Revolução

>> sábado, 20 de abril de 2013

Acho engraçado esses defensores incondicionais da gramática normativa da língua portuguesa. Eles tratam a língua como se ela fosse a Verdade absoluta, um núcleo brilhante de pureza ao qual o homem comum nunca terá acesso, do qual ele só pode enxergar uma sombra difusa entre maneirismos, anglicismos e topicalizações.

Ignoram eles que essa língua, de pura, não tem nada: se corrompeu foi cedo! Enquanto mantinha a pose sisuda ao lado dos mais poderosos, confraternizava alegremente com quem a quisesse usar. 

Sonho com o dia do primeiro pronunciamento do Ministro de Educação e Cultura da Revolução que deporá magnatas das petroleiras, latifundiários, toda a espécie de gente que lucra com a exploração do poder do medo e da alienação social, e de seus respectivos porta-vozes políticos.

"Aí, perdeu, playbozada, quem manda agora é nóis! No novo regime, tá abolida a segunda pessoa do plural., e "tu" sempre vai conjugar na forma do que antes era a terceira pessoa do singular. Ficam declaradas como marginais essas tais MPB e Bossa Nova, e o RAP é o nosso novo estilo musical pra exportação. Neguim que for pego usando mesóclise e ênclise vai ser hostilizado socialmente: tá mais que permitido corrigir o coleguinha que usar um "amo-te" despudoradamente!
Aba reta e calça larga é o último grito da moda
entre a nova elite paulistana.
A partir de agora, tanto faz escrever com certeza ou concerteza (mas lembrando ainda que o m vem só antes de P e B, isso aqui não é anarquia!). O mesmo vale pra em cima ou encima."

Novos dicionários e novas gramáticas seriam imediatamente impressos, os primeiros contendo os (agora) reais significados de "cana", "bagulho", "fita" e "rolo" e acrescentando neologismos como "mocó" e "treta".

As escolas abririam turmas especiais (afinal, o regime saberia que toda fase de adaptação é complicada) pras senhoras que apresentassem uma extrema dificuldade em falar "pra" em vez de "para", "tisoura" em vez de "tesoura" e em construir sentenças (agora) gramaticalmente corretas como "Os filhos eles dão muito trabalho" ou "É um absurdo nós ter que lavar os própio vaso".


E, enquanto se esforçassem pra se adequar ao novo sistema, ainda que contassem com uma grande desvantagem em relação à grande parte da população que já saberia essas regrinhas de cor, os caras (porque não se usa "senhor" no novo regime!) que achavam antes que a língua era uma dama distinta e fiel, talvez conseguissem entender que, afinal, ela fecha com quem tem mais poder.

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Coletivo 201

>> quinta-feira, 18 de abril de 2013

Todo dia ela pegava o mesmo ônibus pra percorrer o trajeto de 30 quilômetros entre o trabalho e a sua casa.

Fazia isso há tanto tempo que a pequena população do ônibus já lhe era familiar. Ao entrar, cumprimentava o.motorista e o cobrador, os mesmos naquele horário desde que ela conseguia se lembrar. Eram mais que colegas de trabalho, pareciam ser amigos unidos até na hora de flertar com das meninas - coisa que as alianças de prata na mão direita do primeiro e dourada na mão esquerda do segundo não pareciam atrapalhar. 

Ao cair da noite, presa em intermináveis engarrafamentos - essas obras que não terminam nunca! - quando a vista começava a doer, obrigando-a a desistir da leitura, ela gostava de se distrair inventando as histórias daquelas pessoas com quem dividia essas duas horas diárias. Suas leituras eram sempre amenas - algum best-seller do momento, histórias românticas de meninas como ela, só que ricas, mágicas ou poderosas. Alguns passageiros mais aplicados carregavam sobre o colo pesadas apostilas de concurso. Sempre reparava numa jovem, da mesma idade que ela, que só lia clássicos no ônibus: Goethe, Shakespeare, Dostoiévski. Se perguntava se ela era uma dessas pessoas que têm vergonha de ler determinado tipo de livro, e por isso os disfarça com uma capa "séria".

Havia as estagiárias, ainda com o crachá dos seus órgãos e e o material escolar da escola ou faculdade. Os senhores de meia idade barrigudos e carecas se pareciam todos, e, não raro, estes lançavam seus olhares libidinosos e nostálgicos às estagiárias. Seu olhar sempre se enternecia ao olhar pras senhorinhas que lhe lembravam uma avó bondosa e sábia, como a Dona Benta do Sítio, e contrastavam com a irritação causada pelas senhoras que reclamavam aos berros e indignadas que os homens (que absurdo, cada marmanjo!) não lhes cediam lugar sentadas -  ao que um porta-voz masculino respondia "Não queriam direitos iguais? Pois bem, senta quem chega primeiro." 

A código de ética do coletivo diz que quem teve a sorte de ir sentado deve se oferecer pra carregar as bolsas e mochilas dos menos afortunados (ou mais atrasados) que vão em pé. Ela se oferece pra carregar a bolsa grande, cor de mostarda dessa senhora. Ao que ela responde "não, querida, obrigada". Não é que a bolsa não lhe pese: a senhora tem medo de ser roubada - não seria a primeira vez.

Num desses dias de chuva em que ninguém abre janela por medo de se molhar, e todos respiram o mesmo ar por muitos minutos, uma menina, de uns dezessete anos, que ia em pé depois de ceder seu  lugar a uma grávida de uns oito meses, desmaiou. "É jejum", disse alguém, "foi falta de ar", opinou outro. Uma senhorinha com rugas de vivida sentenciou "é menino", e os palpites pararam por aí. 

Quando estava triste, ela gostava de encostar a cabeça na janela do ônibus e pensar sobre a forma rude com que a vida lhe tratara até ali. Sempre que estava perto de um pensamento mais elucidativo, fruto de uma reflexão profunda, sucumbia ao sono despertado pelo vai-e-vem do coletivo e perdia assim sua epifania. Mais de uma vez dormiu a ponto de perder sua parada, e ter que voltar o caminho a pé. 

Às vezes, quando o motorista cometia alguma imprudência no trânsito, ou o ônibus quebrava no meio do caminho, ou ainda quando, na estação chuvosa do ano, ela chegava em casa molhada como quem estivesse a descoberto, ela pensava em culpar o sistema, acompanhar de perto as licitações, registrar sua reclamação na ouvidoria do governo.

"Nada disso", concluía. "O jeito é ganhar mais dinheiro, comprar meu carro e sair logo daqui." 

E assim se livraria do barulho, do assento duro, dos homens grosseiros, dos cobradores mau-humorados, dos atrasos,  da fumaça cinzenta, da chuva, do sol.
Se livraria dessa vidinha mais ou menos, mal-cheirosa, apertada, abafada, desconfortável.
Se livraria do coletivo.

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100 metros rasos

>> quarta-feira, 17 de abril de 2013

O homem mais rápido do mundo não consegue vencer na maratona.

***

"Você é muito precoce", é a frase que ela mais escuta de quem acaba de conhecê-la. "Já formada, já mestre, já concursada, já viajada? Você é muito precoce!"

Esse "precoce" vem com uma pontinha de recalque, mas com uma conotação positiva. Há um "parabéns" implícito nessa exclamação. 

Por muito tempo ela acreditou que merecia esse parabéns implícito, que ser precoce era uma coisa boa.

Ser rápido - impulsivo, decidido, corajoso - é bom quando as transformações também são assim, rápidas. Mas - a vida adulta faz questão de lembrar-lhe todos os dias - viver essa vida comum do cidadão médio é uma prova de resistência. Resistência à mediocridade alheia - e à própria -, resistência às mais diversas expectativas frustradas, resistência a situações e pessoas desinteressantes e desinteressadas. E resistência a tudo isso sem a garantia de ser o primeiro a chegar (aonde?) no final, sem a garantia, ao menos, de que se chegará a esse final.

Acho que essa capacidade de resistir vem quando se demora mais - o tempo certo, talvez? - pra se vencer cada etapa da vida. Ser precoce implica uma falta de inteligência emocional que agora me faz falta. Sinto vergonha de admitir que, hoje, bem mais velha, ainda sofro com as palavras "obrigação", "autoridade" e "disciplina" (e com tudo que elas representam) do mesmo jeito que sofria aos 15 anos.

(e aqui "ela" e "eu" nos misturamos: a Bruna que narra, que é discurso e memória, e a Bruna que vive, é ação e sensação - somos duas que se observam e passam longas horas discutindo que rumos tomar a partir de agora. A Bruna que age não vinga no mundo adulto onde as coisas só existem "a longo prazo", a Bruna que pensa não realiza seus planos tão bem arquitetados)

Ela agora se vê agindo como uma daquelas pessoas que sempre detestou: que só reclama da vida, pra quem nada está bom, pra quem nada é suficiente, culpando o mundo pela sua total inabilidade de agir com planejamento e modéstia. A ambição de ser grande, verdadeiramente grande - e a consciência de não o ser - amarguram o seu riso, a cada dia mais irônico e sarcástico.

Se ela fosse um personagem, eu faria dela um romance. Se ela fosse outra pessoa, eu faria um discurso cheio de clichês de autoajuda. Tudo talvez se resolvesse se ela fosse outra pessoa que não eu - só eu, na minha esquizofrenia discursiva, na minha megalomania egoísta, na minha covardia impotente.

Olho ao redor e vejo pessoas que sentiram tudo o que sinto, mas não sofrem mais. A diferença entre nós? Maturidade. Experiência nesse tipo de crise existencial, talvez. Desapego. Ou então alguma coisa muito, muito preciosa que faça calar a voz interior que sussurra "você não está feliz".

Habituada a sair vencedora de suas provas de 100 metros rasos, na maratona ela percebe pela primeira vez o mundo que há em volta do caminho - os apoiadores, a vista da cidade, as pessoas que torcem, os que lideram à sua frente e o pelotão que a cerca.
Essa percepção é inteiramente nova, e de alguma forma lhe dá forças para, ainda que lhes doam os pés, ainda que lhe queime o sol, ainda que ela não esteja na frente, continuar. Cada passo é um ato de fé no que há depois da linha de chegada.

Entre a megalomania (meu problema é o maior do mundo!) e a insignificância (sou só mais uma pessoa insatisfeita num mundo de pessoas insatisfeitas), penso que precoce mesmo é essa capacidade de me enxergar, me questionar e desvendar os truques que eu uso pra enganar a mim mesma. É essa consciência de quem eu sou - e de quem não sou - que não me deixa fugir do desassossego que essas linhas encerram. E é pra aguçar essa consciência que me experimento a mim mesma nessas linhas.

E assim, por hoje, valeu a pena correr.

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100º Like!

>> terça-feira, 19 de março de 2013

Coloquei no twitter que o 100º like na página dO Sumo da Laranjinha no Facebook ganharia um texto meu sobre qualquer coisa! (eu sei, não é lá um grande prêmio, preciso trabalhar as estratégias de marketing!)


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“89” likes!" Vibrou Yasmin ao abrir seu instagram.
“Amanhã chego no centésimo”, pensou.
O sucesso nas redes sociais se devia a um estranho fenômeno. Há cinco dias seu gato, Salém, não se movia da frente do espelho novo instalado em seu quarto. No primeiro dia, Yasmin, como fazia diante de toda e qualquer peripécia do bichano, tirou uma foto e publicou na rede social. “Salém passou o dia todo na frente do espelho! Não é uma graça?”
Trinta e cinco amigos manifestaram seu “sim, é uma graça” com like. Fotos do seu salém sempre rendiam a yasmin uma popularidade virtual que ela estava longe de alcançar na vida off line.
No segundo dia, o fenômeno se repetiu. Salém olhava intrigado para o espelho. Seu semblante era aquele característico dos felinos estrategistas. A leoa na savana, a onça no pantanal, o puma na montanha, Salém em frente ao espelho: todos têm em comum o olhar de quem planeja o próximo movimento na guerra pela sobrevivência.
Mais uma foto, dessa vez Yasmin foi contemplada com quarenta e sete likes. Seu recorde até então! Mas Yasmin era ambiciosa: longe de estar preocupada com o comportamento do gatinho, esperava ansiosa pelo dia em que o capricho do seu bicho de estimação lhe renderia a fantástica marca de cem likes na internet.
Assim, quando, ao fim do quarto dia, se viu mais perto do que nunca dessa marca, Yasmin olhou uma última ver para seu Salem e pensou “eu sabia que ter você em casa ia mudar a minha vida”. Foi dormir feliz.

Naquele quarto dia, salém, que na verdade se chamava Kael, depois de muito maquinar seu plano, decidiu que o ataque seria iminente. Era ele ou o outro. Os dois até então hesitaram... se examinaram, por quatro dias não cederam a nenhuma necessidade, nem às mais básicas: o território e o amor de uma humana estavam em jogo. Kael sabia que o outro também não iria a nenhum lugar. Atacar era a única solução.
Mas Kael ainda tinha esperanças de realizar um ataque surpresa... aquele modo direto não fazia seu estilo! Esperou com máxima atenção por um momento de distração de seu inimigo, por ínfimo que fosse... Mas esse momento não veio! O outro era como ele: sempre atento! Um porte altivo, um olhar de desdém e desafio... ele não iria ceder. Não havia alternativa. Se, após a noite de vigília, seu oponente não baixasse a guarda, ele atacaria ao primeiro raio de sol.
Yasmin acordou no dia seguinte sobressaltada por um barulho de vidro quebrado e um gemido de dor grutural. “Não!”, pensou, enquanto corria em direção ao espelho, de onde viera o barulho.

Entre os olhos de Salém corria um filete vermelho. No chão jaziam pontiagudos cacos de espelho. Essa foto Yasmin não colocou na internet.


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ATENÇÃO: nenhum animal foi ferido na produção desse texto. As opiniões expressas pelo autor-criador da narrativa não correspondem às convicções da autora. É tudo uma brincadeira, senhores. Curtam a página: www.facebook.com/osumodalaranja

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P.s.: O centésimo like foi da Yasmin
A "encomenda" dela foi a seguinte:
"Faz ela fazer um conto sobre um gato que viu o reflexo dele e ficou uma semana bolando uma guerra consigo mesmo e depois bateu a cara no espelho quando percebeu que na vdd era reflexo e isso é o cliffhanger então ngm sabe né que ele tá em guerra com ele mesmo"
Eu digo *qualquer coisa* e a pessoa leva a sério, rs. Prometo que pensarei numa promoção melhor para o 200º like :)

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Dança das Cadeiras - por Marília Ferreira


Segunda-feira, meio dia, finalmente o horário de almoço! É incrível como as manhãs de segunda parecem nunca passar... Aliviada por estar saindo do trabalho, decido ir ao shopping almoçar.

Ao terminar de subir a escada rolante que dá acesso à praça de alimentação me arrependi amargamente de minha decisão. Como pude me esquecer disso? Praça de alimentação de shopping na hora do almoço é a porta do inferno! Uma cadeira para cada dez pessoas, pior que concorrência de concurso público!

Mas o erro já havia sido cometido. A fome já estava apertando, e, após o que me pareceu ser uma eternidade na fila para fazer o pedido, entrei na dança segurando minha bandeja. Como eu temia: nenhum lugar vago. Então comecei minha busca por uma mesa que parecesse estar prestes a ser desocupada.

A primeira mesa que olhei estava ocupada uma mulher e quem julguei serem seus três filhos pequenos. A mãe parecia estar em mais apuros que eu: a menina mais nova chorava inconsolavelmente e os dois meninos brigavam pelas batatinhas que sobravam. Definitivamente, aquela não seria minha mesa. Mais adiante, avistei uma mesa com cinco adolescentes que aparentemente já haviam terminado sua refeição, mas continuavam ali tirando fotos e brincado de “eu nunca” com refrigerante. Pelo jeito, não sairiam de lá tão cedo...

Em outra mesa havia um casal. A garota já tinha terminado seu prato e olhava encantada para seu amado, que, ocasionalmente parava de mastigar pra lhe mandar beijos. Ele também já estava terminando e checou as horas em seu relógio. Eu já estava me preparando para pegar a mesa bem na hora em que uma mulher vestindo um farto decote passou ali ao lado. Por um segundo o olhar do rapaz se desviou para ela, e, pela expressão da namorada, percebi que uma briga tenebrosa estava para começar. Disse adeus para aquela mesa e segui em frente.

Meu próximo alvo foi a mesa de um velhinho que estava desacompanhado, mas desisti desta momentos depois quando uma moça se juntou à ele com sua bandeja na mão. A principio, achei que eram pai e filha, mas o beijo que trocaram em seguida me fez pensar que ele estava melhor que muito garotão por aí!

Cansada e faminta, decidi mudar de estratégia. Encontrei uma mesa ocupada apenas por uma senhora, três cadeiras vagas.

- Desculpe, mas a praça está cheia, posso me sentar aqui?

-Sem problemas. Respondeu.

Finalmente sentada, comecei a comer meu almoço já quase frio. A senhora com que dividi a mesa usava duas alianças no dedo anelar, o que me levou a concluir que era prematuramente viúva. Pouco tempo depois ela deixou a mesa. Não demorou muito e eu a liberei para um trio de amigas que a rondavam feito abutres. Compreensível.

Voltei para o trabalho pensando que talvez se almoçar no shopping não fosse, para muitos, uma atividade coletiva e social eu teria conseguido comer meu almoço ainda quente e tampouco teria que explicar meu atraso ao meu chefe. Afinal, quem come sozinho, termina mais rápido.

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Escrever ou não escrever? tudo são questões!

>> sábado, 16 de março de 2013

Comecei a escrever quando tinha uns 12 anos. Os diários eram meus companheiros quando eu não estava na escola. Escrevi sempre sobre mim, para me fazer companhia, para me entender melhor, para criar uma memória. Eram escritos muito mais de reflexão do que relatórios objetivos. 

Fiz Letras, depois Literatura, sempre escrevendo. Quando não falo de mim, faço análise do que quer que seja, e escrevo textos de opinião. Estendi os textos do diário pro blog (não substitui, ainda escrevo diário!), e de tempos em tempos exponho um pedacinho de mim aqui pra vocês.

Penso no que falta pra que eu saia daqui e ganhe o mundo. Penso no que alguém precisa fazer para ser um bom escritor nesse caótico início de século vinte e um.

Há tempos eu não leio nenhum autor que ainda esteja vivo. 

É possível ainda escrever romances?

Sempre se diz que o bom escritor escreve sobre aquilo que vive, sobre aquilo que sente. O bom escritor representa sua realidade e a realidade do seu tempo. 

Minhas realidades são tantas que eu não saberia por onde começar. 

Até aqui, tive uma vida normal e sem muitos traumas. Todo o sofrimento da minha vida se resume a um bullying na infância e um histórico de vida amorosa meio desastroso, rs. Nada que se compare a uma esposa tuberculosa, a uma adolescência no campo de concentração, a um casamento não aceito pela sociedade, a ser do partido comunista quando ele era ilegal, enfim, a esses grandes sofrimentos e tribulações que estão na biografia dos nossos melhores escritores. 

Por outro lado, vivo num mundo completamente perdido. Vivo numa sociedade telemática que sofre de solidão e depressão coletivas, adoecida por um sistema econômico perverso e desigual. Uma Babel que disfarça sua incapacidade de se comunicar em liberdade de expressão. Temos todos os grandes problemas do passado - mas com muito mais pessoas, muitas novas e eficientes formas de nos matarmos uns aos outros.

Como isso me afeta? Apenas no plano das ideias. Não sou engajada em nada. Ou melhor, sou engajada em tudo. Sou uma cristã-socialista-liberal-feminista-ecochata-carnívora que só quer ter uma casa grande com cerquinha branca, um golden retriever e uma família de propaganda de margarina quando crescer. 

Me perco no relativismo e ser dogmática é cada vez mais difícil. Sou uma cética que tem fé. Tudo isso protegida protegida pelo conforto de poder criar essas imagens apenas com palavras - e não precisar provar nada.

Um bom escritor representa seu tempo, do lugar em que ele pode observá-lo. Meu tempo é superficial. No meu tempo, o aprofundamento do que quer que seja nunca sai do plano do discurso. No meu tempo, as grandes questões da humanidade são discutidas no tempo entre intervalos comerciais por apresentadores egocêntricos e convidados ignorantes.

Que boa literatura pode resultar disso? E se resultar, quem vai ler? Os que já pensam como eu, claro. Lerão, aplaudirão, dirão: é isso aí! Falou e disse! Serão Cinco pseudocults hipsters que (mas eles não perceberam) encarnam todo tipo de arrogância e prepotência intelectual que eu detesto e também critico.

Melhor seria me manter no superficial e agradar aqueles que ficam hipnotizados por qualquer um que verbalize o que eles querem ouvir como si mesmos.

A pessoa que lê autoajuda é como a que vai na cartomante: ela só quer ouvir outro dizer o que ele já sabe sobre si mesmo. É tudo sobre a vaidade de se saber objeto de observação do outro.

Mas é claro que meu espírito intelectual (e o seu círculo social) desenvolvido para separar a boa arte da arte ruim nunca me deixaria em paz, se essa fosse a minha escolha: ser a próxima Marta Medeiros. A próxima Tati Bernardi. O próximo Carpinejar. O próximo Paulo Coelho! 

Não, jamais! Nunca me venderia! (mas eu sou boa nisso, poxa! Sou boa observadora, sei conquistar pelas palavras - eu sei o que as pessoas querem ouvir! E não sou boa na "boa arte!" Nunca serei um gênio da "grande" literatura!)

E ainda tenho meus pudores, meus falsos moralismos, meus tabus. Dar minha opinião sobre o mundo e falar sobre as inquietações da minha alma humana e mesquinha são as coisas que eu faço melhor. Mas são sempre limitadas por uma série muito bem determinada de valores morais bem tradicionais. Faço a moderninha, mas sei muito bem onde guardo meus muitos, feios, medievais preconceitos. 

Elevar a escrita a profissão na minha vida significaria me despojar de tudo isso: expor minhas vísceras, romper com família, sociedade, status: me derramar em discurso e poesia. E ouvir o que as pessoas têm a dizer de volta. Inclusive críticas. Descobrir que eu não sou perfeita! 

Meu tempo não faz isso. Meu tempo supervaloriza a privacidade - e, por isso, vendê-la é um negócio cada vez mais lucrativo!

Eu sou apaixonada pela palavra escrita. Eu quero escrever. Mas não sei como fazer disso profissão. 
A liberdade e a tecnologia do meu tempo me permite (ou me obriga?) a ser escritora, editora, publicitária e vendedora dos meus textos. 
Mas a minha única habilidade é escrever. 
E eu não sei sequer sobre o quê.

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[VENDIDO] - Uma teoria sobre relacionamentos

>> quinta-feira, 14 de março de 2013

Todo mundo já viu aquelas propagandas (irritantes) de MEGA SALDÃO DAS CASAS BAHIA - É ISSO MESMO - SÓ AMANHÃ - MEGA SALDÃO DAS CASAS BAHIA (fundo preto, um texto esmagando o outro, explosões, letra amarela e vermelha etc etc).

No dia seguinte as reportagens dos jornais matinais mostram aquelas filas enormes do povo que madrugou pra conseguir comprar uma tv-lcd-de-plasma-de-sessenta-polegadas por apenas [APENAS!] sei lá, dois mil reais.

Nesse momento, assim que as portas são abertas, não há tempo a perder: é ver o preço do produto, decidir em cinco segundos se quer ou não, e colar seu adesivo de [VENDIDO] naquela televisão dos sonhos que finalmente está num preço acessível pra você. É ela, é sua, saiam todos, não tem pra ninguém, você viu primeiro, agora é só passar no caixa e levar.

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Pois os namoros são bem parecidos com os mega saldões das Casas Bahia!

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Sou aquela amiga chata que deixa os casais constrangidos perguntando "e o casamento, é pra quando?"

A resposta geralmente é um riso sem graça e algo como "calma, a gente é muito novo, calma, ela ainda tem que se formar, calma, ele quer passar num concurso, calma, tem que juntar dinheiro, calma blablabla.
Mâs, não é isso que eu estou perguntando. A minha curiosidade é "Mas é com essa pessoa que você vai casar? Você acredita em relacionamentos monogâmicos e mutuamente exclusivos que durem pela vida inteira? Você colocaria um adesivo de [VENDIDO] nele/a? 

***

-Mas aaah, você está reduzindo os complexos relacionamentos amorosos a uma orgia comercial, como você pode blablabla

 Gente, it's all about money! Nossas relações comerciais e humanas são parecidas por demais. Pode aplicar a lei da oferta e da procura no quanto você se esforça pra chamar atenção de alguém, que vai dar certo. (mas esse é um tema pra outro post)

***

Voltando à minha pergunta: colocar um adesivo de vendido no seu namorado não é atribuir um valor a ele. O que eu pergunto é se existe aquele impulso irracional consumista/amoroso de que você quer, deseja, precisa daquela aquela coisa/pessoa  de qualquer jeito, de qualquer modo, de que ela é sua e ninguém pega, de que você não hesitaria um segundo em levá-la pra casa ali, daquele jeito.

O que vem depois, é claro, é o mais difícil: a racionalização, a burocracia, as chateações da operacionalização do negócio de fato. Mas isso tudo só vale a pena se houver aquele impulso de paixão, aquela fagulha de certeza de que "é ele". "É ela". 

***
Conhecer bem o mundo (ainda) não me fez desacreditar no amor, naquela coisa irracional que faz com que você faça coisas que a lógica não explica. Por isso acho que se você já namora há algum tempo e ainda precisa pensar se colocaria ou não aquele adesivosinho de vendido nela (tou só dando uma olhadinha, qualquer coisa eu volto, tá?), hm... sei não, hein? Acho que você tá acomodado num relacionamento que não vai dar em nada mais sério. (e não for pra ser sério, vamo logo ser solteiro e pegar geral!)

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E aí o casamento é pra quando? Não pense no financiamento da casa, no preço das flores da decoração. Não pense no seu diploma, nem no concurso que ela ainda quer passar... 

É ela, é sua, saiam todos, não tem pra ninguém, você viu primeiro, agora é só passar no caixa e levar.


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"Felicidade não acompanha este produto"

>> quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sabe aquelas propagandas da Barbie e do Max Steel (matel!) que recheiam a programação matutina de todos os canais de tv aberta? Se você reparar bem (você adulto, criança não repara, claro!), no final ou durante o comercial o locutor fala rapidinho (ou aparece em letrinhas miúdas) coisas como "movimentos feitos em computador", "pilhas a baterias não acompanham o produto", "acessórios vendidos separadamente" enfim, algum tipo de aviso que alerta a criança que depois que ela tirar a sua barbie butterfly recém-comprada da caixa, ela não vai sair voando encantada - como faz no comercial.



Acho que passou da hora do Conar baixar uma regrinha parecida pra comerciais para adultos também. Já posso imaginar os avisos: em comerciais de supermercados "felicidade não acompanha as carnes do nosso açougue", nos de sabão em pó "babá pra olhar seu filho enquanto ele se suja não está inclusa no produto", nos de desodorante "não nos responsabilizamos por eventuais mulheres de bom senso que não se joguem em cima de você por causa desse deste produto, nem por mulheres feias que o façam", nas de roupas "os amigos são vendidos separadamente".
Seria um jeito muito mais honesto de vender coisas. As crianças estão mais protegidas dos efeitos nocivos da propaganda do que nós!

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Entrei nesse mundo de consumo quando eu virei adolescente. Antes disso, a criação dos meus pais era: ter um item de cada coisa, e comprar outro quando o primeiro ficar muito (muito!) gasto ou estragar. Então eu e meus irmãos tínhamos, por exemplo, um chinelo de dedo, um tênis pra educação física e um sapatinho mais arrumadinho pra sair (e isso nos anos 90, minha gente! quando todo mundo já tinha todos os modelos possíveis da sandália do seninha!) E assim era com todo o resto. A gente só ganhava um novo quando o velho estragava - e olhe lá, se não desse pra dar uma remendada, rs. E era assim não porque não houvesse dinheiro (ok, também era isso, já que se meus pais comprassem um tênis novo pra um dos filhos, por exemplo, os outros dois tinham que ganhar também), mas por que meu pai separava - e ainda separa até hoje - as coisas entre necessárias e supérfluas. Coisas necessárias, ok, ele comprava. Coisas supérfluas (e pra ele quase tudo era supérfluo), a gente compraria com o nosso próprio dinheiro, ou seja, dali a uns dez anos.

***

Quando finalmente entrei no mundo do consumo (quando as contas passaram pra mão da minha mãe, aeaeae), acreditava que cada coisa nova que eu comprava teria o poder de mudar a minha vida e todas as minhas relações sociais (inexistentes). Uma blusa preta seria meu passaporte para o grupo dos rockeirinhos. Uma melissinha da wanessa camargo com cheirinho de fruta me daria livre entrada no mundo das patricinhas. Uma saia da sabrina me permitira conversar com as periguetes tranquilamente.
Escolha qual dos estilos da Renner você quer comprar
E foi bem isso que aconteceu - só que não, rs. Demorei a entender que, seguindo esse pensamento consumista, eu deveria comprar todo um estilo de vida. Guarda-roupa completo, com seus devidos acessórios. Queria ser hiponga? Ok, não basta comprar um vestido da torre desbotado com Qboa - mas vários! E blusinhas, e saias, e milhares de acessórios com todas as sementes encontráveis no cerrado. Porque tudo tinha que combinar. Tudo tinha que conversar. Porque a sua roupa tinha que indicar, de cara, em qual quadradinho social você estava.
Já no ensino médio e no começo da faculdade, eu juro que eu queria ser nerd. Ser identificada como nerd ou hipster. Mas, céus, vocês sabem quanto custa uma camisa xadrez da Timbaland?  Uma armação de óculos da Rayban? (devo admitir ao menos a vantagem desse estilo, que é poder ter só uma coisa de cada, afinal, por mais que você tenha várias, no fim aquelas blusas quadriculadas parecem sempre a mesma, sorry)
Pior, você sabe quanto custa uma camiseta do Che? (sim, porque no mundo capitalista tudo virou produto, inclusive - e por que seria diferente?- a ideologia socialista)



***

Acho que foi nessa dificuldade/impossibilidade de escolher um estilo de vida pra comprar - e comprar junto os amigos e a cultura que vinham com esse estilo, que surgiu o personagem Laranjinha. Pronto, minhas coisas se ligavam por uma cor, não pelo estilo cultural. Daí eu podia ser hiponga de vez em quando, patricete de vez em quando, piriguete de vez em quando, que no fim das contas e pra todos os efeitos eu era só "a menina que vestia laranja".

***

Depois que eu comecei a trabalhar, a princípio como secretária, me senti socialmente constrangida, e tive que comprar outras roupas, que deveriam ter vindo com avisos como "postura de mulher adulta não acompanha esse terninho". Assim que deixei de ser secretária  me tornei uma pessoa mais feliz, pelo menos no vestuário. Hoje vou trabalhar de all star (atitude jovem não acompanha), calça jeans, camiseta e mochila (detesto bolsas!), não porque eu seja rebelde (uhul!), mas porque é o tipo de roupa que me deixa confortável pra trabalhar por 8 horas e, mais importante que tudo, são as roupas que eu já tenho. Não tenho dinheiro, ou não é uma das minhas prioridades financeiras agora, comprar um novo estilo de vida que se traduza no que eu visto.

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Assim como pra ser expert em literatura não basta você comprar uma biblioteca fantástica (é, tem que ler os livros, colega, instrução não acompanha), usar um determinado desodorante não basta pra você ser sexy, usar o look da moda não basta pra você ser descolado, comprar um sabão em pó certo não basta pros seus filhos serem crianças loirinhas e saudáveis, usar um smartphone não te dá amigos nem uma vida interessante pra compartilhar com eles.

O mais preocupante é que, diferente do argumento dos publicitários, nem todos os adultos têm o discernimento de entender isso sem as letras miudinhas ao fim do comercial. São apenas crianças crescidas que ficam frustradas ao perceberem que suas vidas não foram modificadas em nada pelos produtos que compraram. Ao perceberem que pra brincadeira com o Max Steel ser tão legal quanto na propaganda, elas precisam não de todos os bonecos com todos os acessórios, mas de amiguinhos pra brincar junto. Que pra família ser tão feliz e harmoniosa  quanto no comercial do apartamento, elas precisam ser pessoas melhores e mais atenciosas, e não morar no Alpha Ville 3 com piscina e garagem coberta - felicidade também não acompanha esse empreendimento imobiliário.

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Cine Clube Cult #3

>> terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Há tempos que venho me prometendo escrever um comentário pra cada filme que eu assisto, pelo menos para cada um que me marca de alguma forma... mas, ah, que preguiça!

Vez por outra a disposição vence a batalha e saem alguns textos. Pra conferir clique aqui, aqui e aqui.

Parece que a disposição venceu mais uma vez! Seguem breves comentários sobre os últimos filmes que eu vi - e gostei - no cinema (com spoilers!)

No - Ok, confesso que o que me levou ao cinema para ver esse filme foi essa carinha linda de revolucionário ultra-jovem do Gael. Sério, eu assisto qualquer filme com o Gael. Qualquer um. Até mesmo os bem mais ou menos. Assim, fui lá eu assistir No. O filme conta a história do plebiscito que levou o povo do Chile às urnas para decidir se o general Pinochet continuaria ou não no poder, em 1988 (eu nem tinha nascido). O personagem de Gael é um publicitário de sucesso, convidado para ajudar na campanha do "No" - que não tinha nenhuma esperança de ganhar.


O desafio da campanha era convencer o povo 1) a votar, sem medo de represálias 2) a votar no "não", a priorizar a liberdade de expressão, a democracia e o fim da violência do Estado em relação ao desenvolvimento do país.

A impressão que a câmera do filme passa é a de ser uma daquelas usadas pra fazer filme caseiro, bem América Latina, fim dos anos 80. É estranha a sensação de estar assistindo o que podemos chamar de um "filme de época" (figurino diferente, objetos diferentes, o ultra moderno microondas) e pensar que aquela "época" tão detalhadamente ali caracterizada tem apenas está apenas 25 anos atrás de nós.

Pra quem já não sabe o fim da história (afinal, são fatos históricos, aconteceram ontem, todo mundo devia saber, certo?) o suspense e a tensão são eficientes! Eu confesso que não sabia o final (sabia que o Pinochet tinha deixado o poder eventualmente, não sabia como, rs) e o filme me prendeu do começo ao fim. Todo o processo da campanha "sim" contra "não" me lembrou também a infância no DF e as propagandas eleitorais "Roriz" contra "Candidato do PT", e tudo o que se falou do "Lulinha Paz e Amor" de 2002. 

Pra mim, além das questões históricas, éticas, políticas, "No" é um filme essencialmente sobre propaganda - todos os que consomem publicidade deveriam ver e sair do cinema se perguntando se há algum gosto ou crença deles que não foi moldado por um publicitário.

Chile, la alegría ya viene!








Cara, Argo é um puta filme de suspense! Claro, como o anterior, é suspense pra quem não sabe a história real na qual o filme se baseia. E como no anterior, eu não sabia (me dei conta de que meus conhecimentos de história sobre o período entre o golpe militar em 64 e o atentado às torres gêmeas em 2001 são nulos!).

Gostei bastante, também me deixou presa do início ao fim. É um filme muito bem feito, com um "que" de documentário na câmera. O demolidor Ben Afleck conseguiu deixar claras as relações comerciais e diplomáticas controversas entre os Estados Unidos e o Irã, mas prefere repetir o chiste "ar-gofuck yourself" pra quebrar a tensão das discussões sobre democracia, liberdade, ética, violência e tortura etc. 
Dá a  impressão de que o pensamento foi "ok, colocamos as cenas e os fatos aí, você, telespectador, escolhe sobre o que vai refletir em casa, não nos comprometa!"

O meu único porém em relação a esse filme é a cena depois da sequência super tensa em que os reféns finalmente embarcam no avião e deixam o espaço aéreo iraniano. 
 A cena do alívio é desproporcional a todo o clima do filme. É uma cena longa, barulhenta (com aquela trilha de "DEUS SALVE A AMÉRICA" e contradiz todo o tom dúbio e de autocrítica que estava sendo adotado até ali. Naquela cena nada mais importa: os outros 50 prisioneiros americanos que estão sendo vítima de tortura, a política intervencionista dos estados unidos, nada, nada, nada: apenas importa as seis vidas americanas que acabaram de ser salvas, graças ao super agente da CIA, e à boa ação do presidente Carter que liberou as passagens. Ah, vá.

À parte disso é um ótimo filme e, bem, é americano. Ficou a curiosidade pra saber como os iranianos contam a história.



Ah! Django é simplesmente sensacional! Não sei por onde começar a comentar o filme, todo mundo já comentou o filme. Vamos tentar.
Sim, é um "Tarantino", com sangue, violência e referências a filmes de bang bang que eu não assisti.

Com uma trilha sonora fantástica, o que mais me impressionou no filme foi a elaboração dos personagens e as atuações. Vou comentar meus preferidos, tentando fugir um pouco do muito que já se falou e registrando minhas impressões pessoais:

1) Dr Schutz (Waltz), um alemão caçador de recompensas, assassino profissional e eficiente, que não vê dilema ético na sua profissão - mas cuja sensibilidade é atingida pela brutalidade do tratamento aos escravos no Sul americano. As frases "Eu te dei a liberdade e agora me sinto responsável por você", dele, e "Ele não está acostumado com americanos", do Django, são as que melhor o definem. (incrível pensar que Tarantino coloca um alemão pra ser o humanista da história, depois de escrever e filmar Bastardos Inglórios! - aliás, sobre bastardos inglórios: assistir no cinema um cinema cheio de nazistas pegando fogo foi uma das grandes experiências cinematográficas da minha vida, rs)

2) Monsieour Candie (Leonardo DiCaprio) no papel do afetadinho que não sabe mais o que fazer com o dinheiro que herdou do pai e do avô está sensacional. Mimado, profundamente egoísta, exibicionista e vaidoso, superficial, entediado ao ponto de só se excitar com demonstrações públicas de poder e com as lutas entre os escravos. Uma peça fácil de no joguete de manipulação pelo personagem mais extraordinário do filme,

3) Mr Stephen, interpretado por um Samuel L. Jackson cheio de fúria e paixão. Mr Stephen é o cara que mostra que a teoria frenológica de Monsieur Candie não tem a menor base: pra ser inteligente e filho da puta tanto faz a sua etnia. Stephen aprendeu a manipular seu dono, (muito melhor do que degolá-lo, muito mais útil e mais sutil), e pra manter seu próprio poder jogava com ele, ora submisso, ora puxa-saco, ora conselheiro humilde. A atitude de Stephen não é só um racismo de negro contra negro: é uma atitude de legítima autopreservação: que valor um escravo que aprendeu a manipular os seus donos teria num mundo sem escravidão? O seu status dentro da fazenda dependia da manutenção daquele sistema - é esse o pensamento de todo aquele que não usa seu poder e influência para iniciar uma revolução!



Como eu sempre digo quando comento de cinema aqui: é a opinião impressionista de uma telespectadora diante de uma obra de arte/consumidora de um produto, nada técnico. Eu não entendo de cinema, mas sei um cadim de narrativas, rs.

Fica a dica pra quem ainda não viu os três filmes: ainda estão em cartaz no cinema do Liberty Mall, corre que dá tempo!



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(t)odas as (p)aixões do (m)undo

>> domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sentada em frente ao computador, ela encara a página em branco. (pensa no novo conceito de "página", não mais uma folha de papel). Precisa escrever. Precisa inventar com palavras um mundo diferente do que se impõe pela sua percepção da realidade. Quer mudar o mundo, a percepção, a realidade.


Não consegue encontrar um eixo para o seu texto. Tudo o que pensa são fragmentos. Pensa nos últimos textos que escreveu: uma tentativa de parar de falar de si sobre si pra si. Pensou que na ficção de vidas inventadas - outras vidas, não a dela - poderia se refugiar da sufocante presença de seu eu. Descobriu seu engano, porém. A ficção só é boa quando é essencialmente sobre o eu de quem escreve. A ficção é apenas um disfarce. Fugir do próprio ego na escrita gera best sellers, mas não bons ficcionistas.

Por que ela não pode apenas querer ser uma escritora de best seller?

Não querendo escrever textos não tão bons, nem textos sobre ela mesma, calou-se. Melhor não escrever. Melhor não fazer piruetas semânticas para se analisar, melhor não despejar na rede suas angústias mesquinhas, suas conclusões de hoje diametralmente opostas às de ontem. (ela gosta da ideia expressa pela palavra "diametralmente", e de como ela soa aos ouvidos).

Melhor não.

Nesse momento de suspensão discursiva, sente ser portadora de todas as paixões do mundo. Ama desesperadamente, embora não saiba o quê. Sofre inconsolavelmente, ignorando por quem. Tem em si, como o poeta, todos os desejos do mundo. Mas ela não é poeta. Quer uma solução, não uma rima. 

Não um verso.

A rotina maçante e as grades das convenções sociais impedem-na de entregar-se a essas paixões - todas as paixões do mundo! Impedem-na ou a salvam - bem se conhecem os riscos de se viver apaixonadamente! Mas as paixões sufocadas são o solo fértil do qual nasce uma robusta e bem enraizada apatia. Uma preguiça da vida, das pessoas, do mundo, cujo oxigênio são as contantes decepções e frustrações da rotina maçante.

E assim fecha-se o ciclo.

Somente duas coisas tiram-na do contato com essa asfixiante fumaça de apatia. As viagens e a presença dele. Mas se os momentos em que goza dessas duas coisas são belos e livres, por outro lado, acentuam ainda mais a dor que lhe causa não poder se entregar em definitivo a nenhuma delas. Há sempre que se regressar das partidas, ele sempre há de regressar pros braços da outra.

Todas as paixões do mundo são na verdade duas. Impossíveis.

Ela olha novamente a "página", já não está em branco. Pensa que só, finalmente, conseguiu escrever de novo porque falou de si em terceira pessoa. Se não pode fugir de seu ego no infinito interior de sua consciência, o faz ao menos no plano discursivo. Ao menos isso, seu discurso, consegue forjar a ilusão de não ser ela sendo outra.

Ao menos isso, seu discurso.

Sente todas as paixões do mundo. Sufoca-as, por prudência ou covardia. Por covardia. Encerra-as num simulacro discursivo. No plano da realidade percebida, nada mudará. Continuará, de tempos em tempos, se expondo a situações de leveza, alegria e liberdade, apenas para sentir com maior intensidade as privações de suas impossibilidades.

O que lhe falta é coragem.

Coragem não para tomar uma grande decisão num dia histórico. Mas para fazer pequenas decisõezinhas nos dias comuns. Falta-lhe persistência, perseverança, fibra. Isso, nela, era apenas teimosia, rebeldia, capricho. Mas nem esses últimos arroubos de tenacidade lhe restam: ela está amadurecendo, e o capricho e a teimosia estão ficando para trás, sem nada que lhes substitua a não ser a inconstância.

E amanhã tudo será diferente.

Olha uma última vez o texto. Escreveu mais do que pretendia. Não quer ler de novo o que acabou de escrever: no momento em que o derradeiro ponto final for digitado, nada disso pertencerá mais a ela. Cada texto é um pedacinho a menos de amargura e ansiedade no seu coração. Afinal, é por isso que escreve. Para racionalizar sentimentos e assim deixar de senti-los. Todo o sentimento fica no papel. (papel, que agora também é só um modo de dizer). Aí vem ele, o ponto final derradeiro, ela já o avista. Sua presença é iminente, mas ela ainda não decidiu o que o antecederá. Uma frase de efeito? Um "moral da história" do texto fragmentado que acabou de escrever? Talvez fosse melhor terminar com reticências... Não, só o ponto final tem o poder de calar sentimentos e pensamentos indesejados. É isso, aí está.

Só o ponto final tem o poder de calar sentimentos e pensamentos indesejados.

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direitos humanos x direitos dos manos

>> quinta-feira, 24 de janeiro de 2013












Como todas as manhãs, desde que começou o ano, estava eu há dois dias esperando o ônibus na parada perto da minha casa. O ônibus não passou, e eu peguei o que a gente chama de "carona" - e o detran chama de "transporte irregular de passageiros", com uma moça. No caminho, pegamos mais duas passageiras - mãe e filha, que imediatamente começaram a conversar. A motorista estava  dizendo que só parava na parada quando só tinha mulher, que tinha medo de dar carona pra homem que era perigoso etc, etc. As duas outras passageiras continuaram dizendo que sim, era mesmo, que acontecia cada barbaridade, como a gente vê todo dias nos jornais, como, por exemplo, o caso da empresária que foi sequestrada, estuprada, esfaqueada e queimada viva. Até então eu não tinha ouvido falar do caso, (e só depois vi que havia dias que imagem daquela mulher desparecida cirvulava no meu facebook), então elas contaram todos os detalhes, e como a televisão transmitiu a captura dos suspeitos, e como eles falaram do crime sem nenhum remorso aparente.

E daí a conversa foi prum rumo que eu já esperava: de como os bandidos tiveram sorte de estarem vivos, de como a cadeia era boa demais pra eles, porque tinha comida e cama, de como a polícia do df é boazinha, porque de fosse a rotan do goiás tinha matado. E a conversa continuou, porque o pai da motorista era policial, e ela contou da última vez que ele tinha levado um tiro de um cara abordado, e que ele só não matou o atirador porque tinha muita testemunha e podia dar problema, porque matar ele já tinha matado muitos antes etc etc etc.

As três falavam com tanta certeza, concordavam em tudo com tanta paixão, que eu fiquei calada a viagem toda, sentindo um mal estar físico, como se o ódio pairando me causasse náuseas.

***

Mas é claro que esse texto não é sobre minha recém adquirida sensibilidade física ao ódio alheio, ó, tadinha de mim, sofrendo as dores do mundo. Claro que não é isso. Também não preciso explicar o porque do mal estar: se você não entende o porquê de eu não admitir, nem na hipótese do crime mais hediondo, a ideia de punir também com morte o autor do crime, saia daqui e se junte aos comentaristas desta notícia.

O texto é sobre o porquê de eu não ter falado nada. Foi nisso que eu fiquei pensando depois de finalmente sair daquele carro: como nós, pacifistas, humanistas, pessoas que buscam praticar a tolerância e incentivar uma cultura de não-violência podemos competir com um ódio tão enraizado, cultivado, assistido e incentivado por datenas e afins, que tem uma força que atravessa verticalmente todas as classes sociais, do pobre pobre passando pela classe média média, chegando aos ricos de verdade. 

Gente pra quem a violência praticada em forma de arte ou ficção não é catarse (a gente bate no deputado corrupto junto com o capitão nascimento no filme pra não precisar bater de verdade, a gente esfaqueia os caras malvados junto com o Dexter na série pra não precisar esfaquear de verdade), mas só um ensaio pro que eles realmente querem e precisam fazer - e farão assim que tiverem a oportunidade.

O que fazer? Como usar uma arma diferente que não seja usar o mesmo discurso e ENSINAR NA MARRA ESSE POVO TÃO BÁRBARO QUANTO OS BANDIDOS QUE ELES TÊM QUE RESPEITAR OS DIREITOS HUMANOS, CACETE? 

Como responder a esse ódio com uma coisa diferente do ódio e, finalmente, romper esse ciclo? Dalai Lama, me ensina?

***

Domingo, ouço meu crismando de 16 anos, contar, rindo, que passou o natal no hospital e levou um tiro na perna. Levou um tiro porque reagiu, fez que ia entregar a sacola que o assaltante pediu e em vez de entregar saiu correndo pra casa. Ouviu o disparo, e só percebeu que tinha sido atingido na perna quando chegou em casa e viu o sangue. Por que você reagiu? pergunto, dando bronca, Já perdi a conta de quantas vezes me assaltaram e eu não fiz nada. Dessa vez tava do lado de casa. Achei que dava pra correr e corri, ele responde.

Não foi a sacola que ele não quis entregar, foi a dignidade. 

Alguns meses antes, ele poderia ser o menor que atirou. O trabalho que nós fizemos na catequese (sim, a mesma igreja que acolhe os fariseus que comentam coisas assim, dá muitos bons frutos), e, de modo especial, o trabalho que eu tive com ele, fez com que ele hoje não fosse atrás de uma vingança, de identificar o ladrão e buscar um acerto de contas.

***

Mas eu também já passei da fase idealista de querer mudar o mundo. Passei também da fase achar que não posso mudar nada, e ficar sofrendo calada com a minha indignação. A primeira fase é megalomaníaca, a segunda é fruto de um egoísmo disfarçado de realismo. As duas coisas não produzem nada, não mudam nada, mas são ótimas pra encher páginas e páginas de uma teoria - ou de uma rede social - que não muda a vida de ninguém.  

Estou na fase de pensar no que eu posso fazer pra modificar essas duas situações que presenciei nessa semana: a mentalidade de quem acha que defender condições minimamente descentes de vida pros presos é o mesmo que compactuar com a bandidagem (querer que a polícia não mate o estuprador ladrão assassino não é se indignar menos com o estupro, roubo, homicídio, peloamordedeus! é querer que o assassinato, o roubo e o estupro parem SEJA CONTRA QUEM FOR! é odiar o crime, não o criminoso, é odiar o pecado, não o pecador - é a atitude mais básica que se pode esperar de um cristão: compaixão! de um humanista: tolerância!)
E, mais importante e essencial: impedir que esses meninos de dezesseis anos andem por aí com armas matando e morrendo por uma sacola.

Eu tenho que poder fazer alguma coisa. Se não, pra que que serve ter estudado o que eu estudei, ler o que eu li, conhecer o que eu conheço, ter a família e os amigos e o emprego que eu tenho?  Vou me afogar nessa riqueza de pensamentos e experiências e viver de mim, pra mim, por mim? Não. Isso tem que transbordar de algum jeito, frutificar, chocar, questionar, dialogar, transformar e ser transformado.












Isso não é um desabafo: é um pedido de ajuda. 

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não beijei (crônicadeviagem)

>> terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Renato se apaixonou por uma garota de programa de luxo? De verdade? Isso é tão romântico, tão Paris, ou Rio de Janeiro do século XIX e suas cortesãs! Mande-o ler Lucíola! (pensando melhor, não mande, ele pode querer que a tal Michele tenha o mesmo destino da pobre Lúcia...!)

Creio que a dor do rapaz foi causada mais pelo atordoamento de ver aquele beijo do que pela traição em si. Talvez se ela tivesse contado, ou se ele só percebesse uma tensão sexual entre os dois, a reação não teria sido tão, digamos, drástica. Mas o beijo... aquele beijo! É quase como em Estômago, tirando a parte trágica...

Sem beijo visto, sabido e comprovado, não tem traição. 

João Pessoa, 2011.
Praia, céu, estrelas e um calor diminuído pela brisa vinda do atlântico. Era a última noite dessa viagem, a primeira desde que eu começara a trabalhar. Estava com dois amigos, feitos mais cedo naquela mesma noite, curtindo o gosto que sabia a "juventude" (se usa "sabe a" em português? acho essa expressão tão bonita!), de não ter que dirigir, de andar pela rua deserta, comprar bebida no mercado e beber na beira da praia, à luz do luar - tudo aquilo que ei deveria ter feito na adolescência, e que eu não teria a chance de fazer de novo ao voltar pra brasília.

Voltando pra casa, pro trabalho, pro namorado, lembrei muitas vezes da sensação de liberdade que tive naquela noite. Contraditoriamente, lembrei com um pouco de remorso. Ainda estava em dúvida se havia traído ou não meu compromisso ali também. Um dos amigos quis, digamos, estreitar os laços da amizade que nos unia. Não cedi, é claro, mas participei do jogo de sedução inspirado pela brisa que vinha do Oceano. Traí ou não traí? Será que a traição começou no momento em que eu permiti que o outro tentasse me seduzir? Essa simples conivência com o ataque do outro já é traição? 

Eu, como namorada traída em potencial,  diria, sem pestanejar: Claro! Como a namorada prestes a ser infiel, respondo que não: é até melhor deixar que o outro tente - para que a minha resistência tenha mais valor!

E resisti, de fato. Beijo não houve. Contra ele não haveria argumento teórico possível. Aceitar inerte as carinhos daquele que investe contra suas resistências, procurando miná-las com a força das reações do seu próprio corpo, é, acredito eu, desculpável. O beijo, não. O beijo é um acontecimento, uma iniciativa, uma manifestação ativa do seu desejo de experimentar o outro! Não há imparcialidade no beijo! Há dois atores rendidos um ao outro, conquistadores e conquistados ao mesmo tempo. Dominadores de quem os domina!

(Talvez esse seja só um pensamento conveniente para manter minha consciência tranquila)

Mas, voltando ao nosso amigo que presenciou o beijo indesculpável, me comprometo a tentar reverter esse coração rancoroso ao mesmo campo fértil para o amor que ele era antes. Vou te provar que existem amores na nossa cidade, sim! Não os inspirados pela brisa do mar, é verdade... mas os de outro tipo, inspirados pelo vento paciente e constante que dá a forma, torta, é verdade, mas única, das árvores do cerrado.

Mas isso você só vai perceber quando, como eu, não puder sentir mais esse vento.

Continue me mandando os resultados dos seus arroubos literários! Eles me mantêm mais perto de casa, mais perto de você.

Com saudade e afeto,
Alice.




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