e fui embora, fui viajar, com a consciência tranquila e pronta pra esquecer de todas as minhas obrigações por aqui. 

Quando voltei, meu orientador já havia lido tudo, e me devolveu o texto com algumas poucas modificações que eu deveria fazer: as últimas, pelo menos em questão de conteúdo. Nesse último fim de semana trabalhei nelas, tive minha última madrugada dissertativa, depois minha última reunião com orientador, e ontem, num fatídico onze de setembro, eu entreguei minha dissertação, impressa e pronta pra ir pra banca.

E agora?

Agora eu devo providenciar alguns trâmites burocráticos: pedir autorização pro departamento pra montar minha banca, convidar oficialmente os professores, e marcar a data da defesa, que deve ser daqui a pouco mais de dois meses, durante um evento do meu departamento sobre o "meu" teórico, Bakhtin.

Morte e Liberdade na obra de Erico Verissimo:
O prisioneiro e Incidente em Antares
em perspectiva bakhtiniana
E por que que eu já tou comemorando se eu ainda nem defendi? Porque eu não tou comemorando o título de mestre, que ainda não veio - e pode nem vir, vai que a dissertação não é aprovada? Tou comemorando o fim das noites em claro, de ir dormir de madrugada e acordar cedo no outro dia pra trabalhar, de ter que dizer pros amigos "não, não posso sair, tenho que escrever nessa noite, tenho reunião com o orientador, tenho livro pra fichar"! 
Tou comemorando o fim da angústia de pensar "será que eu vou conseguir achar meu ponto final? será que vai ficar bom? será que eu vou conseguir concluir minha ideia?" 
Tou comemorando o fim de um trabalho que deu muito trabalho, mas que ficou bom! Do qual eu me orgulho! (e espero que a banca concorde com isso, rs). Que gerou em mim muita ansiedade, mas que eu fiz com prazer - afinal, é de literatura que eu gosto!

Enfim, tou comemorando minha liberdaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaade! - mesmo que ela dure pouco, porque logo, logo eu vou acabar achando outro compromisso, como estudar prum concurso, aprender uma língua, estudar pra seleção do doutor... ér, não, isso não!

Por isso quero aproveitar bem esse momento de leveza, satisfação e alegria! Porque ele é muito gostoso e não dura muito! 

Desde já fica todo mundo convidado pra defesa, que ainda não tem data, depende da data do Seminário de Literatura e Cultura do TEL.

Essa seria a hora em que eu agradeceria pessoas, mas já fiz isso na própria dissertação.
Seguem eles, os agradecimentos, logo depois da dedicatória (e não poderia ser diferente!) aos meus pais:

Para Célia e Jair,
com amor e gratidão.

AGRADECIMENTOS

Esta dissertação é a conclusão de um percurso crítico-literário iniciado ainda na minha graduação, na disciplina de Literatura Brasileira Contemporânea, então ministrada pelo Prof. Dr. Augusto Rodrigues. Não agradecer nominalmente a cada consciência em parte responsável pelo resultado desses dois anos de muito trabalho seria silenciar monologicamente as vozes que reverberam a cada linha desta dissertação. Assim, agradeço:
A Célia, minha mãe e maior entusiasta, pela dedicação amorosa que nunca me faltou, pela torcida que jamais duvidou do meu sucesso, pela companhia nas minhas noites insones.
A Jair, meu pai e primeiro professor, pelo conselho amoroso de pai e criterioso de mestre em literatura, pela leitura atenta e valiosas sugestões ao meu trabalho.
A Marília e Vinícius, meus irmãos, pela infância compartilhada, pela admiração e respeito ao meu trabalho.
Aos amigos de infância, especialmente Gabriela e Diego, pela presença de sempre.
Às amigas e aos veteranos do curso de Letras, especialmente Ana Clara, Juliana, Hayane, Laís, Marcos Vinícius, Newton e Amanda, pelo companheirismo durante a graduação, e pela amizade que dura depois dela.
Aos amigos da Salsa-UnB, especialmente Rayanne, Jhonathan, Priscilla, Danilo, Leonardo, Thayana e Ana Maria, pela descontração física e espiritual que há anos me ajuda a manter o equilíbrio emocional nos momentos de maior tensão.
Aos amigos da igreja, especialmente Susane, Thiago, Jamara e João, pela torcida e preces àquele que é a Consciência de todas as consciências.
Aos colegas de trabalho do Ministério da Saúde, especialmente Paula Kareny, Antônio, Conceição, Fabiana, Viviane, Tatiana e Natália, por compreenderem e apoiarem as demandas de tempo e dedicação dos meus estudos desde a seleção do mestrado.
Aos professores do Curso de Letras-UnB, especialmente Gilson Sobral, Ana Laura Correa, e Raquel do Valle Dettoni, pelas lições de compromisso com o ensino, com a linguagem e com a literatura.
Aos colegas e amigos da Pós-Graduação, do grupo de pesquisa Literatura e Cultura e do Grupo Literatura e Inacabamento, especialmente Stephanie, Ariadne, Pedro, Lara, Luisa, e Ana Clara, pelas enriquecedoras discussões sobre o pensamento bakhtiniano e pelas conversas sobre este trabalho.
Ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação do TEL, especialmente os professores Sara Almarza, João Vianney e Elga Laborde, pelas orientações na feitura dos artigos das disciplinas que facilitaram a escrita da dissertação.
Ao mestre Augusto Rodrigues, por me apresentar Erico Verissimo, Bakhtin e os diálogos dos mortos. Pela partilha generosa de suas leituras, por ser meu primeiro leitor dedicado, pelo companheirismo e pela franca amizade que construímos ao longo desses quatro anos de convivência e parceria.
Aos membros da banca examinadora, pela disponibilidade em ler meu trabalho e pela atenção dispensada a esse exercício dialógico em que nossas leituras se cruzaram.
Aos mortos tagarelas que me acompanharam nesses quase quatro anos, e hão de sempre me acompanhar: Erico Verissimo, Mikhail Bakhtin e Machado de Assis, por me apresentarem o mundo no qual viveram e agiram, por seus discursos que modificaram e ampliaram meu modo pessoal de conceber a realidade e a literatura, enfim, por estarem, para mim e para os que pensam literariamente, vivos, irremediavelmente vivos.




Read more...

  © Blogger template Simple n' Sweet by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP